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Conteúdo:

Objetivo: Compreender o ciclo hidrológico e sua importância para a distribuição da água no planeta; identificar as bacias hidrográficas como unidades de gestão do território; reconhecer os principais movimentos oceânicos e seus efeitos sobre o clima e a vida humana.


A água que você usa hoje

Desde que você acordou, quantas vezes usou água? Banho, escova de dente, café, louça. Agora pense: de onde veio essa água? E para onde ela vai depois que escoa pelo ralo?

Talvez você ache que ela simplesmente "some". Mas não some. Ela entra no esgoto, vai para o rio, evapora, vira nuvem, cai como chuva em algum lugar e recomeça tudo. A água que você usou hoje já esteve nos oceanos, nas geleiras, no solo, em rios que você nunca vai ver.

E a chuva que molhou sua rua ontem? Ela veio de algum lugar. Pode ter evaporado de um lago, de um rio, ou até da Floresta Amazônica, a mais de mil quilômetros daqui. Clique na palavra abaixo para ver o que conecta tudo isso.

Toda essa circulação tem um nome: ciclo hidrológico.

Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), cada brasileiro consome, em média, cerca de 154 litros de água por dia, contando banho, descarga, cozinha e limpeza. Esse número esconde uma desigualdade regional grande: no Sudeste, o consumo médio passa de 180 litros por pessoa, enquanto no Nordeste fica perto de 110 litros. A Organização das Nações Unidas considera 50 litros diários o mínimo necessário para beber, cozinhar e manter a higiene básica. Guarde esses números. Eles vão ser importantes para responder à pergunta que você vai ler no próximo bloco.


Antes de continuar: uma pergunta que você precisa responder.

O Brasil tem cerca de 12% de toda a água doce superficial do planeta. É o país com a maior reserva de água doce do mundo.

Mesmo assim, no semiárido nordestino, famílias passam meses sem água. Municípios inteiros dependem de carros-pipa. Crianças caminham quilômetros para buscar água em açudes secos.

Não é exagero nem coisa do passado. Hoje, a Operação Carro-Pipa, mantida pelo Exército Brasileiro em parceria com o governo federal, abastece dezenas de milhares de cisternas coletivas todos os meses, levando água potável para mais de 1,5 milhão de pessoas em centenas de municípios de oito estados do Nordeste. É uma operação permanente, não emergencial: existe desde 2012 e continua funcionando neste exato momento, mais de uma década depois.

Como você explica isso?

No caderno, escreva pelo menos 5 linhas com sua hipótese. Não pesquise ainda. Use o que você já sabe. A gente volta a essa pergunta no final da aula.


Como a água circula no planeta

A água na Terra não fica parada. Ela circula continuamente entre quatro grandes reservatórios: os oceanos, a atmosfera, as águas superficiais (rios e lagos) e as águas subterrâneas. Esse movimento é o ciclo hidrológico e é ele que garante a existência de água doce em continentes distantes do mar.

Antes de seguir, vale um número que costuma surpreender: dos quase 1,4 bilhão de km³ de água que existem no planeta, cerca de 97,5% é água salgada, dos oceanos. Da fatia de água doce que sobra, pouco menos de 2,5% do total, a maior parte está presa em geleiras e calotas polares, praticamente inacessível. O que realmente circula pelos rios, lagos e aquíferos que abastecem a vida humana é uma fração pequena desse total, algo perto de 1% de toda a água do planeta. É por isso que, mesmo num planeta coberto de água, a água doce disponível é um recurso escasso e mal distribuído entre os continentes e dentro de cada país.

Tudo começa com a evaporação: o calor do sol transforma a água dos oceanos e rios em vapor, que sobe para a atmosfera. As plantas também liberam vapor pelo processo chamado transpiração. Juntos, os dois formam a evapotranspiração, a principal "bomba" que injeta umidade na atmosfera sobre os continentes.

