Conteúdo:
Objetivo: Entender a importância da Cartografia para a construção do conhecimento do ser humano. Aplicar o sistema de coordenadas geográficas à localização de pontos na superfície terrestre.
Introdução
Na aula passada, vimos que o espaço geográfico e seus conceitos auxiliares, constituem o objeto de estudo da Geografia, uma ciência envolvida com os aspectos sociais e espaciais da sociedade.
Nesta aula, veremos como a Geografia, em colaboração com a Cartografia, dispõem de técnicas para representar o espaço geográfico.
Ao final, você saberá qual a importância da Cartografia para o conhecimento do ser humano e, também, aprenderá a localizar-se no espaço pelos pontos cardeais e pelas coordenadas geográficas.
Esta aula responde a uma pergunta mais específica que "como ler um mapa": como a humanidade resolveu, ao longo de milhares de anos, um problema prático, descrever a posição exata de um lugar sem apontar o dedo. Da pintura nas cavernas até as coordenadas que o GPS do seu celular usa agora mesmo.
Duvid -
Entrevista
Essa semana o convidado é a Cartografia.
Duvid: Bem-vinda Cartografia. Sabemos que a senhora está bem ocupada cuidando da localização da Terra. Então, estamos felizes que tenha tido tempo para falar conosco.
Cartografia: Sem problemas. E, eu estou bastante ocupada, ainda mais nos dias de hoje com satélites e GPS, antigamente era mais fácil se preocupar com o mapeamento do mundo.
Duvid: Podemos imaginar. Antes o ser humano nem sabia escrever e já fazia pinturas nas cavernas ou marcava locais de caça para conseguir voltar com segurança.
Cartografia: Foi minha primeira experiência, eu me lembro. Ah, como eu era primitiva, os homens faziam as pinturas no teto das cavernas de animais ou situações do cotidiano. Eu ainda era bem nova, isso há uns 40 mil anos atrás na época do neolítico. Como o tempo passa, não é verdade?
Duvid: Sim, passa rápido. Aproveitando esse tema, nós pesquisamos sua rede social e descobrimos essa sua obra aqui que a senhora postou há cerca de 2500 a 3000 anos A.C:
Cartografia: Vocês pesquisam mesmo sobre nossa origem! Esse trabalho é uma verdadeira relíquia. Eu até esqueci a data correta lá na Mesopotâmia. Hoje já mudou o nome, para o atual Iraque e Kuwait, mas antigamente era na cidade da Babilônia que fazíamos esse tipo de mapa. Era comum escrever na argila, queríamos registrar o encontro do rio Tigre com o Eufrates, tempo bom aquele.
Duvid: E, do mesmo modo, os gregos tiveram um papel muito importante para conhecer o espaço geográfico, não foi?
Cartografia: Sem dúvida. Eu ajudei Eratóstenes, uns 200 anos antes de Cristo, a fazer um mapa da área até então conhecida pelos homens, eles não sabiam o que ainda estava por vir.
Duvid: Nós também recuperamos essa obra-prima. Olha, uma reconstituição (de autor não identificado) do mapa de Eratóstenes, de cerca de 220 A.C. O matemático, geógrafo, poeta grego e bibliotecário de Alexandria usou os levantamentos do mundo conhecidos, após as conquistas de Alexandre, o Grande.
Cartografia: Maravilhoso. Esse mapa mostra a Europa, parte da Ásia e parte do Norte da África. E ele ainda fez o cálculo da circunferência da Terra, quase de maneira exata com os dados de hoje.
Duvid: Esses gregos eram realmente incríveis. A china e o mundo árabe produziram muitos mapas. Mas na Idade Média, um chamou à atenção, o mapa em T. Por que ele foi tão importante? O que significa esse formato?
Cartografia: Bom, diferente dos outros mapas, esse representou a influência da religião cristã. Eu vivi muito ligada à igreja. Perceba que a forma em círculo representa a esfericidade da Terra e a letra T a divisão entre a Europa, Ásia e África. Mas não posso negar a representação da cruz cristã e da Santíssima Trindade nesse mapa. Era comum colocar Jerusalém no centro dos mapas.
