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Conteúdo:

Objetivo: Conhecer as principais formas do relevo oceânico e compreender sua importância para a vida marinha, a pesca, a exploração de recursos naturais e as dinâmicas climáticas do planeta.


O fundo do mar que você nunca viu

Se você pudesse esvaziar todos os oceanos do planeta, o que veria no fundo? Planícies? Montanhas? Abismos?

A resposta surpreende. O fundo dos oceanos tem um relevo tão variado quanto o dos continentes, às vezes mais. Existem montanhas mais altas que o Everest, vales mais fundos que o Grand Canyon e planícies que se estendem por milhares de quilômetros.

Esse relevo não é só paisagem. Ele determina onde vivem os peixes que você come, onde se acumulam o petróleo e os minerais que movem a economia, e como as correntes submarinas circulam e regulam o clima da Terra.

E, mesmo sendo tão importante, o relevo oceânico é praticamente invisível na sua rotina. Você olha para um mapa-múndi e vê o oceano como uma mancha azul lisa, sem relevo nenhum, enquanto os continentes aparecem cheios de montanhas, planaltos e depressões. É uma ilusão de ótica cartográfica: o fundo do mar tem tanto relevo quanto a terra firme, só que ele fica escondido debaixo de água, longe da vista.

Clique na palavra para começar a explorar: relevo oceânico.


Antes de continuar, pense nisso.

O Brasil tem uma das maiores plataformas continentais do mundo. Essa faixa submersa próxima à costa é onde se concentram o petróleo do pré-sal, os principais pesqueiros do país e boa parte da biodiversidade marinha.

Nas últimas duas décadas, o país pediu formalmente à ONU o reconhecimento de uma área de oceano maior do que a Amazônia, argumentando que aquele pedaço de fundo do mar, bem além dos limites que os tratados internacionais garantem automaticamente, é continuação geológica do próprio território brasileiro.

Por que o Brasil reclama direitos sobre áreas do oceano que ficam longe da costa? O fundo do mar pertence a quem?

Escreva pelo menos 5 linhas no caderno com sua hipótese antes de continuar.


Do litoral ao abismo: as zonas do fundo oceânico

A plataforma continental

Quando você entra no mar, o fundo vai descendo devagar por um bom trecho antes de cair de vez. Essa faixa rasa, extensão submersa do continente, chama-se plataforma continental. Ela tem profundidade média inferior a 200 metros e pode se estender por dezenas a centenas de quilômetros mar adentro, dependendo da geologia de cada costa.

A plataforma abriga a maior concentração de vida marinha do planeta. A luz do sol penetra até o fundo, permitindo a fotossíntese do fitoplâncton, base de toda a cadeia alimentar oceânica. É nessa faixa que vivem corais, manguezais submersos, peixes, crustáceos, moluscos. Não por acaso, é também onde se concentra a pesca mundial: mais de 90% do pescado consumido no planeta vem da plataforma continental.

Essa fartura de luz explica uma divisão que os oceanógrafos usam para classificar o oceano em camadas verticais. A zona nerítica é a coluna de água sobre a plataforma continental, iluminada e rica em nutrientes trazidos pelos rios, onde se concentra a maior parte da pesca. Além da plataforma, a coluna de água em alto-mar se divide em zona epipelágica (até 200 metros, com luz suficiente para fotossíntese), zona mesopelágica (200 a 1.000 metros, penumbra, sem fotossíntese) e zona batipelágica e abissopelágica, mais fundo ainda, em escuridão total. Repare que essa classificação descreve a água, não o relevo do fundo, que você já conheceu como plataforma, talude e planície abissal: uma bacia oceânica profunda pode ter, empilhadas acima dela, todas essas camadas de água ao mesmo tempo.