Etapas do ciclo hidrológico As etapas do ciclo da água: evaporação, condensação, precipitação e infiltração.

O vapor sobe, esfria e forma nuvens: esse processo é a condensação. Quando as gotículas se acumulam o suficiente, caem como chuva, neve ou granizo: é a precipitação. Dessa água que cai, uma parte escoa pelos rios até o mar, outra infiltra no solo e outra evapora novamente, reiniciando o ciclo.

Quanto tempo a água fica em cada lugar?

Cada reservatório retém a água por um tempo diferente. Esse intervalo chama-se tempo de residência. Uma molécula de água na atmosfera fica em média 9 dias antes de cair como chuva. Nos rios, fica semanas a meses. Nos oceanos profundos, pode ficar mais de 3.000 anos. Nas geleiras polares, até 100.000 anos.

Isso explica por que a poluição dos lençóis freáticos é tão grave: a água que infiltra no solo e chega aos aquíferos (reservatórios subterrâneos de água doce) pode ficar ali por séculos. Se contaminarmos, levamos gerações para remediar. O Aquífero Guarani, que se estende por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai com 1,2 milhão de km², abastece cerca de 200 cidades brasileiras e uma população estimada em 15 milhões de pessoas na região onde ocorre, mas está sob crescente pressão de exploração excessiva e contaminação agrícola.

Mapa de localização do Aquífero Guarani Área de ocorrência do Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do mundo, compartilhado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

A floresta que faz chover

Sem vegetação, o ciclo perde força. As florestas liberam umidade continuamente para o ar, atraem nuvens e sustentam as chuvas da região. Quando o desmatamento avança, o solo resseca rapidamente, os rios perdem volume e as chuvas ficam cada vez mais irregulares: secas mais longas, chuvas mais concentradas e destrutivas.

No Brasil, os chamados rios voadores são grandes correntes de vapor transportadas pela Floresta Amazônica para o interior do continente. São eles que carregam a umidade que abastece o Centro-Sul do país. Pesquisadores estimam que a Amazônia libera cerca de 20 bilhões de toneladas de vapor por dia, volume maior do que o Rio Amazonas lança no oceano. Cada hectare de floresta derrubado enfraquece esse sistema e afeta diretamente o abastecimento de cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Brasília.

As mudanças climáticas intensificam esse problema. Com o aquecimento global, a evaporação aumenta em algumas regiões e diminui em outras, alterando padrões de chuva que duraram milênios. Regiões que sempre foram úmidas ficam mais secas; regiões áridas recebem chuvas torrenciais imprevisíveis. O ciclo hidrológico não quebra. Ele se desequilibra.

A água que você não vê usando

Lembra da pergunta do início: quantas vezes você usou água hoje? A resposta real é bem maior do que parece, porque a maior parte da água que consumimos está escondida dentro dos produtos que compramos. Esse consumo indireto tem nome: pegada hídrica. Um quilo de carne bovina consome, em média, 15,5 mil litros de água ao longo de toda a cadeia de produção, da pastagem ao abate. Um hambúrguer sozinho representa cerca de 2.400 litros. Uma camiseta de algodão, mais de 2.500 litros. Você não vê essa água saindo de nenhuma torneira, mas ela foi gasta em algum rio, em algum aquífero, em alguma bacia hidrográfica, muitas vezes bem longe de onde o produto chega até você. Um país que exporta muita carne, soja ou algodão, como o Brasil, também está exportando água na forma invisível dos produtos que embarca, um fluxo que a geografia chama de comércio de água virtual e que raramente aparece nas discussões sobre exportação.


QUESTÃO PRÁTICA

O processo pelo qual a água dos oceanos e rios se transforma em vapor e sobe para a atmosfera chama-se:

Bacias hidrográficas

Imagine uma tigela. Toda chuva que cai dentro dela escorre para o centro. Uma bacia hidrográfica funciona assim: é toda a área de terra que drena suas águas para um mesmo rio principal e seus afluentes. Os limites entre bacias são os divisores de águas: serras e chapadas que separam onde cada gota de chuva vai parar.

