OUVIR AULA

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Conteúdo:

Objetivo: Compreender como se formou a população brasileira a partir da dimensão étnica (indígena, negra e branca), o papel do Censo Demográfico na coleta desses dados e a distribuição da população pelo território.


Introdução

Na aula passada vimos como ocorreu a consolidação do território brasileiro: as mudanças no mapa do Brasil, nos limites entre seus Estados e como chegamos à atual regionalização com cinco regiões.

Nesta aula, veremos como se deu a formação da população brasileira a partir da dimensão étnica, ou seja, a partir dos grupos que apresentam certa homogeneidade biológica e cultural, como os indígenas, negros e brancos.

Veremos a distribuição da população pelo território e como essa formação tornou o povo brasileiro uma nação singular no mundo.


microfone Duvid - Entrevista

Essa semana o convidado é o professor Darcy Ribeiro (1922-1997 - in memoriam).

Duvid: Professor Darcy Ribeiro, é uma enorme satisfação recebê-lo aqui para conversarmos sobre o povo brasileiro, tema de um dos seus livros mais famosos. Obrigado por ter aceitado o nosso convite.

Prof. Darcy Ribeiro: Estou muito contente de poder partilhar meu conhecimento com vocês, que veem o mundo pelo espaço geográfico. Eu o vejo pela cultura, e o que puder contribuir para o conhecimento do Brasil, assim o farei.

Duvid: Gostaria de começar nossa conversa questionando: quem somos nós, como se formou o povo brasileiro?

Prof. Darcy Ribeiro: Essa foi a pergunta da minha vida! Ao menos nos últimos trinta anos em que escrevi e reescrevi meu livro, O Povo Brasileiro. Eu queria investigar por que o Brasil não deu certo e construir, ao mesmo tempo, uma teoria geral que explicasse o Brasil. Decidi fazer isso sem uma visão eurocêntrica, mas a partir da constituição do nosso povo, do processo civilizatório que nos colocou na história do mundo.

Duvid: Nessa busca que o senhor empreendeu para descobrir a origem do nosso povo, seria importante esclarecer como se deu nossa formação inicial?

Prof. Darcy Ribeiro: Minhas análises como antropólogo possuem um fundo patriótico. E, seguindo essa linha, digo sempre que surgimos da confluência, um país sob a regência dos portugueses, do entrechoque e do caldeamento do invasor português com índios que viviam na floresta ou no cerrado, os silvícolas e os campineiros, e com os negros africanos, uns e outros aliciados como escravos.

Duvid: E de tudo isso, podemos dizer que surgiu, deste lado do Atlântico, um povo distinto do europeu? Por quais razões?

Prof. Darcy Ribeiro: Há dois processos nessa formação. O primeiro é o surgimento de um povo novo. Entretanto, há, em segundo lugar, a manutenção do velho. Vou tentar ser mais claro. O povo novo nasce dessas culturas e matrizes raciais tão distintas, uma etnia diferenciada, mestiça. Um tipo de gente nova, porque assim é vista por si mesma e pelos outros. Mas também é um povo velho, pois está ligado à exploração externa, dirigida pela expansão europeia para gerar lucros para a metrópole. O Brasil é, em resumo, um mutante: possui características próprias, mas está, desde sua gênese, ligado à matriz portuguesa.

Duvid: Professor, como ocorreu, na sua visão, esse choque entre diferentes mundos, o do europeu e o dos habitantes das Américas?

Prof. Darcy Ribeiro: Imagine a chegada, além-mar, de um grupo pequeno mas superagressivo e capaz de destruir, sob diversas formas, principalmente por infecções, a população indígena existente. Os conflitos surgiram em diversos níveis. No plano biológico, com as bactérias trazidas pelos europeus e que eram mortais para a população indígena. No ecológico, pela disputa do território, suas matas e riquezas para outro uso. No econômico e social, pela escravização do índio, pela mercantilização das relações de produção que uniu esses dois mundos: o europeu, velho mundo, e o brasileiro, como provedor de gêneros exóticos, escravos, ouro etc.

Duvid: ... e os indígenas foram os primeiros a sentir na pele a grande mudança que estava prestes a acontecer?

Prof. Darcy Ribeiro: Exatamente. Para os indígenas, com toda sua espiritualidade aflorada, a chegada dos europeus foi algo espantoso, uma verdadeira visão mítica do mundo. As tribos não possuíam essa característica de classe, tampouco uma visão da vida marcada por relações comerciais. Após alguns anos, viram-se inseridos na maior tragédia possível: destruição das bases de sua vida social, negação de seus valores, cativeiro, trabalho forçado etc. Grande parte morria de tristeza, certos de que não poderiam mais viver naquela situação.