Para o Brasil, a plataforma tem importância econômica ainda maior. As bacias sedimentares de Campos e Santos, localizadas sobre a plataforma e o talude ao largo do Rio de Janeiro e São Paulo, contêm o pré-sal: petróleo acumulado abaixo de uma camada de sal que pode chegar a 2.000 metros de espessura. Para chegar até o petróleo, é preciso perfurar primeiro entre 1.500 e 3.000 metros de água do mar e só depois a camada de sal e a rocha, o que soma mais de 7.000 metros de profundidade total em alguns poços, um desafio de engenharia que não existia em nenhuma outra parte do mundo em escala comercial até o Brasil desenvolvê-lo. A descoberta, em 2006, transformou o Brasil em um dos maiores produtores de petróleo do mundo e gerou uma disputa política intensa sobre como distribuir os royalties entre estados e municípios.

A plataforma continental também é o lar dos recifes de coral, alguns dos ecossistemas mais ricos e mais ameaçados do planeta. No Brasil, o maior complexo recifal do Atlântico Sul fica no Banco de Abrolhos, na Bahia, formado por estruturas únicas em forma de cogumelo chamadas chapeirões. O aquecimento dos oceanos, tema que você já estudou nas aulas sobre mudanças climáticas, provoca o branqueamento dos corais: o aumento da temperatura da água expulsa as algas que vivem dentro do tecido coral e dão a ele cor e boa parte do alimento, deixando o esqueleto de carbonato de cálcio exposto e, se o estresse térmico continuar, levando o recife à morte.

Chapeirões de coral do Banco de Abrolhos Chapeirões de coral do Banco de Abrolhos, na Bahia: o maior complexo recifal do Atlântico Sul.
Perfil do relevo oceânico Perfil esquemático do relevo oceânico, da costa ao fundo abissal. Fonte: NOAA.

O talude continental

No final da plataforma, o fundo mergulha. Essa inclinação acentuada chama-se talude continental. A inclinação média é de 4 graus, mas pode chegar a 45 graus em trechos mais abruptos. O talude é cortado por cânions submarinos, alguns tão grandes quanto o Grand Canyon, escavados por correntes de turbidez que arrastam sedimentos morro abaixo.

Esses deslizamentos de sedimento pelo talude podem ser violentos o suficiente para romper cabos de telecomunicações no fundo do mar, fato que surpreendeu engenheiros no século XX e revelou o dinamismo desse ambiente que parecia estático. Após o talude vem a ascensão continental, uma rampa mais suave formada pelo acúmulo desses sedimentos, que conecta o talude à planície abissal.

Esses cabos não são um detalhe menor: mais de 95% de todo o tráfego internacional de internet, incluindo chamadas de vídeo, transações bancárias e e-mails entre continentes, passa por uma rede de cabos submarinos de fibra óptica que atravessam justamente o talude e a planície abissal, muitas vezes seguindo as rotas mais curtas entre continentes. Não é por satélite que a internet mundial funciona, é por cabo, no fundo do oceano. Isso torna esses cabos um ponto estratégico: rompimentos acidentais, causados por âncoras de navios ou pelos próprios deslizamentos de sedimento do talude, já deixaram países inteiros com a internet lenta ou fora do ar por dias, e a possibilidade de sabotagem intencional desses cabos é hoje discutida como uma questão de segurança nacional em várias partes do mundo.


QUESTÃO PRÁTICA

A extensão submersa e rasa do continente, onde se concentra a maior biodiversidade marinha, chama-se:

O fundo profundo: planícies, fossas e montanhas

A planície abissal

Depois do talude, o fundo se nivela numa extensão plana e vastíssima: a planície abissal. Com profundidade entre 3.000 e 6.000 metros, ela cobre cerca de 40% da superfície total da Terra. É a maior feição geológica do planeta e também a menos conhecida. A pressão ali chega a 600 vezes a pressão atmosférica da superfície, temperatura flutua em torno de 2°C e não há luz solar.