Mapa das principais bacias hidrográficas do Brasil Principais bacias hidrográficas do Brasil. A Bacia Amazônica é a maior do mundo em volume de água. Fonte: ANA.

A bacia não é só um conceito geográfico. Ela é uma unidade de gestão do território. Tudo que acontece dentro dela afeta os rios: o desmatamento nas nascentes, a agropecuária no médio curso, o crescimento das cidades na foz. Por isso a Lei das Águas (Lei Federal 9.433/1997) organizou o uso da água no Brasil por bacias, criando os Comitês de Bacia, colegiados onde governo, empresas e sociedade civil negociam o uso compartilhado da água. É um avanço real, mas os comitês têm pouco poder de fiscalização e frequentemente são dominados pelos maiores usuários.

A mesma lei criou a outorga de uso da água: uma autorização que o governo concede para que uma indústria, uma fazenda ou uma cidade capte uma quantidade específica de água de um rio, por um tempo determinado. Sem outorga, o uso é irregular, mesmo que a água pareça "de todo mundo". Na prática, é o instrumento que devia impedir que um grande irrigante retire tanta água de um rio a ponto de deixar as comunidades rio abaixo sem abastecimento, embora a fiscalização insuficiente signifique que muita captação clandestina passe despercebida.

As grandes bacias do mundo

O Brasil concentra boa parte da água doce do planeta, mas está longe de ser o único palco de grandes bacias e de grandes conflitos por água. A Bacia do Nilo, na África, é hoje o exemplo mais tenso de disputa hídrica internacional: desde 2011, a Etiópia constrói a Grande Barragem do Renascimento (GERD), com capacidade para armazenar 74 bilhões de m³ de água e gerar mais de 6 mil megawatts. O Egito, quase totalmente dependente do Nilo para abastecer sua população, vê a obra como uma ameaça existencial, e as negociações entre os dois países, mais o Sudão, seguem travadas até hoje, sem acordo definitivo sobre como a barragem deve ser enchida e operada.

Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD) no rio Nilo Azul A Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD), construída no Nilo Azul, no centro da disputa hídrica entre Etiópia, Sudão e Egito.

A Bacia do Congo, também na África, é a segunda maior do mundo em volume de água, atrás apenas da Amazônica, e concentra sozinha cerca de 13% de todo o potencial hidrelétrico do planeta. O projeto Grande Inga, ainda em fase de planejamento, pretende explorar esse potencial numa escala descomunal, gerando o dobro da energia da usina chinesa de Três Gargantas, mas enfrenta obstáculos de financiamento e de instabilidade política na região. Já a Bacia do Ganges-Brahmaputra, no sul da Ásia, é a mais populosa do planeta: mais de 600 milhões de pessoas vivem em seu território, distribuídas entre Índia, Bangladesh, Nepal, Butão e China, o que faz da gestão compartilhada dessa água um desafio diplomático permanente entre países vizinhos.

Na Europa, a Bacia do Danúbio é considerada a mais internacional do mundo: o rio atravessa diretamente 10 países, mas sua bacia hidrográfica completa, com mais de 800 mil km², se estende por 19 países e abriga cerca de 79 milhões de pessoas. Diferente do Nilo, o Danúbio é geralmente citado como exemplo de cooperação: os países da bacia mantêm uma comissão internacional permanente para negociar o uso compartilhado da água havia décadas, algo que o Brasil tenta reproduzir internamente com os próprios Comitês de Bacia.

Regime fluvial: nem todo rio é igual

Os rios não têm o mesmo comportamento ao longo do ano. O regime fluvial descreve como a vazão de um rio varia entre as estações. Rios de regime perene nunca secam. O Amazonas é um exemplo, alimentado pelas chuvas abundantes da floresta. Já os rios de regime intermitente secam completamente em épocas de estiagem, como os do semiárido nordestino, que existem por meses e somem por outros. Essa intermitência é natural, mas é agravada pelo desmatamento e pelo uso excessivo da água para irrigação.