Duvid: Professor, de acordo com suas pesquisas, o que estava por trás de toda essa violência que ocorreu com a invasão do Brasil?

Prof. Darcy Ribeiro: Em um contexto mais amplo, os portugueses (e também os espanhóis) tinham acabado de se livrar da ocupação secular dos árabes e tinham expulsado os judeus de seus territórios. A expansão marítima, fruto da guerra por conquista, do saqueio e da evangelização sobre os povos da África, da Ásia e, principalmente, das Américas, consolidou o primeiro sistema econômico mundial, que unificaria Portugal e Espanha e, ao mesmo tempo, interrompia o desenvolvimento autônomo, a alegria e as culturas originais dos povos que aqui viviam.

Duvid: E esse sistema foi forjado a partir do escravagismo?

Prof. Darcy Ribeiro: ... e por meio da miscigenação. A escravidão indígena predominou ao longo de todo o primeiro século. Somente no século XVII a escravidão negra viria a ultrapassá-la. Os indígenas eram utilizados principalmente para produção de subsistência, como preparo de alimentos, caça e pesca. A escravatura negra era preferível para a produção mercantil de exportação. Dessa mistura de brancos e índios surgem os mamelucos, que foram fundamentais para o domínio português terra adentro.

Duvid: E a maioria dos negros foi trazida de quais países?

Prof. Darcy Ribeiro: De modo geral, os negros do Brasil foram trazidos principalmente da costa ocidental africana. Podemos dividi-los em três grandes grupos com culturas diversas: 1) os de cultura sudanesa, provenientes da Gâmbia, Serra Leoa e Costa do Marfim; 2) o grupo de cultura islamizada do norte da Nigéria, que se instalou na Bahia e no Rio de Janeiro, por exemplo; 3) as tribos bantos, do grupo congo-angolês, de Angola e Moçambique.

Duvid: Como se deu essa adaptação dos africanos nessa sociedade emergente do Brasil?

Prof. Darcy Ribeiro: Os negros foram forçados a se incorporar passivamente ao universo cultural dessa nova sociedade. Eles foram a mão de obra que produziu tudo o que aqui se fez. Mas havia uma política de não permitir a concentração de escravos de uma mesma etnia nas fazendas e até nos navios. Além de distintas línguas e culturas, isso dificultou a construção de um patrimônio cultural africano unificado. Mas toda essa herança africana, o meio cultural e racial, associada às crenças indígenas, criaria uma fisionomia singular para a cultura brasileira.

Duvid: O período escravocrata no Brasil moldou nossa cultura com repercussões até hoje?

Prof. Darcy Ribeiro: Sim, de fato. O Brasil que se construía, sua base ecológica, o projeto colonial, a monocultura e o escravismo resultaram em uma sociedade totalmente nova. A empresa escravista foi fundada na violência mais cruel de apropriação de seres humanos e de coerção permanente, exercida através dos castigos mais atrozes; tudo isso atuou como mola desumanizadora e deculturadora de eficácia incomparável. Nenhum povo que passasse por isso como sua rotina de vida, através de séculos, sairia dela sem ficar marcado indelevelmente. Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados.
Todos nós, brasileiros, somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos, seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria. (...) Essa herança terrível, porém, provocando crescente indignação, nos dará forças, amanhã, para conter os possessos e criar aqui uma sociedade solidária.

Duvid: Professor, nós poderíamos ouvi-lo por dias, mas gostaríamos de retomar a primeira questão que lhe fizemos: como o senhor definiria o povo brasileiro hoje?

Prof. Darcy Ribeiro: Estou muito feliz com essa pergunta. Como cientista, eu vivo na corda bamba entre utopias e o rigor científico. Mas creio que nós, brasileiros, nesse quadro, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na ninguendade, até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros. Um povo, até hoje, em ser, na dura busca de seu destino. Os brasileiros são, hoje, um dos povos mais homogêneos linguística e culturalmente, e também um dos mais integrados socialmente da Terra. Falam uma mesma língua, sem dialetos. Não abrigam nenhum contingente reivindicativo de autonomia, nem se apegam a nenhum passado. Estamos abertos é para o futuro.

Duvid: Professor, muito obrigado pelas suas análises. Temos certeza de que foram, igualmente, um convite muito agradável a todos para que conheçam sua imensa obra.