Boa parte do que sabemos sobre esse fundo vem de uma expedição pioneira: entre 1872 e 1876, o navio britânico HMS Challenger percorreu todos os oceanos, jogando cordas com peso para medir profundidade metro por metro, coletando amostras de água, sedimento e organismos. Foi a expedição que provou, pela primeira vez, que existe vida em todas as profundidades oceânicas. Hoje, esse trabalho manual e lentíssimo foi substituído por sonares multifeixe instalados em navios e satélites, que enviam ondas sonoras até o fundo e calculam a profundidade pelo tempo de retorno do eco, a mesma lógica do sensoriamento remoto que você estudou em outra aula, só que usando som em vez de luz, já que ondas eletromagnéticas não atravessam a água do mar.

Mesmo assim, há vida. Na segunda metade do século XX, a descoberta das fontes hidrotermais (ou fumadores negros) revolucionou a biologia: são rachaduras no fundo oceânico por onde água superaquecida a mais de 300°C jorra, rica em minerais. Em torno dessas fontes, ecossistemas inteiros prosperam sem nenhuma luz solar, sustentados pela quimiossíntese bacteriana. Vermes tubulares de 2 metros, caranguejos albinos e peixes sem olhos vivem num ambiente que antes parecia impossível para a vida. A descoberta foi tão radical que mudou até a busca por vida fora da Terra: hoje, agências espaciais estudam luas geladas como Europa (de Júpiter) e Encélado (de Saturno), que escondem oceanos de água líquida sob crostas de gelo, justamente porque fontes hidrotermais parecidas com as terrestres poderiam sustentar vida ali também, sem depender do Sol.

Fonte hidrotermal no fundo do oceano Uma fonte hidrotermal ("fumador negro") jorra água superaquecida rica em minerais no fundo do oceano. Fonte: NOAA.

A planície abissal também é coberta por nódulos polimetálicos: concreções ricas em manganês, níquel, cobre e cobalto que crescem milímetros por milhão de anos. Estima-se que haja trilhões de toneladas desses nódulos apenas no Oceano Pacífico, numa região chamada Zona Clarion-Clipperton, entre o Havaí e o México. Esses metais são essenciais para baterias de carros elétricos e celulares, o que tornou a corrida por eles ainda mais urgente. Em 2021, a pequena ilha-nação de Nauru, no Pacífico, acionou uma regra da ISA que obriga o órgão a aprovar um código de mineração em até dois anos, pressionando para que a exploração comercial comece logo. Cientistas marinhos e várias organizações ambientais pediram uma moratória, argumentando que ainda sabemos pouco demais sobre esses ecossistemas para arriscar destruí-los antes mesmo de catalogá-los.

As fossas oceânicas

Em alguns pontos da planície, o fundo mergulha ainda mais fundo nas fossas oceânicas. Elas se formam onde uma placa oceânica mergulha sob outra numa zona de subducção. A Fossa das Marianas, no Pacífico, tem 11.034 metros de profundidade: caberia o Monte Everest inteiro com mais de 2 km sobrando.

O ponto mais profundo da fossa, chamado Challenger Deep, foi visitado por seres humanos apenas três vezes na história. A primeira, em 1960, quando o oceanógrafo suíço Jacques Piccard e o tenente da Marinha americana Don Walsh desceram 10.912 metros no batiscafo Trieste, uma viagem de quase 5 horas só para descer, e passaram apenas 20 minutos no fundo antes de subir. A segunda só aconteceu 52 anos depois, em 2012, quando o cineasta James Cameron, sozinho num submersível que ele mesmo ajudou a projetar, repetiu o feito e trouxe de volta imagens e amostras que a tecnologia de 1960 não permitia coletar. A terceira foi a de Victor Vescovo, em 2019, mencionada mais à frente nesta aula. Passaram-se mais anos entre essas três descidas do que entre o primeiro voo dos irmãos Wright e a chegada do homem à Lua, um lembrete de como o fundo do mar continua sendo, em muitos sentidos, mais inacessível do que o espaço.

As fossas não são apenas recordes geográficos. Elas são zonas sísmicas intensas: o atrito entre as placas gera terremotos de grande magnitude, e o deslocamento abrupto do fundo oceânico provoca tsunamis devastadores. O terremoto e tsunami de 2011 no Japão, que destruiu a usina de Fukushima, ocorreu exatamente numa zona de subducção no Pacífico. O Anel de Fogo do Pacífico, que concentra 90% dos terremotos mundiais, acompanha o traçado das fossas oceânicas ao redor do oceano.