Além de perene ou intermitente, o regime também é classificado pela origem da água que alimenta o rio. O regime pluvial depende diretamente das chuvas da região, é o padrão da maioria dos rios brasileiros, já que o país tem clima predominantemente tropical. O regime nival depende do degelo de neve e geleiras nas cabeceiras, comum em rios de regiões montanhosas de clima frio, como boa parte dos rios europeus e norte-americanos, mas praticamente ausente no Brasil. Existe ainda o regime misto, alimentado tanto por chuva quanto por degelo em trechos diferentes do curso. Essa classificação ajuda a explicar por que rios de países de clima temperado, como os europeus, têm cheias na primavera, quando a neve derrete, enquanto os rios brasileiros cheiam durante o verão chuvoso.

A mata ciliar e a saúde dos rios

A faixa de vegetação que margeia rios e lagos chama-se mata ciliar. Ela filtra os sedimentos e agrotóxicos que escoam das lavouras antes de chegarem ao rio, segura as margens contra erosão e regula a temperatura da água. Quando a mata ciliar é destruída para plantar até a beira do rio, o leito assore, processo em que sedimentos e terra se acumulam no fundo do rio, deixando-o mais raso e mais largo, a água esquenta, os peixes desaparecem e as enchentes ficam mais frequentes, já que um leito mais raso extravasa com mais facilidade. O Código Florestal Brasileiro exige a manutenção de faixas mínimas de mata ciliar, que variam conforme a largura do rio, mas o cumprimento é fraco em boa parte do território, especialmente em áreas de agricultura intensiva.

Quando a torneira quase secou: a crise hídrica de São Paulo

O exemplo mais lembrado de má gestão de bacia no Brasil recente aconteceu em São Paulo. O Sistema Cantareira, principal manancial da Região Metropolitana, abastecendo à época cerca de 9 milhões de pessoas, entrou em colapso entre 2014 e 2015 depois de um ano com chuvas muito abaixo da média. Em maio de 2014, o volume útil dos reservatórios zerou, e a Sabesp precisou recorrer ao chamado "volume morto", uma reserva de cerca de 480 bilhões de litros que fica abaixo do nível normal de captação e só deveria ser usada em emergências extremas. Em fevereiro de 2015, mesmo somando as duas cotas do volume morto, o sistema chegou a apenas 3,9% de sua capacidade. Faltou chuva, mas também faltou planejamento: os comitês de bacia haviam alertado sobre a fragilidade do sistema anos antes, sem que investimentos suficientes em novos mananciais fossem feitos a tempo. Pesquisadores da Unicamp já apontavam, ainda em 2020, que uma nova crise hídrica em São Paulo poderia se repetir entre 2025 e 2027, seguindo um padrão de secas que se repete a cada década. É um lembrete de que a gestão de uma bacia hidrográfica não é um problema resolvido de uma vez, é um trabalho constante.

A transposição do São Francisco: quem tem razão?

Em 2017, o governo entregou os primeiros trechos da maior obra hídrica da história do Brasil: a transposição do Rio São Francisco, que desvia parte de suas águas para rios intermitentes do semiárido por meio de mais de 700 km de canais, divididos nos eixos Leste e Norte. O projeto segue em fase de complementação até hoje, com obras acessórias ainda em andamento décadas depois de iniciado. Foi defendido como solução para a seca. Foi criticado por não resolver o saneamento básico, por beneficiar mais a agricultura irrigada do que as comunidades pobres e por degradar o próprio São Francisco, já reduzido pela metade em sua vazão em comparação ao século passado. O debate continua: a água chegou, mas chegou para quem?