Duvid: Uau! Que história. E ainda nem haviam mapeado as Américas. E para encerrar, uma última pergunta: Como a senhora se definiria?
Cartografia: Essa pergunta é realmente difícil. Eu diria que não sou de uma única maneira ou não me defino por apenas um ângulo. Eu sou uma ciência, mas também uma técnica. E porque não dizer uma arte! Eu ajudo os homens a conhecerem e representarem o mundo e sou quase como uma irmã para a Geografia em particular. Eu mudei muito com o passar do tempo. Lembra que comecei nas cavernas, passei pela argila, pelo couro, pelos papiros, as grandes navegações e hoje estou inteiramente conectada com os satélites pela internet. Eu localizo fenômenos naturais e sociais e estou em constante mutação. É isso que penso que sou.
Duvid: Nós vimos hoje um outro lado seu, senhora Cartografia. Acho que teremos que fazer outra entrevista no futuro.
Cartografia: Eu agradeço pelo interesse e, da mesma forma, de poder compartilhar o que sei. Obrigado e até mais.
Agora é com você!
Após ter lido a Entrevista com a Cartografia, escreva em seu caderno três perguntas que gostaria de fazer para aprender mais sobre esse tema. Seja criativo!
Vale um globinho. Você precisará deles para completar sua aula e seguir adiante.
Os elementos de um mapa
Antes de entrar nos pontos cardeais e nas coordenadas, vale entender o que faz de um desenho um mapa de verdade, e não apenas um rabisco. Um mapa é uma redução da realidade, e toda redução precisa de regras claras para que quem olha consiga confiar no que está vendo. Por isso, um mapa bem construído carrega sempre um conjunto de elementos obrigatórios.
O título diz o que está sendo representado e, muitas vezes, o recorte temporal da informação (por exemplo, "Densidade demográfica do Brasil, 2022"). A legenda explica o significado de cada símbolo, cor ou padrão usado no mapa: sem ela, ninguém sabe se uma área pintada de vermelho representa alta temperatura, alta pobreza ou alto desmatamento. A orientação, quase sempre indicada por uma rosa dos ventos ou por uma seta apontando para o Norte, informa qual direção corresponde ao topo do mapa. E existe ainda a fonte, que indica quem produziu o mapa e quando, permitindo checar a confiabilidade da informação.
O elemento mais decisivo, no entanto, é a escala cartográfica. Ela é a relação entre o tamanho no papel (ou na tela) e o tamanho real no terreno. Existem dois jeitos principais de representá-la. A escala numérica aparece como uma fração, por exemplo 1:100.000, o que significa que 1 centímetro no mapa corresponde a 100.000 centímetros (ou seja, 1 quilômetro) na realidade. Já a escala gráfica é uma régua desenhada dentro do próprio mapa, com marcações que já convertem centímetros em quilômetros, sendo mais fácil de usar porque continua correta mesmo se o mapa for impresso em um tamanho diferente do original.
Um erro comum de quem está aprendendo é confundir "escala grande" com "área grande". É o contrário: quanto menor o segundo número da fração (por exemplo, 1:5.000 em vez de 1:1.000.000), maior é a escala, porque a fração 1/5.000 é matematicamente maior que 1/1.000.000. Mapas de grande escala mostram pouca área com muito detalhe, como a planta de um bairro ou de uma escola. Mapas de pequena escala mostram muita área com pouco detalhe, como o planisfério que você usou para localizar os pontos A e B nesta aula. Essa diferença de escala explica por que um arquiteto usa uma planta para desenhar uma casa, enquanto um geógrafo usa um mapa para representar o Brasil inteiro: o nível de detalhe necessário em cada caso é diferente, como você já viu na seção de Perguntas e Respostas.
Vale lembrar, também, a diferença entre mapa, carta e planta, que costuma confundir quem está começando. O mapa representa uma área extensa, como um país ou continente, em pequena escala e sem grande riqueza de detalhes. A carta representa uma área intermediária, geralmente dividida em folhas padronizadas (como as cartas topográficas do IBGE), com escala média e mais detalhes, incluindo curvas de nível que mostram o relevo. Já a planta representa uma área pequena, como um lote, uma casa ou uma praça, em grande escala e com riqueza máxima de detalhes.