O maior terremoto já registrado por instrumentos modernos aconteceu justamente numa dessas zonas: o terremoto do Chile de 1960, de magnitude 9,5, na fronteira entre a placa de Nazca e a placa Sul-Americana, perto da Fossa Peru-Chile. O tremor gerou um tsunami que atravessou todo o Oceano Pacífico e ainda causou mortes no Havaí e no Japão, a mais de 17.000 km de distância do epicentro. É a prova de que o relevo escondido no fundo do mar, quando se move, tem força suficiente para atingir o lado oposto do planeta.

Fossa das Marianas e Anel de Fogo A Fossa das Marianas e o Anel de Fogo do Pacífico. Fonte: USGS.

As cadeias oceânicas

No meio dos oceanos, extensas cadeias de montanhas submarinas marcam os pontos onde duas placas tectônicas se afastam. Magma sobe pelo vão aberto, solidifica e forma nova crosta oceânica continuamente. São as cadeias oceânicas. A Cadeia Mesoatlântica percorre o Atlântico de norte a sul por 16.000 km, separando as placas americana e euro-africana. Ela se expande cerca de 2,5 cm por ano, ou seja, a América do Sul e a África se distanciam nesse ritmo.

Onde a cadeia emerge acima do nível do mar, forma ilhas vulcânicas: Açores, Islândia, Tristão da Cunha e Santa Helena são picos da Cadeia Mesoatlântica. A Islândia cresce visivelmente: vulcões entram em erupção com regularidade, e o país inteiro está sendo construído pela divergência das placas em tempo real. Em outros pontos, surgem os montes submarinos (seamounts): vulcões extintos que nunca chegaram à superfície, mas que funcionam como oásis de biodiversidade no meio do oceano profundo.

Cientistas estimam que existam mais de 100 mil montes submarinos com mais de 1.000 metros de altura espalhados pelos oceanos, e a maioria nunca foi visitada por nenhum equipamento científico. Correntes marinhas que sobem pelas encostas desses vulcões extintos trazem nutrientes das profundezas para camadas mais rasas, criando pontos de altíssima concentração de vida num oceano aberto que, fora dali, é quase um deserto biológico. Esses mesmos cardumes concentrados atraem frotas de pesca industrial, que arrastam redes pesadas pelo fundo desses montes, destruindo corais de água fria e esponjas que levaram séculos para crescer numa única passagem. Como a maior parte dos montes submarinos fica em alto-mar, fora da jurisdição de qualquer país, regular essa pesca depende de acordos internacionais que, na prática, poucos países fiscalizam com rigor.


QUESTÃO PRÁTICA

O ponto mais profundo da Terra está localizado na:

O que está em jogo no fundo do mar

O Direito do Mar e a divisão do oceano

O oceano não pertence a ninguém, e pertence a todos ao mesmo tempo. Essa tensão é regulada pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), assinada em 1982 e ratificada por quase 170 países até hoje. Ela divide os espaços marítimos em zonas com diferentes graus de soberania.

O mar territorial vai até 12 milhas náuticas da costa: o país tem soberania plena, como se fosse terra firme. A Zona Contígua vai de 12 a 24 milhas: o país pode fiscalizar e aplicar leis aduaneiras e sanitárias. A Zona Econômica Exclusiva (ZEE) vai até 200 milhas: o país não governa o mar, mas tem direito exclusivo sobre todos os recursos naturais da coluna d'água, do fundo e do subsolo. Além das 200 milhas, começa o alto mar, patrimônio comum da humanidade.

Há ainda um mecanismo adicional: países podem solicitar à Comissão de Limites da Plataforma Continental (CLPC) da ONU o reconhecimento de uma plataforma continental estendida além das 200 milhas, desde que provem que o leito marinho é continuação geológica do seu território. Vários países fizeram isso, entre eles o Brasil, a Rússia, o Canadá e a Austrália.