Uma solução pequena que funcionou

Enquanto a transposição avançava lentamente entre polêmicas, uma solução bem mais simples e barata já vinha mudando a vida de famílias rurais no semiárido: a cisterna. O Programa Um Milhão de Cisternas, tocado por organizações da sociedade civil articuladas na ASA Brasil em parceria com o governo federal, já entregou centenas de milhares de cisternas de placas de cimento para captar água da chuva no telhado das casas, com capacidade de cerca de 16 mil litros cada, o suficiente para uma família passar boa parte do período de seca. Não substitui grandes obras de infraestrutura, mas resolve algo que nenhuma transposição resolve sozinha: garantir água potável dentro de casa, sem depender de carro-pipa, para quem vive espalhado pelo semiárido, longe de qualquer rede de abastecimento.


QUESTÃO PRÁTICA

Os limites naturais que separam uma bacia hidrográfica de outra são chamados de:

Os oceanos em movimento

Os oceanos cobrem 71% da superfície terrestre e estão em constante movimento. O que os move são ventos, diferenças de temperatura e salinidade, e a rotação da Terra. Esse movimento tem três formas principais que você precisa distinguir.

As ondas são geradas pelo atrito do vento sobre a superfície da água. Elas transportam energia, não água. Por isso uma onda não leva objetos do Brasil até a África. Ela transfere a energia do vento até a praia e para por aí. Quanto mais forte o vento e mais extenso o trecho de mar percorrido, maiores as ondas.

As marés são variações periódicas do nível do mar causadas pela atração gravitacional da Lua e do Sol. A Lua, por estar mais próxima, exerce o maior efeito. Quando ela está sobre um oceano, puxa a água para cima, formando a maré alta. No lado oposto da Terra, a inércia do planeta também provoca uma elevação. Entre os dois pontos de maré alta, há dois pontos de maré baixa. O ciclo completo dura cerca de 12 horas e 25 minutos.

Vale distinguir maré de tsunami, um erro comum. A maré é lenta, previsível e causada pela gravidade da Lua e do Sol. O tsunami é uma série de ondas violentas causadas por terremotos submarinos, erupções vulcânicas ou deslizamentos no fundo do oceano, não por vento nem por atração gravitacional. Em mar aberto, um tsunami pode viajar a mais de 700 km/h e passar quase despercebido, porque sua altura ali é pequena. O perigo aparece perto da costa, quando a água rasa faz a onda desacelerar e crescer em altura, às vezes ultrapassando 10 metros.

Mapa das correntes oceânicas do mundo Correntes oceânicas superficiais. Quentes em vermelho, frias em azul. Fonte: NOAA.

As correntes oceânicas são grandes rios dentro do mar, com temperatura, velocidade e direção definidas. As correntes quentes partem das regiões tropicais em direção aos polos, carregando calor. As correntes frias partem dos polos em direção ao equador, esfriando as costas que percorrem. A Corrente do Golfo aquece a Europa Ocidental. Sem ela, Londres teria o mesmo clima de Moscou. No sul do Brasil, o encontro da fria Corrente das Malvinas com a quente Corrente do Brasil cria condições favoráveis à pesca e explica parte do clima mais temperado da região.

A correia transportadora global

Além das correntes superficiais, existe uma circulação oceânica muito mais lenta e profunda chamada circulação termoalina. Ela funciona como uma enorme correia transportadora: a água fria e salgada dos polos é mais densa e afunda, empurrando a água quente superficial que vem dos trópicos. Esse ciclo demora entre 1.000 e 2.000 anos para dar uma volta completa no planeta, mas é responsável pela distribuição de calor, oxigênio e nutrientes entre os oceanos do mundo. O aquecimento global, ao derreter as geleiras e injetar água doce menos densa nos oceanos, ameaça desacelerar esse sistema, com consequências climáticas imprevisíveis para todo o planeta.