Além da escala, os mapas também variam pelo tipo de informação que carregam. O mapa político mostra fronteiras entre países, estados ou municípios, com cada território geralmente pintado de uma cor diferente. O mapa físico destaca o relevo, a hidrografia e a vegetação, sem se importar com as divisões políticas. Já os mapas temáticos concentram uma única informação específica sobre um recorte espacial, como densidade demográfica, distribuição de chuvas, taxa de desemprego ou índice de desmatamento, quase sempre usando um recurso chamado coropletia (regiões pintadas em tons mais fortes ou mais claros conforme o valor do dado representado). É esse tipo de mapa temático que aparece com mais frequência em questões de vestibular, justamente porque cruza um dado numérico com a distribuição espacial dele, cabendo ao estudante interpretar por que aquele fenômeno se concentra em determinada região e não em outra.
Por que aprender a se localizar?
É comum representar o espaço geográfico para melhor conhecê-lo. Mas como fazer isso? É aí que entra a Cartografia. Assim como aprender a ler e escrever é vital para nossa formação humana, “ler” o espaço em que vivemos é fundamental para melhor organizarmos nosso bairro, cidade ou país.
Veja o que diz um famoso geógrafo francês, Yves Lacoste:
As cartas, como veremos a seguir, representam áreas menores que o mapa. Esse registro do espaço geográfico começou quando os homens estabeleceram referências simples para sua localização, como montanhas, rios, árvores ou outros elementos da paisagem para retornarem de maneira segura para casa.
Outra referência principal foi por meio dos astros, no caso o Sol, a lua e as estrelas. Foi ai que foi desenvolvido pelos homens um sistema de referências chamado de pontos cardeais. Veja a representação aqui:
Para se localizar por meio do Sol, temos que observar em que lado ele “nasce” ou surge pela manhã. Esse fenômeno ocorre devido ao movimento de rotação da Terra.
Rotação - O movimento de rotação terrestre é aquele que o planeta executa em torno de seu próprio eixo, em um período de, aproximadamente, 24 horas. Graças a ele, a Terra é achatada nos polos e expandida no Equador, não formando uma esfera perfeita. Mas é, também, por causa desse movimento que temos a variação dos períodos de claro e escuro, isto é, dias e noites na Terra, dentre outros fenômenos. Veja a imagem:
Na realidade, o sol não nasce todo dia, mas sim a Terra que gira em torno de si mesma e possibilita esse movimento aparente do Sol.
É esse movimento que utilizamos para nos orientarmos no espaço. Desse modo, ao apontar o braço direito para onde o Sol nasce estabeleceu-se uma convenção que seria o ponto cardeal Leste. Isso porque na tradição religiosa, Jerusalém estava no Leste da Europa ou Oriente. Já o lado oposto ou o braço esquerdo é o Oeste ou Ocidente.
À nossa frente está o Norte, e nas nossas costas o Sul. A mesma coisa acontece com a Lua. Ela nasce no Leste e se põe no Oeste.
É possível, também, orientar-se pelas estrelas. Nesse caso através das constelações da Ursa Menor, (visível somente no hemisfério Norte) e a Cruzeiro do Sul (visível no hemisfério Sul).
É por isso que temos a Rosa-dos-Ventos. Inicialmente utilizada para a navegação, daí o seu nome e formato ligado ao vento. Ela concentra a ideia do plano cartesiano de Norte e Sul no eixo Y e de Leste e Oeste no eixo X. Além de seus pontos colaterais: nordeste, noroeste, sudoeste e sudeste, além de outros.
Entretanto, essa navegação somente por orientação pelos astros, às vezes não é muito precisa ou exata. Diante disso, os aparelhos foram aperfeiçoados , tais como a bússola, inventada pelos chineses e com uma agulha imantada que aponta para o norte magnético da Terra; o Astrolábio, que determinava geometricamente a posição das estrelas, mas era de difícil manuseio e foi substituído pelo Sextante. Este utiliza o sistema de latitudes que veremos adiante.
QUESTÃO PRÁTICA 01
Denominação do local onde vemos o nascimento aparente do sol?
