Conteúdo:
Objetivo: Compreender as características climáticas e ecológicas das regiões polares; distinguir tundra de calota glacial; comparar o Ártico e a Antártica em termos físicos e geopolíticos; entender por que o derretimento do gelo polar afeta países tropicais como o Brasil.
O lugar mais vazio do mundo, e o mais importante
No imaginário popular, os polos são lugares vazios: gelo branco sem fim, silêncio absoluto, ausência de vida. Essa imagem está errada em praticamente todos os seus detalhes. No verão ártico, o solo descongelado da tundra explode de vida: milhões de aves migratórias chegam de todos os continentes para criar seus filhotes durante os dois meses de luz constante. Renas, bois-almiscarados, lemmings e raposas árticas constroem cadeias alimentares surpreendentemente complexas para um lugar onde o inverno dura nove meses. E nos oceanos polares, baleias, focas, morsas e pinguins sustentam ecossistemas tão produtivos quanto os de qualquer região tropical.
Os polos também não são irrelevantes para quem vive longe deles. A calota glacial da Antártica contém 70% de toda a água doce do planeta. O Ártico regula a circulação do calor entre as altas e baixas latitudes, influenciando diretamente o regime de chuvas e temperaturas de países tropicais. E o derretimento acelerado do gelo polar, provocado pelo aquecimento global, é uma das maiores ameaças ao nível do mar de cidades costeiras como Recife, Santos e Rio de Janeiro.
Esta aula fecha o mapa dos biomas mundiais chegando às regiões mais extremas do planeta: a tundra, a calota glacial e o que está em jogo politicamente e climaticamente nos dois polos.
Antes de continuar: um problema para pensar.
O Ártico não tem um continente embaixo do gelo: é um oceano coberto de gelo flutuante, cercado pelos territórios da Rússia, Canadá, Estados Unidos, Noruega e Dinamarca. À medida que o aquecimento global derrete esse gelo, surgem novas rotas marítimas navegáveis e acesso a reservas de petróleo e minerais que estavam inacessíveis sob o gelo.
Quem tem direito a esses recursos? Se o Ártico era um oceano coberto de gelo sem uso econômico e agora está se tornando navegável e explorável, quem decide quem pode explorar o quê? E quem paga o custo ambiental dessa abertura?
Escreva sua hipótese antes de continuar.
Onde a taiga termina e o gelo começa
Na aula anterior, você conheceu a taiga, a floresta de coníferas que ocupa as altas latitudes do hemisfério norte. Acima dela, entre 60° e 75° de latitude, as árvores desaparecem completamente. O solo congelado do permafrost é profundo demais para que raízes penetrem, o verão é curto demais para que troncos cresçam, e o vento constante resseca qualquer broto que tente se erguer. Nessa faixa sem árvores começa a tundra.
A tundra é dominada por plantas rasteiras: musgos, liquens, gramíneas baixas, juncos e alguns arbustos anões que nunca passam de alguns centímetros de altura. Durante os dois a três meses de verão, apenas a camada ativa do permafrost, os primeiros centímetros ou poucos metros de solo mais próximos da superfície, descongela, e a vegetação cresce com rapidez surpreendente aproveitando as longas horas de luz. Algumas regiões da tundra chegam a ter 20 horas de sol por dia no pico do verão, compensando parcialmente o inverno de escuridão quase total. No pico do verão, a tundra fica coberta de flores e o solo encharcado sustenta nuvens de mosquitos que servem de alimento para as aves migratórias.
Ártico e Antártica: dois polos completamente diferentes
Uma das confusões mais comuns em geografia é tratar Ártico e Antártica como simétricos. Eles não são. O Ártico é um oceano, o Oceano Glacial Ártico, coberto de gelo flutuante e cercado por terras continentais. A Antártica é um continente de rocha coberto por uma camada de gelo com até 4.800 metros de espessura. Essa diferença estrutural tem consequências enormes.
O gelo ártico flutua sobre o oceano. Se ele derreter completamente, o nível do mar não sobe de forma significativa, pelo mesmo princípio que um cubo de gelo derretendo não transborda o copo. Já o gelo da Antártica está sobre rocha continental. Se ele derreter, essa água vai direto para o oceano e eleva o nível do mar. A calota glacial antártica contém água suficiente para elevar o nível dos oceanos em até 60 metros se derretesse completamente, o que inundaria praticamente todos os litorais do planeta.