Prof. Darcy Ribeiro: Eu agradeço mais uma vez pelo convite de estar aqui e digo que continuaremos na luta para florescer amanhã como nação, mais alegre porque sofrida e melhor porque incorporamos mais humanidade. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas.



A importância do Censo Demográfico

O instrumento utilizado para levantar os dados sobre a população brasileira e a realidade do território é o Censo Demográfico.

O IBGE é o órgão responsável pelo Censo. É um processo longo e envolve milhares de pessoas, dentre elas os recenseadores. O Censo é o processo de contar e obter informações sobre as características dos habitantes de um país.

O recenseador visita a casa de todos os brasileiros, vestido com um jaleco azul e com a identificação do IBGE, e anota em seu aparelho eletrônico algumas questões. Há uma pesquisa simples e outra, por amostragem, mais aprofundada. Na primeira, é perguntada a idade, a cor da pele (com opções entre branco, pardo, preto, amarelo ou indígena), o grau de escolaridade, além de questões sobre saneamento básico, número de banheiros, renda, dentre outras. No questionário completo, as questões possuem mais opções, como tipo e características do domicílio, religião, pessoas com deficiência residentes, trabalho e rendimento etc.

Há outros questionários importantes, como os sobre características do entorno: pavimentação das ruas, circulação, existência de calçadas e arborização. Também existe um questionário específico para a população indígena, sobre características e infraestrutura das aldeias e escolaridade.

Quase todos os países fazem, com regularidade, seus censos demográficos a cada década: contam seus habitantes e obtêm informações que permitem identificar suas características (sexo, idade, cor, religião, migração, educação, trabalho, entre outras), conhecer em detalhes as condições em que vive a população e os seus níveis de desenvolvimento socioeconômico, assim como traçar um retrato abrangente e fiel da realidade nacional.


QUESTÃO PRÁTICA

O Censo Demográfico brasileiro pergunta a cor ou raça da população a partir de:

A composição étnica brasileira

O IBGE utiliza o conceito de raça em seu questionário para o Censo. Há, da mesma forma, o conceito de etnia.

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Raça: refere-se ao âmbito biológico; referindo-se a seres humanos, é um termo que foi utilizado historicamente para identificar categorias humanas socialmente definidas. As diferenças mais comuns referem-se à cor de pele, tipo de cabelo, conformação facial e cranial, ancestralidade e genética.

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Etnia: refere-se ao âmbito cultural; um grupo étnico é uma comunidade humana definida por afinidades linguísticas, culturais e semelhanças genéticas. Essas comunidades geralmente reclamam para si uma estrutura social, política e um território.

No meio acadêmico, hoje, há amplo consenso quanto à ineficácia teórica do termo raça como conceito biológico, tendo sido definitivamente erradicado pela genética, mas, ao mesmo tempo, multiplicam-se as constatações de sua persistência como realidade simbólica extremamente eficaz nos seus efeitos sociais.

Isso se confirma quando, por exemplo, o IBGE realizou uma pesquisa específica sobre as características étnico-raciais da população em 2008. Nessa pesquisa, o quesito das respostas é fechado, quer dizer, o entrevistado responde a partir de opções já estabelecidas. Entretanto, quando se fez um teste com questões abertas, surgiram mais de 300 respostas, como cor branca, clara, morena, escura, misturada, rosa, dentre inúmeras outras.

Para se ter uma ideia da distribuição da população de acordo com a raça, temos os dados do último Censo de 2010:

ts03f01 Fonte: IBGE. Censo demográfico 2010.

É interessante notar que a maioria da população brasileira é formada por pardos e pretos. Em 2019, essa situação sofreu uma modificação:

O IBGE pesquisa a cor ou raça da população brasileira com base na autodeclaração. Ou seja, as pessoas são perguntadas sobre sua cor e podem se declarar como brancas, pretas, pardas, indígenas ou amarelas.

Se fôssemos uma pequena comunidade de 100 pessoas, 43 brasileiros se declarariam como brancos, 47 como pardos, nove como pretos e, aproximadamente, um brasileiro se declararia como amarelo ou indígena. Veja:

ts03f02

Porém, somente uma tabela não permite visualizar a distribuição completa pelo território. Nesse caso, é necessário um mapa, conforme abaixo:

Mapa de distribuição racial no Brasil (2010)

ts03f03 Fonte: http://patadata.org/maparacial/. Acesso em 10 ago. 2022.