QUESTÃO PRÁTICA 02
Denominação do local onde vemos o poente do sol?
QUESTÃO PRÁTICA 03
Denominação do local que fica a sua frente ao estender o braço esquerdo na direção do surgimento do sol?
DESAFIO DE NAVEGAÇÃO
Encontre as direções no mapa do tesouro:
ANÁLISE GEOGRÁFICA
Com base no pensamento de Ab'Saber, o que se pode concluir sobre o papel das políticas públicas globais?
As Coordenadas Geográficas
Vimos que a localização através dos astros como o Sol, a lua ou as estrelas nem sempre possuem a precisão necessária ou exata.
Para resolver esse problema, desde o tempo dos gregos, um sistema de linhas imaginárias foram criados para obter uma localização exata de qualquer ponto na Terra, as chamadas coordenadas geográficas.
Coordenadas geográficas - Consiste em um sistema de mapeamento global utilizado pela Cartografia e baseado em linhas imaginárias sobre a superfície terrestre e alinhadas ao eixo de rotação do planeta. É formado por linhas horizontais (paralelos) e verticais (meridianos).
Fonte: (Freitas, 2005).
Paralelos - São linhas que dividem o globo horizontalmente, sendo o Equador o paralelo zero grau. (0º). Este divide o globo em dois hemisférios: Norte (Boreal ou setentrional) e Sul (Austral ou Meridional).
Fonte: (Freitas, 2005).
Meridianos - São linhas imaginárias que dividem o globo verticalmente em: hemisfério oriental (Leste) e ocidental (Oeste). O Meridiano zero grau foi convencionado como o da cidade de Greenwich, nos arredores Londres, Inglaterra.
Fonte: (Freitas, 2005).
Latitude - É o ângulo formado pelo paralelo principal, Equador e o paralelo do lugar que se quer localizar, variando de 0º a 90º Sul ou Norte
Longitude - É o ângulo formado entre o meridiano inicial, Greenwich, e o meridiano do lugar que queremos localizar. A longitude varia de 0º a 180 para Leste e para Oeste.
Juntos, Latitude e Longitude formam o sistema de referência para localização espacial terrestre.
Para facilitar a localização, as coordenadas são, frequentemente, dispostas em um planisfério (assunto ligado as Projeções Cartográficas que veremos nas próximas aulas).
Fonte: https://suportegeografico77.blogspot.com/
Para localizarmos qualquer ponto na superfície da Terra, basta iniciarmos pela Latitude (Norte ou Sul) e depois a Longitude (Oeste ou Leste).
Exemplo: Localização do ponto A acima:
Ponto A: Lat. 50ºS, Long. 100ºL ou 50ºS 100ºL. É comum aparecer a nomenclatura em inglês das localizações: North, South, East e West.
Ponto B: Lat. 30ºN, Long. 160ºL ou 30ºN 160ºL
Agora é com você!
Localize no planisfério acima os pontos C, D, E e escreva em seu caderno corretamente:
Ponto C: Lat.: ___º__; Long.:___º___.
Ponto D: Lat.: ___º __; Long.:___º___.
Ponto E: Lat.: ___º __; Long.:___º___.
Do papiro ao satélite: como o GPS encontra você
A senhora Cartografia comentou, lá na entrevista, que hoje está "inteiramente conectada com os satélites pela internet". Vale entender como isso funciona, já que você provavelmente usa esse sistema todos os dias sem perceber, seja para chegar a um endereço novo, seja para saber o horário de chegada do ônibus.
O GPS (Global Positioning System, ou Sistema de Posicionamento Global) foi criado pelos Estados Unidos, a princípio para uso militar, e se tornou disponível para uso civil nas décadas seguintes. Hoje ele é apenas um entre vários sistemas do tipo GNSS (sigla em inglês para Sistema Global de Navegação por Satélite): a Rússia opera o GLONASS, a União Europeia o Galileo e a China o BeiDou. Juntos, esses quatro sistemas somam mais de 130 satélites ativos orbitando a Terra, o que garante que, em praticamente qualquer ponto do planeta, um receptor consiga captar sinal de satélites suficientes para calcular sua posição.