O albedo e a espiral do derretimento
Um dos mecanismos mais importantes da física do gelo polar é o albedo. O gelo branco reflete até 90% da radiação solar de volta para o espaço. O oceano escuro que aparece quando o gelo derrete absorve até 94% dessa mesma radiação. Quando o gelo ártico derrete, o oceano que se expõe aquece muito mais rápido do que a região aquecia quando estava coberta de gelo. Esse calor adicional derrete mais gelo, que expõe mais oceano, que aquece mais. É um ciclo de retroalimentação que acelera o próprio derretimento e explica por que o Ártico está aquecendo quatro vezes mais rápido do que a média global.
O dia que não escurece e a aurora que ilumina o inverno
A inclinação do eixo da Terra, de aproximadamente 23,5 graus, produz nas regiões polares um efeito que não existe em nenhum outro lugar do planeta: dias e noites que duram semanas ou meses inteiros. Acima do Círculo Polar Ártico, no auge do verão, o sol não se põe: é o fenômeno do sol da meia-noite, quando o disco solar permanece visível no horizonte 24 horas por dia durante semanas seguidas. No inverno, o oposto acontece: em cidades como Tromsø, na Noruega, ou Utqiagvik, no Alasca, o sol simplesmente não nasce por dois meses seguidos, período conhecido como noite polar. Esse ciclo extremo de luz explica por que a vida na tundra se concentra tanto no verão: plantas e animais têm uma janela curtíssima de luz solar direta para crescer, se reproduzir e acumular reservas antes do inverno escuro voltar.
É justamente durante essas longas noites polares que aparece um dos espetáculos mais estudados da geografia física: a aurora boreal. Explosões na superfície do Sol lançam ao espaço partículas carregadas, principalmente elétrons e prótons, que viajam a mais de 1,6 milhão de quilômetros por hora. Ao chegar perto da Terra, essas partículas são capturadas pelo campo magnético do planeta e canalizadas em direção aos polos, onde colidem com átomos de oxigênio e nitrogênio na ionosfera, entre 100 e 300 quilômetros de altitude. Essa colisão libera energia na forma de luz: o oxigênio produz o brilho verde característico, o mais comum, enquanto o nitrogênio pode produzir tons de azul e roxo. No hemisfério sul, o mesmo fenômeno ocorre sobre a Antártica e recebe o nome de aurora austral, mas é observado por muito menos pessoas simplesmente porque quase ninguém vive tão perto do Polo Sul.
Ártico: oceano com gelo flutuante. Antártica: continente sob calota de gelo com até 4,8 km de espessura. Fonte: NSIDC.
QUESTÃO PRÁTICA
Cientistas monitoram o derretimento do gelo no Ártico e na Antártica. Do ponto de vista do risco de elevação do nível do mar, qual das duas regiões representa a ameaça mais direta para cidades costeiras?
Viver onde quase nada sobrevive
A tundra ártica é habitada por seres vivos que levaram milhares de anos desenvolvendo adaptações ao frio extremo, à escuridão do inverno e ao verão curtíssimo. Os mamíferos da tundra têm camadas espessas de gordura subcutânea, pelo duplo com subpelo isolante e extremidades menores do que seus parentes de climas mais quentes, reduzindo a perda de calor pela superfície corporal. A raposa ártica tem o pelo que muda de cor conforme a estação: branco no inverno para se camuflar na neve, marrom-acinzentado no verão para se camuflar no solo descoberto.
As renas e os caribus (a mesma espécie, com nomes diferentes na Europa e na América) migram centenas de quilômetros seguindo o ciclo das estações: no verão, vão para o norte onde a vegetação da tundra é abundante. No inverno, recuam para o sul, onde a taiga oferece alguma proteção contra o vento e algum alimento. O urso polar, símbolo do Ártico, passou por uma especialização ainda mais extrema: vive quase exclusivamente sobre o gelo marinho do Oceano Ártico, caçando focas nas bordas das quebras no gelo. Com o derretimento do gelo ártico, o habitat do urso polar está desaparecendo, e a espécie está entre as mais ameaçadas pelo aquecimento global.
Os povos que sempre viveram no gelo
A narrativa de que os polos são "desabitados" ignora sistematicamente os povos indígenas que habitam a tundra ártica há milênios. Os Inuit (conhecidos erroneamente como "esquimós", termo considerado pejorativo) vivem em comunidades espalhadas pelo Alasca, norte do Canadá, Groenlândia e leste da Sibéria. Os Sami habitam as tundras da Escandinávia e da Rússia europeia, criando renas há séculos. Os Nenets, Evenks e Chukchis vivem na Sibéria, alguns mantendo estilo de vida nômade ligado aos movimentos das renas.