Além das 200 milhas, no chamado alto mar, existe uma área ainda mais distante: o fundo oceânico que fica fora de qualquer plataforma continental estendida, chamado apenas de "a Área". A UNCLOS declarou essa região patrimônio comum da humanidade e criou a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), sediada na Jamaica, para regular a exploração mineral ali, incluindo os nódulos polimetálicos que você conheceu no bloco anterior. Até hoje, a ISA já concedeu dezenas de licenças de exploração (não de extração comercial em larga escala) para países e empresas, num equilíbrio ainda instável entre abrir a corrida pelos minerais do fundo do mar e proteger ecossistemas que a ciência mal começou a entender.

Amazônia Azul e zonas marítimas do Brasil A Amazônia Azul: área marítima sob jurisdição brasileira, superior a 4,5 milhões de km². Fonte: Marinha do Brasil.

A Amazônia Azul

O Brasil tem a maior ZEE do Atlântico Sul: mais de 3,5 milhões de km². Com a extensão da plataforma continental aprovada pela ONU, essa área sobe para mais de 4,5 milhões de km², área quase igual à da Amazônia Verde. Por isso o projeto recebeu o nome de Amazônia Azul. Nessa região estão o pré-sal, campos de gás natural, jazidas de manganês, cobalto, níquel e terras raras no fundo abissal, além dos principais pesqueiros do Atlântico Sul, uma concentração de riqueza que explica por que o Brasil trata essa faixa de oceano quase como se fosse uma extensão do próprio território nacional, e não apenas um recurso qualquer a ser explorado.

Essa conquista não aconteceu de uma vez. O Brasil começou a submeter pedidos de extensão da plataforma continental à CLPC em 2004, dividindo o pleito em partes: a região Sul foi aprovada em 2019, e a chamada Margem Equatorial, ao largo do Amapá e do Pará, foi reconhecida pela ONU só em 2025, mais de duas décadas depois do primeiro pedido. Ainda falta a análise de mais um trecho, a Margem Oriental-Meridional. Levar décadas para reconhecer alguns milhões de quilômetros quadrados de oceano mostra como a diplomacia marítima é lenta e como cada centímetro de plataforma reivindicada exige anos de levantamento geológico detalhado para provar, com dados, que aquele pedaço de fundo do mar é mesmo continuação natural do território brasileiro.

A gestão desse território marítimo é feita pela Marinha do Brasil e envolve desafios enormes: monitorar mais de 4 milhões de km² de oceano com recursos limitados. A pesca ilegal estrangeira é uma preocupação real em todo o Atlântico Sul: em 2018, o pesqueiro chinês Chang Rong 4 colidiu com o atuneiro brasileiro Oceano Pesca I durante uma disputa por um cardume, a mais de 600 km do Rio Grande do Norte, já em águas internacionais. O problema de fundo é que, fora da ZEE, o alto mar não pertence a ninguém: frotas estrangeiras podem pescar livremente bem na borda das 200 milhas, sem cometer nenhum crime, e a fiscalização brasileira só pode agir se elas de fato cruzarem a linha. Um relatório da ONG Oceana, de 2021, mapeou mais de 400 embarcações chinesas atuando de forma parecida na fronteira da ZEE argentina, um retrato do mesmo tipo de pressão pesqueira que o Brasil enfrenta em sua própria costa.

As disputas no Mar do Sul da China

O caso brasileiro não é único. No Mar do Sul da China, seis países reivindicam soberania sobre as mesmas ilhas, recifes e plataformas: China, Vietnã, Filipinas, Malásia, Brunei e Taiwan. A China construiu ilhas artificiais sobre recifes para ampliar sua presença e reivindicar ZEEs maiores, em clara violação do UNCLOS. Em 2016, um tribunal de arbitragem internacional em Haia decidiu a favor das Filipinas e considerou ilegais as reivindicações históricas chinesas sobre a maior parte da região, mas a China simplesmente ignorou a decisão e manteve suas bases nas ilhas artificiais, mostrando os limites reais do UNCLOS quando a potência que descumpre a lei também é uma das que ajudam a fazer cumpri-la. O conflito combina soberania, recursos de petróleo estimados em 125 bilhões de barris, rotas comerciais estratégicas e projeção militar. É um dos pontos mais tensos da geopolítica atual e vai se intensificar com o aumento da demanda por recursos do fundo oceânico.