O princípio é, na essência, o mesmo das coordenadas geográficas que você acabou de aprender. Cada satélite envia constantemente um sinal de rádio informando sua posição exata e o horário exato em que o sinal foi enviado. O receptor no seu celular capta o sinal de pelo menos quatro satélites diferentes e, calculando o tempo que cada sinal levou para chegar (multiplicado pela velocidade da luz), consegue calcular a distância até cada um deles. Cruzando essas distâncias, o aparelho converte tudo em uma latitude e uma longitude, exatamente o sistema de paralelos e meridianos que a humanidade vem aperfeiçoando desde os gregos.
As aplicações vão muito além de aplicativos de trânsito como o Waze ou o Google Maps. A agricultura de precisão usa GPS acoplado a tratores para plantar e colher com margem de erro de centímetros, economizando sementes e combustível. Companhias aéreas e marítimas dependem do sistema para traçar rotas seguras. Serviços de entrega e aplicativos de transporte calculam tempo de chegada em tempo real. Até pesquisas científicas sobre o movimento das placas tectônicas usam receptores de GPS fixos para medir, com precisão milimétrica, o quanto os continentes se deslocam a cada ano. É a mesma pergunta que a humanidade tenta responder desde as pinturas nas cavernas, "onde eu estou?", só que agora respondida em segundos e com margem de erro de poucos metros.
Mapas e poder: a Cartografia não é neutra
Existe uma ideia enganosa de que um mapa é só uma foto objetiva da realidade. Na prática, todo mapa é uma escolha: quem o desenha decide o que aparece, o que fica de fora, qual ponto fica no centro e, principalmente, qual sistema de projeção cartográfica usar para transformar a superfície esférica da Terra em um desenho plano, algo matematicamente impossível de fazer sem distorcer alguma coisa. Esse é um assunto que você vai aprofundar em aulas futuras, mas já vale conhecer o problema que ele resolve.
O exemplo mais estudado é a projeção de Mercator, criada em 1569 pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator para facilitar a navegação marítima: como ela representa os meridianos como linhas retas e paralelas (quando, na realidade, eles se encontram nos polos), o preço pago é o exagero do tamanho das áreas mais distantes do Equador. O resultado é que a Groenlândia aparece do mesmo tamanho que o continente africano nesse tipo de mapa, quando na realidade a África é cerca de 14 vezes maior. Europa e América do Norte também aparecem desproporcionalmente grandes, enquanto países próximos ao Equador, como o Brasil, ficam visualmente "encolhidos" em relação ao seu tamanho real.
Esse tipo de distorção não é só um detalhe técnico. Movimentos como a campanha "Correct The Map", apoiada pela organização Africa No Filter e pela Comissão da União Africana, argumentam que a proporção com que um continente aparece no mapa mundial influencia, mesmo que de forma sutil, a percepção de sua importância política e econômica, e defendem a adoção de projeções alternativas, como a Equal Earth, que preservam a proporção real entre as áreas dos continentes.
O Brasil também tem sua própria tradição de questionar o mapa "padrão". Em 1943, o artista uruguaio Joaquín Torres García desenhou a "América Invertida", um mapa da América do Sul de ponta-cabeça, com o Sul no topo, acompanhado da frase "nuestro norte es el sur" ("nosso norte é o sul"). Repare, no esboço original abaixo, que ele até anotou coordenadas geográficas reais no desenho, a latitude e a longitude de Montevidéu (34°S, 56°O), como se estivesse assinando o mapa com o mesmo tipo de informação que você aprendeu nesta aula.
Joaquín Torres García, esboço da "América Invertida", 1943. Obra em domínio público (o artista faleceu em 1949).
Não se trata de uma projeção cartográfica tecnicamente nova, mas de uma obra artística e política: um lembrete de que colocar o hemisfério Norte sempre no topo dos mapas também é uma convenção, a mesma ideia de convenção que você viu na explicação sobre o Leste e o Oeste, e não uma verdade absoluta da natureza. Nada, na física do planeta, obriga um mapa a ser desenhado com o Norte para cima: essa é apenas a forma que se tornou costume ao longo da história europeia da Cartografia.