No mapa é possível observar o predomínio da população branca nas regiões Sudeste e Sul do Brasil. O mapa, evidentemente, não é uma representação idêntica à realidade, mas fornece um panorama interessante sobre a localização dos indivíduos no território e também sobre seu vazio demográfico, isto é, as áreas onde não há muitas pessoas concentradas.

Vamos falar de matriz étnica quando quisermos nos referir à formação da população brasileira baseada em brancos, negros africanos e povos indígenas. Nossa população formou-se tanto pela colonização como pela vinda de imigrantes. É uma história de concentração relativa e de miscigenações.

Iniciaremos essa jornada pela origem histórica, depois falaremos sobre os índios, em seguida sobre a participação dos negros e, por fim, sobre o papel da imigração na formação da população do Brasil.


A formação histórica e os grupos étnicos no Brasil

Em 1500 havia, por volta, 5 milhões de índios no Brasil. Depois entraram cerca de 6 milhões de negros e, aproximadamente, 4 milhões de brancos. O Nordeste foi a primeira região a ser colonizada, com mão de obra escrava para a cultura da cana-de-açúcar. No Norte ocorreu ocupação tardia, com influência indígena, em caboclos (brancos e índios) e cafuzos (negros e índios). No Sudeste, predomínio de brancos imigrantes que vieram trabalhar na cultura do café, após o término da escravidão. No Sul, maioria branca, de imigrantes que receberam propriedades para ocupar essa parcela do território.

A grande marca da população brasileira está baseada na miscigenação, ou no cruzamento entre grupos étnicos. Diferentemente de outros países, a cor da pele tem um peso grande no Brasil, daí a denominação de mulato (branco e negro). Esse critério não leva em conta a herança genética da pessoa. Há países que classificam sua população pelas origens e pela identificação cultural de cada um. Mesmo com pele branca e cabelos lisos, há aqueles que preferem se declarar afrodescendentes ou indígenas, pois possuem ancestrais desses grupos étnicos. Esse tema, porém, vem mudando ao longo das décadas.

ts03f04 Fonte: IBGE. Recenseamentos gerais de 1950, 1980, 2000 e 2010.

As informações sobre etnias nem sempre fizeram parte das pesquisas no Brasil. Os Censos de 1960 e 1970, por exemplo, não registraram esses dados. Na tabela acima é possível observar um ajuste sobre o pertencimento dos grupos étnicos. Sabemos hoje que o Brasil é constituído por maioria parda e negra, o que tem ligação direta com o passado de formação da população.

Houve melhorias com o passar das décadas, como incluir os indígenas em grupos separados dos orientais. Entretanto, a noção de pardo ainda pode confundir, pois incluiria tanto descendentes de africanos quanto de indígenas.

Quais os motivos dessa mudança de percepção ou de atitude dos brasileiros em sua declaração sobre a qual grupo étnico pertencem?

Há diversos motivos, mas o fato de que nas décadas passadas a maioria da população se declarava de cor branca, com mais de 60% na década de 1950, mesmo tendo descendentes negros ou indígenas, tem a ver com o preconceito existente na sociedade brasileira. Porém, com as conquistas e o avanço da legislação em favor dos direitos dos indígenas, como a demarcação de suas terras, além das políticas de cotas nas universidades para negros, tudo isso contribuiu para uma mudança de percepção e culminou em um maior ajustamento entre a declaração da população e seus grupos étnicos.

O Censo de 2010 revelou, da mesma forma, a distribuição e as diferenças regionais em relação às etnias. A região Sul concentrava 78% da proporção de brancos, seguida pela região Sudeste, com 56%. Nas regiões Norte e Nordeste esses dados são reduzidos, com 23% e 29% respectivamente do total.

Na região Norte concentram-se quase 40% dos indígenas do Brasil, e quase 70% da população se declara parda. Na região Nordeste está o maior percentual de negros (8%) e a segunda maior proporção de pardos (62%).

Em pesquisas envolvendo amostras de DNA em grupos considerados brancos, constatou-se uma média de 33% de linhagens provenientes de indígenas e 28% de africanas. A miscigenação no Brasil ocorreu, em boa parte, com heranças genéticas transmitidas por via feminina, ou seja, essa mistura resultou sobretudo da relação entre o homem branco europeu e mulheres indígenas ou africanas.

Isso porque, na época da colonização, havia poucas mulheres europeias: os colonizadores raramente traziam consigo suas mulheres e filhas.