Mapa das reivindicações territoriais no Mar do Sul da China Reivindicações territoriais sobrepostas no Mar do Sul da China, envolvendo China, Vietnã, Filipinas, Malásia, Brunei e Taiwan.

A corrida pelo Polo Norte

No extremo oposto do planeta, o degelo do Ártico provocado pelo aquecimento global, tema que você já estudou em outra aula deste módulo, está abrindo uma disputa parecida. Em 2007, um submersível russo desceu cerca de 4.200 metros até o fundo do Oceano Ártico e fincou uma bandeira de titânio exatamente sob o Polo Norte, um gesto simbólico para reforçar a reivindicação da Rússia sobre a Cordilheira de Lomonosov, uma cadeia montanhosa submarina que o país argumenta ser extensão geológica de seu próprio território, seguindo a mesma lógica de plataforma continental estendida que o Brasil usa na Amazônia Azul. Canadá e Dinamarca (por causa da Groenlândia) reivindicam a mesma cordilheira, e a região é vista como rica em petróleo, gás e novas rotas de navegação, que só existem porque o gelo que antes cobria o Ártico o ano inteiro está derretendo mais cedo e mais rápido a cada década.


QUESTÃO PRÁTICA

A Zona Econômica Exclusiva (ZEE) se estende até:

Leia e analise

Os oceanos cobrem 71% da superfície da Terra, mas menos de 25% do fundo oceânico foi mapeado com resolução suficiente para identificar feições geológicas. Conhecemos com mais detalhe a superfície de Marte do que o assoalho dos nossos próprios oceanos. A corrida para explorar os recursos do fundo do mar começa antes mesmo de entendermos os ecossistemas que ali existem. Extrair nódulos polimetálicos ou minerar fontes hidrotermais pode destruir habitats que levaram milhões de anos para se formar e que ainda nem foram catalogados pela ciência.
Adaptado de NOAA e relatório da Deep-Sea Conservation Coalition, 2023

Responda no caderno antes de continuar:

1. O texto coloca em tensão a exploração econômica e a preservação do fundo oceânico. Com base no que você estudou sobre planície abissal e fossas oceânicas, explique por que essa tensão é tão difícil de resolver.

2. Quem deveria decidir se o fundo do oceano pode ser minerado: cada país individualmente, uma organização internacional, as empresas que têm tecnologia para isso, ou nenhum deles? Argumente com base no conceito de alto mar como patrimônio comum da humanidade.


Voltando à pergunta do início

Por que o Brasil reivindica áreas do oceano tão longe da costa?

Porque a plataforma continental brasileira se estende por centenas de quilômetros sob o mar antes de cair no talude. O leito marinho é continuação geológica do território, e a UNCLOS reconhece esse direito. Mas há uma camada mais profunda nessa resposta: o Brasil reivindica porque tem petróleo, minerais e pesca para defender. Sem esses recursos, a discussão jurídica provavelmente não teria o mesmo vigor político.

O relevo oceânico não é neutro. Cada feição (plataforma, talude, planície, fossa, cadeia) carrega potencial econômico, estratégico ou ambiental. Países com tecnologia avançada e marinha forte conseguem mapear, reivindicar e explorar muito mais do que países pobres. A corrida pelo fundo do oceano é a nova corrida pelo espaço, com a diferença de que os recursos estão muito mais perto e os danos ambientais, muito menos compreendidos.

A questão que fica é a mesma que o texto-fonte colocou: quem decide o que pode ser feito com um patrimônio que, por definição, pertence a toda a humanidade?

Você acabou de conhecer o relevo escondido sob o mar. Na próxima aula, voltamos para os continentes para estudar outra força que também esculpe paisagens sem parar: os rios, seus meandros, deltas e estuários, e como essas formas moldam a vida de quem mora nas suas margens.