El Niño, La Niña e o Brasil

A interação entre oceano e atmosfera gera fenômenos de longo alcance. O El Niño ocorre quando as águas do Pacífico equatorial ficam mais quentes que o normal. Isso altera os ventos e o regime de chuvas em todo o planeta: no Brasil, provoca secas severas no Norte e Nordeste e chuvas excessivas no Sul. Já a La Niña, o fenômeno inverso (águas mais frias no Pacífico), tende a aumentar as chuvas no Norte e agravar a seca no Sul. Esses fenômenos não são novos, mas têm se intensificado com as mudanças climáticas, e influenciam diretamente o regime dos rios que você estudou nesta aula: um El Niño forte pode reduzir a vazão de bacias inteiras no Nordeste no mesmo ano em que enche os rios do Sul acima da média.

O oceano também é território brasileiro

Assim como uma bacia hidrográfica, o mar em frente à costa também tem limites definidos por lei internacional. A faixa que vai até 200 milhas náuticas (cerca de 370 km) a partir da costa é a Zona Econômica Exclusiva, dentro da qual o Brasil tem direito exclusivo de explorar recursos vivos e minerais. Somando essa faixa às áreas que o país reivindica junto à ONU, a chamada Amazônia Azul ocupa mais de 4,5 milhões de km² de oceano, uma área quase do tamanho da Amazônia terrestre. É nessa região que ficam os campos de pré-sal, responsáveis por cerca de 85% do petróleo produzido no Brasil, além de boa parte do pescado nacional. Entender os movimentos das águas que você acabou de estudar, correntes, marés e ondas, é essencial para explorar esse território com segurança, e para entender o relevo escondido sob essa imensidão de água.

Mapa da Amazônia Azul, a Zona Econômica Exclusiva do Brasil A Amazônia Azul: a Zona Econômica Exclusiva brasileira, com mais de 4,5 milhões de km² de oceano.

QUESTÃO PRÁTICA

Diferente da maré, o tsunami é causado por:

Leia e analise

A água é um bem público, mas é tratada como mercadoria. Os rios que abastecem as cidades são os mesmos que recebem os esgotos. Os aquíferos que alimentam a agricultura industrial são os mesmos que precisam abastecer as comunidades rurais. E quando a água falta, ela falta primeiro para os mais pobres, que pagam mais caro por ela em caminhões-pipa do que os moradores dos bairros com rede de abastecimento. Enquanto não encararmos a água como direito humano e não como recurso a ser explorado pelo mercado, a crise hídrica vai continuar sendo resolvida para uns e ignorada para outros.
— Adaptado de relatório da ONU-Água, 2023

Responda no caderno antes de continuar:

1. O texto afirma que a água "falta primeiro para os mais pobres". Com base no que você estudou sobre bacias hidrográficas e ciclo da água, como você explica essa desigualdade?

2. O texto faz uma distinção entre "bem público" e "mercadoria". Qual é a diferença? Você concorda que a água deveria ser tratada como direito humano e não como mercadoria? Argumente.


Voltando à pergunta do início

Você se lembra da pergunta que fez no começo? Por que o país mais rico em água do mundo tem milhões de pessoas sem acesso regular à água?

Olha o que você aprendeu: a água não está distribuída igualmente pelo território. O ciclo hidrológico depende de floresta para funcionar, e o semiárido tem baixa cobertura vegetal e chuvas concentradas em poucos meses. As bacias do Nordeste são menores e com menos volume. A gestão das bacias hidrográficas é desigual entre regiões ricas e pobres do país.

Mas isso não é só geografia física. É também política. O Brasil investe muito menos em cisternas, açudes e saneamento nas regiões pobres do que nas grandes cidades do Sul e Sudeste. A água está lá. O que falta é que o Estado chegue onde o mercado não chega.

P: A seca no semiárido é natural ou construída?

R: As duas coisas. A região tem precipitação menor e irregular, isso é natural. Mas a falta de acesso à água é agravada pela ausência de políticas públicas, pelo desmatamento da Caatinga e pela concentração fundiária que priva pequenos agricultores das margens dos rios. O problema é real, mas parte dele tem solução, basta vontade política.