Para esses povos, o aquecimento global não é uma abstração estatística. É a transformação concreta do ambiente que sustenta sua cultura, sua alimentação e sua identidade. O gelo que antes era previsível e seguro agora racha de forma imprevisível. As estações chegam e vão de forma diferente das memórias transmitidas por gerações. Espécies que sempre foram abundantes estão migrando para latitudes mais altas ou sumindo. Os Inuit foram os primeiros povos do mundo a tentar responsabilizar legalmente um governo por violações de direitos humanos causadas pelas mudanças climáticas, numa petição apresentada à Comissão Interamericana de Direitos Humanos em 2005.
Povos indígenas do Ártico, como os Inuit, enfrentam mudanças concretas no gelo que sustenta sua cultura. Fonte: CDN.
O degelo do permafrost: metano, crateras e cidades que racham
O aquecimento das altas latitudes não afeta só a superfície da tundra: ele está descongelando um estoque de carbono orgânico que ficou preso no permafrost por milhares de anos. Quando essa matéria orgânica descongela, micro-organismos voltam a decompô-la e liberam gases de efeito estufa, entre eles o metano, um gás com potencial de aquecimento muito maior que o do dióxido de carbono num período de 20 anos. Em algumas partes da Sibéria, especialmente na península de Yamal, esse metano se acumula em bolsões pressurizados sob a superfície congelada até que o solo não aguenta mais a pressão e explode, formando crateras gigantescas de até 30 metros de diâmetro e 70 metros de profundidade. A primeira dessas crateras foi registrada em 2014 e intrigou cientistas do mundo todo. Hoje o consenso é que o fenômeno combina aquecimento do permafrost, geologia local e água subterrânea salina, mas todos os estudos concordam que o degelo acelerado é o gatilho principal.
O permafrost derretendo também é um problema estrutural para quem vive sobre ele. Cidades siberianas inteiras, incluindo Yakutsk, foram construídas sobre estacas fincadas no solo congelado, que funcionava como uma fundação sólida e estável havia milênios. Com o degelo, esse solo perde firmeza, afunda de forma irregular e racha os prédios, estradas e dutos construídos sobre ele. Empresas de energia russas já registraram vazamentos de combustível causados pelo afundamento de tanques de armazenamento erguidos sobre permafrost que se acreditava permanentemente estável. É um lembrete de que o degelo polar não é apenas um número em um gráfico: ele desmancha, literalmente, o chão sob os pés de quem mora ali.
Tundra ártica no verão: vegetação rasteira, solo encharcado, vida animal intensa durante os meses de luz. Fonte: USGS.
QUESTÃO PRÁTICA
O mecanismo do albedo explica por que o Ártico aquece muito mais rápido do que a média global. Qual sequência descreve corretamente esse processo?
A Antártica: o continente que ninguém possui
A Antártica é o único continente do planeta sem população humana permanente e sem soberania nacional estabelecida. Cobre 14 milhões de km², área maior que a Europa, e está coberta por uma calota glacial com espessura média de 2.160 metros. Sob esse gelo, existe um continente de rocha com montanhas, vales, lagos de água líquida e até um vulcão ativo (o Monte Erebus). A temperatura média anual na costa antártica é de -10°C. No interior, pode cair a -89°C, a temperatura mais baixa já registrada na Terra.
A única presença humana permanente na Antártica são as bases científicas de pesquisa, mantidas por 29 países signatários do Tratado Antártico, assinado em 1959. Esse tratado foi um acordo notável para a época da Guerra Fria: países com reivindicações territoriais conflitantes, como Argentina, Chile, Reino Unido e Austrália, concordaram em congelar essas disputas e reservar o continente para a ciência. O Brasil aderiu em 1975 e mantém a Estação Antártica Comandante Ferraz, reconstruída após um incêndio em 2012, como plataforma de pesquisa sobre clima, biologia marinha e oceanografia do Atlântico Sul.