Infográfico - Resumo

Infográfico resumo Relevo Oceânico Fonte: Organizado e revisado pelo autor.


QUESTÃO ABERTA

Um exercício para reforçar alguns conceitos.

Em que ano a Rússia fincou uma bandeira no fundo do Oceano Ártico, sob o Polo Norte, para reforçar sua reivindicação sobre a Cordilheira de Lomonosov?

Qual é o nome do navio britânico que, entre 1872 e 1876, realizou a primeira grande expedição científica de mapeamento dos oceanos?

Perguntas que você provavelmente tinha

P: Por que a gente mal conhece o fundo do mar se a Terra é 71% oceano?

R: Explorar o fundo é muito mais difícil e caro do que explorar o espaço. A pressão a grandes profundidades destrói equipamentos comuns, exige materiais resistentes e caros, e a comunicação por rádio simplesmente não funciona debaixo d'água, o que obriga a usar sinais sonoros bem mais lentos e limitados. Já mapeamos a superfície de Marte com mais detalhe do que o assoalho dos oceanos. Menos de 25% do fundo oceânico foi mapeado com resolução suficiente para identificar feições geológicas.

P: As ilhas vulcânicas do meio do Atlântico têm a ver com a Cadeia Mesoatlântica?

R: Têm tudo a ver. Açores, Tristão da Cunha e Santa Helena são picos da Cadeia Mesoatlântica que cresceram até emergir acima do nível do mar. A Islândia é o caso mais espetacular: fica exatamente sobre a cadeia, cresce alguns centímetros por ano e tem vulcões entrando em erupção com regularidade até hoje.

P: A Fossa das Marianas tem vida lá no fundo?

R: Tem, e bastante. Bactérias, anfípodes (crustáceos minúsculos), pepinos-do-mar e até peixes foram encontrados a mais de 10.000 metros. Em 2019, o explorador e investidor americano Victor Vescovo desceu sozinho até 10.928 metros, o mergulho mais profundo já registrado por um ser humano, e encontrou um saco plástico e embalagens de doce no fundo. A vida resiste, mas a poluição também chegou antes da ciência, num lugar que a maioria das pessoas nunca imaginaria que pudesse ser alcançado pelo lixo que produzimos em terra firme.


Hora de usar o que você aprendeu.

Argumente com dados

Atividade individual

O Brasil reivindica uma plataforma continental estendida na ONU, o projeto "Amazônia Azul". Alguns países questionam essa reivindicação, assim como outros países questionam disputas parecidas no Ártico e no Mar do Sul da China, que você conheceu nesta aula.

Escreva um texto de 15 a 20 linhas defendendo ou questionando o direito do Brasil sobre essa área. Use pelo menos dois conceitos estudados nesta aula para sustentar seu argumento, e, se quiser, compare o caso brasileiro com pelo menos um dos outros exemplos internacionais que você viu.

Dica: pesquise "Amazônia Azul" e "UNCLOS" para aprofundar.


Questões para responder no caderno:

1. O que é a plataforma continental e por que ela é economicamente importante?

2. Qual a diferença entre plataforma continental e talude continental?

3. Como se formam as fossas oceânicas? Cite um exemplo.

4. O que são as cadeias oceânicas e como se formam? Dê um exemplo.

5. O que é a planície abissal? Qual é a sua extensão em relação à superfície terrestre?

6. Como o relevo oceânico influencia a distribuição da vida marinha?

7. O que é a Zona Econômica Exclusiva e quais direitos ela garante ao país costeiro?

8. Explique o projeto "Amazônia Azul" e sua importância para o Brasil.

9. Por que ainda conhecemos tão pouco o fundo dos oceanos, apesar de eles cobrirem 71% da Terra?

10. De que forma o relevo oceânico está relacionado com a tectônica de placas?


Antes de finalizar, vamos fazer as questões!



Para saber mais:

Referências Bibliográficas

📚 Sugestões de Livros



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