Entender isso não significa desconfiar de todo mapa, mas sim lê-lo de forma crítica: perguntar quem o produziu, com qual objetivo e qual projeção foi escolhida. É exatamente esse tipo de leitura crítica do espaço que a Geografia se propõe a ensinar, e que você vai aprofundar quando estudar, nas próximas aulas, os fusos horários e outras formas de representar o tempo e o espaço na superfície terrestre.
Infográfico - Resumo
Fonte: Organizado e revisado pelo autor.
Não existe pergunta boba, existe pergunta que não foi feita!
P: Sempre que penso em Geografia já me lembro de mapas, isso é correto?
R: Sim, isso é normal devido à associação com a linguagem cartográfica. Aliás, podemos dizer que a linguagem da Geografia é a Cartografia. Embora os mapas sejam usados em diversas áreas do conhecimento, é na Geografia que ele é mais evidente pelo fato de que o estudo do espaço geográfico se torna melhor representado pelos mapas.
P: Qual a diferença entre mapas, cartas e plantas?
R: Trata-se, mais uma vez, de formas de representar o espaço geográfico e do nível de detalhes que queremos revelar. Por exemplo, quero que um arquiteto faça um modelo de uma casa, ele usará uma planta com uma escala próxima da realidade (assunto que veremos nas próximas aulas). Já o mapeamento de bairro inteiro exige outra escala. Quero representar o território brasileiro, então usamos o mapa, pois o nível de detalhes não será muito grande.
P: Qual a circunferência da Terra e quanto vale 1º em km, já que a Terra é uma esfera de 360º?
R: Para saber quanto vale 1º grau devemos dividir a circunferência da Terra no Equador, que é de 40.075 km por 360º. O resultado é de aproximadamente 111 km. Isso no Equador, pois a longitude varia de acordo com a proximidade dos polos. Como o dia tem 24 horas e uma circunferência tem 360º, se dividirmos 360 por 24m obteremos 15º, que é o caminho percorrido pela Terra em apenas 1 hora. Calcular a longitude é fazer esse cálculo de tempo entre uma posição e outra.
O que mudou no seu olhar
Releia as três perguntas que você escreveu depois da entrevista com a Cartografia. Você já consegue respondê-las com o que aprendeu? Antes desta aula, "se localizar" provavelmente significava só olhar um mapa pronto. Agora você sabe que por trás de qualquer ponto marcado num mapa existe um sistema construído ao longo de milhares de anos: das pinturas em cavernas e do mapa de Eratóstenes até a grade de paralelos e meridianos que você usou para encontrar os pontos C, D e E no planisfério.
Pontos cardeais e coordenadas geográficas resolvem o mesmo problema em escalas diferentes: os pontos cardeais bastam para dizer "para que lado eu vou", mas só a latitude e a longitude conseguem apontar um único lugar entre os bilhões de pontos da superfície da Terra, a mesma lógica que faz o GPS do seu celular funcionar. E, como você viu no bloco sobre Mercator e sobre a América Invertida, nenhum mapa é neutro: toda escala e toda projeção carrega escolhas.
Falando em escolhas: se a latitude e a longitude localizam um ponto no espaço, ainda falta responder a uma pergunta que parece simples, mas não é: que horas são nesse ponto? Na próxima aula você vai descobrir como a longitude, a mesma linha imaginária que acabou de aprender a ler, também é usada para dividir o planeta em fusos horários, e por que o Brasil tem mais de um horário oficial ao mesmo tempo.
Resumo dos conceitos: pontos cardeais (Norte, Sul, Leste, Oeste, a partir da rotação da Terra); orientação e convenção (acordos que tornam a localização possível); rosa dos ventos (instrumento que organiza os pontos cardeais e colaterais); escala cartográfica (relação entre o mapa e o terreno real); coordenadas geográficas (paralelos e meridianos); latitude (ângulo Norte-Sul a partir do Equador); longitude (ângulo Leste-Oeste a partir de Greenwich); GPS/GNSS (localização por satélite); projeção cartográfica (a conversão da esfera terrestre em desenho plano, sempre com alguma distorção).
Ficha de Conceitos
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Referências Bibliográficas
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