Thwaites: a geleira do fim do mundo
Na Antártica Ocidental existe uma geleira que sozinha preocupa mais os climatologistas do que qualquer outra do planeta: a geleira Thwaites, apelidada de "geleira do fim do mundo". Ela tem aproximadamente o tamanho do Reino Unido e representa cerca de 15% de toda a camada de gelo da Antártica Ocidental. Já hoje, ela contribui com 4% de todo o aumento do nível do mar registrado no mundo. Nos últimos vinte anos, sua borda tem recuado entre 600 metros e 1,2 quilômetro por ano, e ela despeja no oceano cerca de 50 bilhões de toneladas de gelo anualmente. Imagens de satélite mostram fraturas se abrindo na plataforma de gelo que sustenta a geleira no lugar.
O risco de Thwaites não está apenas no seu próprio volume de gelo. Ela funciona como uma rolha que segura outras geleiras da Antártica Ocidental atrás dela. Se Thwaites colapsar sozinha, a estimativa é de uma elevação de mais de meio metro no nível global do mar. Mas se seu colapso desestabilizar as geleiras vizinhas, num efeito dominó, a elevação pode passar de 3 metros, o suficiente para redesenhar o litoral de praticamente todos os países costeiros do planeta, Brasil incluído.
Geleira Thwaites: apelidada de "geleira do fim do mundo" por seu potencial de elevar o nível do mar. Fonte: NASA/O Globo.
A geopolítica do Ártico: a corrida pelo gelo que some
O Ártico, ao contrário da Antártica, não tem um tratado equivalente. Está cercado por cinco países com litoral ártico (Rússia, Canadá, Estados Unidos, Noruega e Dinamarca) e não tem proteção legal comparable. Com o derretimento acelerado do gelo, surgem disputas concretas por recursos e rotas. O leito do Oceano Ártico contém estimativas de 13% das reservas mundiais de petróleo ainda não exploradas e 30% das reservas de gás natural. A Passagem do Noroeste, que corta o arquipélago canadense, está se tornando navegável no verão, criando uma rota marítima entre Europa e Ásia que encurta a distância em relação ao Canal de Suez em até 40%.
A Rússia é o país mais agressivo nessa disputa. Em 2007, um submarino russo plantou uma bandeira de titânio no fundo do Oceano Ártico, no Polo Norte, como gesto simbólico de reivindicação territorial. A Rússia construiu bases militares no Ártico, reativou aeroportos soviéticos abandonados e desenvolve quebra-gelos nucleares para garantir controle das rotas árticas. A geopolítica do Ártico no século XXI está sendo moldada pelo aquecimento global de uma forma que nenhum mapa antigo conseguia prever.
O buraco na camada de ozônio e a Antártica
Um problema atmosférico específico das regiões polares é o buraco na camada de ozônio. A camada de ozônio na estratosfera filtra a radiação ultravioleta do sol. Sobre a Antártica, a combinação de temperaturas extremamente baixas no inverno polar e a presença de compostos químicos industriais, especialmente os clorofluorcarbonos (CFCs) usados em geladeiras e aerossóis antes de serem proibidos, criou uma reação que destrói o ozônio de forma acelerada. O resultado é uma redução severa que se abre todos os anos entre agosto e outubro no hemisfério sul, expondo a Antártica e partes da América do Sul e da Oceania a níveis elevados de radiação ultravioleta. O Protocolo de Montreal (1987), que proibiu os CFCs, é considerado o tratado ambiental de maior sucesso da história: o buraco está se recuperando lentamente e deve estar cicatrizado até meados do século XXI.
O krill: o pequeno crustáceo que sustenta toda a Antártica
Debaixo da superfície gelada do oceano que cerca a Antártica vive o organismo mais importante de todo o ecossistema polar do hemisfério sul: o krill antártico, um crustáceo parecido com um camarão minúsculo, de poucos centímetros de comprimento. Sozinho, o krill forma uma biomassa estimada em cerca de 379 milhões de toneladas no oceano Austral, mais peso do que toda a população humana do planeta somada. Ele se alimenta de fitoplâncton e, por sua vez, é o alimento principal de baleias, focas, lobos-marinhos, pinguins, peixes e lulas: mais da metade dessa biomassa é consumida todos os anos por outros animais, o que faz do krill a base literal da cadeia alimentar antártica.
Pinguins e baleias na Antártica: toda essa cadeia alimentar depende, em última instância, do krill. Fonte: Meu Verde Jardim.
Justamente por sustentar tantas espécies, o krill também é um recurso comercial disputado, usado na produção de ração para aquicultura e de suplementos de ômega-3. Para evitar que a pesca comercial colapse esse ecossistema, 27 países e a União Europeia mantêm desde 1980 a Convenção para a Conservação da Fauna e Flora Marinha Antártica, conhecida pela sigla CCAMLR, que define cotas de pesca e exige que pelo menos 75% da biomassa original de krill seja preservada. A criação da CCAMLR antecedeu o próprio boom da pesca industrial de krill, um raro exemplo de regulação ambiental pensada antes do problema se agravar, e não depois.