A população indígena

De acordo com os dados do Censo 2010, no Brasil vivem 896.917 pessoas que se declaram indígenas. Desse total, 57,7% vivem em terras indígenas oficialmente reconhecidas.

ts03f05

A estimativa é de que viviam cerca de 3,5 milhões de indígenas na época da chegada dos portugueses.

Já em relação às etnias, o IBGE contabilizou 305 diferentes no Brasil. Os principais troncos étnicos e suas ramificações são:

Macro-Jê: Boróro / Guató / Jê / Karajá / Krenák / Maxakali / Ofayé / Rikbaktsa / Yatê.

Tupi: Arikém / Awetí / Jurúna / Mawé / Mondé / Mundurukú / Puroborá / Ramaráma / Tuparí / Tupi-Guarani.

Com relação à língua falada, o Censo 2010 identificou 274 línguas indígenas no Brasil, sendo que 57,1% dos indígenas não falam língua indígena, e 76,9% deles falam a língua portuguesa.

Entre os indígenas que vivem em Terras Indígenas esses percentuais se alteram: 57,3% falam alguma língua indígena e 28,8% não falam a língua portuguesa.

A maior parte dos indígenas é alfabetizada (76,6%). Inclusive os indígenas que vivem em Terras Indígenas são, em sua maioria, alfabetizados (67,7%).

É importante lembrar que o termo índio, ou indígenas, foi uma classificação imposta pelos colonizadores, pois a população autóctone que já ocupava esse território se identificava como Xavante, Karajá, Suyá etc.

Obviamente, para garantir seus direitos, houve através dos séculos uma unidade e uma união em torno de uma minoria étnica, no intuito de reivindicar a solução dos problemas indígenas, seja no reconhecimento das terras indígenas, seja na forma de relação com a terra, diferente da sociedade dominante.

Nas próximas aulas veremos os problemas da política indigenista e da demarcação de terras que envolvem conflitos com brancos pelo país.

ts03f05 Fonte: https://portalamazonia.com/amazonia/ terras-indigenas-ficarao-desprotegidas-entre-setembro-e-janeiro-de-2022.

A população negra no Brasil

Estima-se que 4,8 milhões de africanos foram transportados para o Brasil e vendidos como escravos, ao longo de mais de três séculos. Outros 670 mil morreram no caminho, entre as mais de 9 mil viagens de navios entre o Brasil e o continente africano, nas mais desumanas condições.

Todo o processo de escravização dos africanos pelos colonizadores e seu uso como mão de obra foi marcado pela desumanidade.

As línguas e a cultura africanas foram quase totalmente extirpadas de cada grupo que chegava ao Brasil. Bantos, fulas ou kanembus eram proibidos, inclusive, de conviver na mesma vila.

Aliás, o próprio desenvolvimento do capitalismo, a escravidão e o nascimento de um novo tipo de economia internacional devem ser analisados em conjunto.

Por que escravizar outros seres humanos, em vez de contratar trabalhadores livres assalariados?

Porque o Brasil estava inserido na política mercantilista da época, ou seja, enriquecer a metrópole através da produção de gêneros tropicais e da extração de metais preciosos com baixo custo.

Dado o tamanho do território brasileiro, com milhões de hectares de terras disponíveis, os europeus não precisariam trabalhar para ninguém, bastando cultivar a própria terra, se essa fosse a única questão em jogo.

O objetivo principal era o lucro que o tráfico de escravos proporcionava com o transporte de seres humanos da África para a América. Havia distinções entre a escravidão indígena e a africana: características de cada etnia, além da preocupação política da Metrópole com a possibilidade de revoltas dos colonos no Brasil.

Com a Revolução Industrial, iniciada no século XVIII e intensificada no século XIX, as máquinas aumentaram a produtividade capitalista a tal ponto que foi necessário ampliar o mercado consumidor. Por isso, segundo os historiadores, o Reino Unido decidiu pôr fim ao comércio de escravos em suas colônias a partir de 1807 e pressionou pelo fim do tráfico em todo o mundo. Portugal e Brasil foram os países que mais resistiram. No Brasil, o tráfico negreiro foi proibido em 1850 e a escravidão em 1888, o último país das Américas a tomar essa decisão.


Ser negro no Brasil hoje

O geógrafo Milton Santos escreveu que:

Ser negro no Brasil é, pois, com frequência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá embaixo, para os negros, e assim tranquilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo ter permanecido na base da pirâmide social quanto ter "subido na vida".
ts03f06 Fonte: https://vejasp.abril.com.br/ coluna/memoria/trajetoria-milton-santos-geografo/

Ao observar a realidade, vemos que há diferenças sociais e econômicas seculares e permanentes entre a população brasileira. Trata-se de um fato. As condições, além de não serem as mesmas, revelam um país de maioria parda e negra ocupando um lugar inferior na hierarquia social, com salários mais baixos, vivendo em piores condições e com os piores trabalhos, dentre outros aspectos.