Você já entendeu como a água se move na superfície e no continente. Na próxima aula, vamos descer até o fundo do oceano e conhecer o relevo submerso: a plataforma continental, o talude e as fossas oceânicas que moldam a vida marinha e escondem boa parte do petróleo que move a economia brasileira.


Infográfico - Resumo

Infográfico resumo Hidrografia Fonte: Organizado e revisado pelo autor.

QUESTÃO ABERTA

Um exercício para reforçar alguns conceitos.

Qual país abriga a Baía de Fundy, onde a diferença entre maré alta e maré baixa chega a 16 metros?

Qual é o nome da corrente oceânica quente que aquece a Europa Ocidental, mencionada no texto?

Perguntas que você provavelmente tinha

P: Se a água do mar evapora e vira chuva, por que a chuva não é salgada?

R: Porque o sal não evapora junto. Quando a água vira vapor, ela deixa os minerais dissolvidos para trás, do mesmo jeito que uma panela de água salgada fica com uma crosta de sal no fundo depois de fervida por completo. O que sobe para a atmosfera é água pura. O sal fica no oceano, por isso o mar é salgado enquanto a chuva é doce.

P: O Brasil vai ficar sem água algum dia?

R: Não de uma vez. Mas várias regiões já estão sob pressão real. O aquífero Guarani, que abastece milhões de pessoas no Centro-Sul, não é infinito. O problema nunca foi a quantidade total de água no planeta. É o uso irresponsável, a poluição dos rios, o desperdício em redes antigas que vazam água tratada pelo caminho e a distribuição desigual entre quem pode pagar e quem não pode.

P: A maré é igual em qualquer praia do mundo?

R: Não. A intensidade depende da forma da costa, da profundidade do fundo e da posição geográfica. Em praias do Brasil a diferença entre maré alta e baixa costuma ser de 1 a 3 metros. Na Baía de Fundy, no Canadá, essa diferença chega a 16 metros, o suficiente para deixar barcos inteiros encalhados na lama na maré baixa. Dá para caminhar por onde tinha mar algumas horas antes.


Hora de usar o que você aprendeu.

Escreva uma carta

Atividade individual

Você agora conhece o ciclo da água, as bacias hidrográficas e os conflitos pelo uso desse recurso. Use esse conhecimento.

Escreva uma carta de 15 a 20 linhas para o prefeito ou prefeita da sua cidade propondo uma ação concreta para melhorar o acesso à água na região. Pode ser uma cisterna comunitária, a recuperação das matas ciliares de um rio local, uma campanha de uso consciente ou outra ideia sua.

A carta precisa usar pelo menos dois conceitos estudados nesta aula para explicar por que sua proposta faz sentido.

Dica: pense no que você descobriu sobre a bacia hidrográfica do seu município e de onde vem a água da sua cidade.


Questões para responder no caderno:

1. Com suas palavras, explique o que é o ciclo hidrológico e por que ele não para.

2. Qual é o papel da vegetação no ciclo da água? O que acontece quando uma floresta é desmatada?

3. O que é uma bacia hidrográfica? Por que ela é usada como unidade de gestão do território?

4. Cite duas grandes bacias hidrográficas brasileiras e explique a importância de cada uma.

5. Qual a diferença entre ondas, marés e correntes oceânicas?

6. Como as correntes oceânicas influenciam o clima das regiões costeiras? Dê um exemplo.

7. Por que o Brasil, sendo o país com maior reserva de água doce do mundo, ainda convive com escassez hídrica em algumas regiões?

8. O que são os rios voadores e qual é a relação deles com o clima do Centro-Sul do Brasil?

9. Quem são os grupos que mais sofrem com os conflitos pelo uso da água nas bacias hidrográficas? Por quê?

10. A água é um bem comum ou uma mercadoria? Argumente com base no que você estudou.



Antes de finalizar, vamos fazer as questões!



Para saber mais:

Referências Bibliográficas

📚 Sugestões de Livros



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