Estação Antártica Comandante Ferraz e extensão da calota glacial antártica. Fonte: PROANTAR/Marinha do Brasil.
QUESTÃO PRÁTICA
A geleira Thwaites, na Antártica Ocidental, é chamada de "geleira do fim do mundo" porque:
Leia e analise
Responda no caderno antes de continuar:
1. O texto diz que o Ártico pode ter verões sem gelo antes de 2050, algo que não acontecia há 3 milhões de anos. Por que esse prazo de 3 milhões de anos é geograficamente relevante? O que ele indica sobre a velocidade da mudança em curso?
2. O derretimento do gelo ártico altera "padrões de precipitação e temperatura em latitudes tropicais, incluindo o Brasil". Usando o que você sabe sobre circulação atmosférica e rios voadores, explique um mecanismo pelo qual isso pode acontecer.
Por que os polos importam para quem vive no trópico
Você começou esta sequência de três aulas aprendendo por que a floresta tropical é densa e úmida. Agora chegou ao outro extremo: os polos, onde a vida existe apesar das condições mais hostis do planeta. Nos três biomas polares, tundra, deserto polar e oceano ártico, a vida encontrou formas de prosperar que parecem impossíveis para quem olha de fora.
Mas a lição mais importante desta aula não é sobre a biologia dos ursos polares ou a espessura do gelo antártico. É sobre conexão. O planeta funciona como um sistema integrado de circulação de calor, água e ar. O que acontece nos polos não fica nos polos. O derretimento do gelo ártico despeja água doce fria no Atlântico Norte, alterando a circulação termoalina dos oceanos, o sistema de correntes profundas que redistribui calor e umidade pelo planeta. A calota antártica que derrete eleva o nível do mar que inunda Recife. O buraco no ozônio sobre a Antártica aumenta a radiação ultravioleta que chega ao sul do Brasil e à Argentina.
No Atlântico, essa circulação termoalina é chamada de AMOC, e ela já está no seu ponto mais fraco em 1.600 anos. As projeções médias do IPCC apontam uma desaceleração de cerca de 32% até 2100 num cenário de emissões intermediárias, mas estudos recentes elevam a probabilidade de um colapso completo ainda neste século para acima de 50%, um risco que há poucos anos era estimado em apenas 5%. Um colapso da AMOC redistribuiria o calor do planeta de forma tão drástica que esfriaria partes da Europa mesmo em meio ao aquecimento global, enquanto intensificaria secas e alteraria o regime de chuvas na África e nas Américas, incluindo o Brasil. É outro exemplo de como o degelo polar não é um problema local: ele reprograma o termostato do planeta inteiro.
A geopolítica também é global. A disputa pelo Ártico entre as grandes potências envolve petróleo, rotas marítimas e projeção militar, os mesmos recursos e interesses que moldam as relações internacionais em todas as outras regiões. A Antártica, com seu Tratado de 1959, é um dos raros exemplos em que a cooperação internacional prevaleceu sobre os interesses nacionais. Manter esse exemplo funcionando, e possivelmente estendê-lo para o Ártico, é um dos grandes desafios da diplomacia ambiental do século XXI.
Você fecha aqui a sequência de três aulas sobre biogeografia mundial, da floresta pluvial mais quente até o gelo mais frio do planeta. Na próxima aula, o foco muda de mapear onde a vida acontece para entender como a ação humana modifica esses biomas: você vai estudar o conceito de impacto ambiental, a diferença entre conservacionismo e preservacionismo, e por que a crise ambiental atinge de forma tão desigual quem menos contribuiu para causá-la.
Infográfico - Resumo
Fonte: Organizado e revisado pelo autor.
QUESTÃO ABERTA
Um exercício para reforçar alguns conceitos.
Em que ano foi assinado o Tratado Antártico, que congela as reivindicações territoriais sobre o continente?
Em quantos metros o nível do mar subiria se toda a calota glacial da Antártica derretesse?
Perguntas que você provavelmente tinha
P: Tem cobra no Ártico?
R: Não. Répteis são ectotérmicos, dependem do calor externo para regular a temperatura do corpo. Em temperaturas abaixo de zero, seu metabolismo para. Por isso répteis e anfíbios são praticamente ausentes das regiões polares e da tundra. O mesmo vale para insetos voadores em boa parte do ano, exceto no pico do verão ártico, quando mosquitos aparecem em quantidades espantosas aproveitando o solo encharcado e o calor dos dois meses de verão. A fauna polar é dominada por mamíferos e aves, que são endotérmicos e produzem seu próprio calor.
P: O Brasil tem território na Antártica?
R: O Brasil não tem reivindicação territorial na Antártica. O Tratado Antártico congela todas as reivindicações existentes e proíbe novas. O que o Brasil tem é o status de Parte Consultiva do Tratado desde 1983, que garante voz nas decisões sobre o continente, e a Estação Antártica Comandante Ferraz, onde pesquisadores brasileiros realizam estudos de meteorologia, biologia marinha, glaciologia e oceanografia. A estação não confere soberania, mas dá ao Brasil presença científica e influência nas negociações sobre o futuro da Antártica.
P: Pinguins vivem no Ártico?
R: Não. Pinguins existem exclusivamente no hemisfério sul: na Antártica, na Argentina, no Chile, na África do Sul, na Austrália e até nas Ilhas Galápagos (cruzando o equador ligeiramente). No Ártico vivem os tordos-mergulhões, aves que se parecem com os pinguins mas não têm parentesco direto: é um caso de evolução convergente, dois grupos distintos desenvolvendo adaptações similares para o mesmo tipo de vida aquática em águas frias. Ursos polares e pinguins nunca se encontraram na natureza. Esse é um encontro que só existe em propagandas e zoológicos.
P: Por que a Groenlândia, coberta de gelo, se chama "Terra Verde"?
R: O nome vem do explorador nórdico Érico, o Vermelho, expulso da Islândia após um homicídio, que passou três anos explorando o litoral groenlandês por volta do ano 980. Ao voltar para recrutar colonos, batizou a ilha de Grœnland, "terra verde", justamente para soar convidativa, num dos primeiros casos registrados de propaganda enganosa da história. É a inversão exata da Islândia, cujo nome significa "terra do gelo" mas tem clima mais ameno. O nome pegou e ficou, mesmo com mais de 80% da Groenlândia coberta por gelo permanente até hoje.
Hora de usar o que você aprendeu.
O polo mais próximo de você
Atividade individual
Escreva um texto de 15 a 20 linhas respondendo à seguinte pergunta: O que acontece nos polos tem alguma consequência concreta para a sua cidade ou estado?
Seu texto deve:
1. Identificar pelo menos dois processos polares estudados nesta aula (derretimento do gelo, albedo, permafrost, correntes oceânicas etc.).
2. Explicar o mecanismo pelo qual cada processo afeta regiões tropicais ou subtropicais.
3. Citar um exemplo específico da sua cidade, estado ou região brasileira que já seja afetado ou possa ser afetado por essas mudanças.
Fontes sugeridas: INPE (inpe.br), NSIDC (nsidc.org), PROANTAR (marinha.mil.br/proantar).
Questões para responder no caderno:
1. O que é tundra? Em quais latitudes ocorre e por que não existem árvores nesse bioma?
2. Qual é a principal diferença estrutural entre o Ártico e a Antártica? Por que essa diferença é importante para o risco de elevação do nível do mar?
3. Explique o mecanismo do albedo e por que ele acelera o aquecimento do Ártico numa espiral de retroalimentação.
4. Quais são os povos indígenas que habitam a tundra ártica? Como o aquecimento global afeta concretamente suas formas de vida?
5. O que é o Tratado Antártico? Quais são seus princípios fundamentais e por que é considerado um modelo de cooperação internacional?
6. Qual é a relação entre o Brasil e a Antártica? O que a Estação Antártica Comandante Ferraz faz?
7. O que é o buraco na camada de ozônio sobre a Antártica? Qual foi sua causa e o que o Protocolo de Montreal fez para resolvê-lo?
8. Por que a abertura de rotas marítimas árticas causada pelo derretimento do gelo gera disputas geopolíticas entre as grandes potências?
9. Segundo o texto-fonte, o Ártico pode ter verões sem gelo antes de 2050, algo inédito há 3 milhões de anos. O que isso revela sobre a velocidade das mudanças climáticas em curso?
10. Explique por que o derretimento do gelo nos polos pode alterar o regime de chuvas no Brasil, usando os conceitos de circulação atmosférica e correntes oceânicas.
Antes de finalizar, vamos fazer as questões!