Os dados mais recentes da PNAD Contínua, do IBGE, mostram que em 2023 o rendimento médio da população branca ocupada foi de 3.847 reais, enquanto o da população preta ou parda foi de 2.264 reais, uma diferença de 41,1%, maior até do que a registrada no ano anterior. Olhando por hora trabalhada, a distância é ainda mais evidente: 23 reais por hora para trabalhadores brancos contra 13,70 reais para pretos e pardos. A população preta e parda também está mais exposta à informalidade: 45,8% dos trabalhadores informais do país são pretos ou pardos, acima da média nacional de 40,7%, contra 34,3% entre os brancos. Some-se a isso a maior taxa de desemprego e o menor número médio de anos de estudo nessa faixa da população, e fica claro que a desigualdade racial no Brasil não é um resquício do passado: ela se renova a cada nova pesquisa domiciliar (IBGE, PNAD Contínua, 2023).

Se as desigualdades no Brasil são evidentes e muito fortes entre os grupos étnicos, a situação dos negros é pior, com raras exceções. Veja o exemplo das mulheres negras: além do preconceito, ocupam posições subalternas no mercado de trabalho. No Brasil, quase 80% das empregadas domésticas são de ascendência afro-brasileira.

Esse tipo de atividade, raro na maioria de outros países em virtude dos elevados salários desses profissionais, aqui no Brasil é praticamente cultural, quase uma forma de escravidão, embora as conquistas trabalhistas nas últimas décadas tenham reduzido os abusos contra esses profissionais.

A busca de direitos é um processo longo, mas o reconhecimento dos quilombos e ações afirmativas, como cotas nos processos seletivos das universidades, estão na ordem do dia para reduzir essas desigualdades.


QUESTÃO PRÁTICA

A diferença de rendimento entre trabalhadores brancos e pretos/pardos no Brasil, mostrada pela PNAD Contínua, é explicada principalmente por:

O papel da imigração no Brasil

Matriz étnica Fonte: organizada e revisada pelo autor.

A matriz étnica branca no Brasil foi formada por diversos povos, mas sobretudo pela população europeia.

No período colonial, além dos portugueses, entraram no Brasil espanhóis, holandeses, franceses, ingleses e italianos.

Após a independência do Brasil houve uma nova entrada maciça de imigrantes, principalmente entre 1850 e 1934, que se instalaram em diversas regiões do país. Os principais são:

Portugueses: desde a colonização, os portugueses, o grupo mais numeroso, contribuíram para a formação do povo brasileiro com a mistura com indígenas e negros. Nos grandes centros urbanos, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo, a presença de portugueses é mais numerosa.

Italianos: depois dos portugueses, o outro grupo mais numeroso a imigrar para o Brasil. Grande parte veio para São Paulo, mas um número expressivo também para o Rio Grande do Sul (especialmente Bento Gonçalves, Garibaldi, Caxias do Sul), Santa Catarina (Nova Trento, Nova Veneza), o Paraná e o Rio de Janeiro.

Espanhóis: o terceiro grupo mais numeroso dentro do grupo branco no país. Distribuídos principalmente em São Paulo e, em menor proporção, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.

Há outros grupos brancos de origem europeia que também se destacam na população brasileira. São eles:

Alemães: os imigrantes alemães foram alocados principalmente no Sul do Brasil, nos Estados de Santa Catarina (Blumenau, Joinville) e no Rio Grande do Sul (São Leopoldo, Novo Hamburgo). Há pequenos grupos em São Paulo, no Paraná e no Espírito Santo.

Eslavos: o povo eslavo é oriundo de países como Polônia, Rússia e Ucrânia, com predominância no Paraná, nas cidades de Curitiba e Ponta Grossa.

Muitos imigrantes vieram da Ásia. Os principais são:

Sírio-libaneses: o Brasil possui milhões de descendentes de sírios e de libaneses. De língua árabe, a maioria cristã, mas há muitos muçulmanos também. Dedicam-se principalmente ao comércio, e há muitos políticos brasileiros com essa origem.

Japoneses: estima-se que quase 2 milhões de japoneses e descendentes vivam no Brasil, que abriga a maior comunidade japonesa fora do Japão. Estão radicados principalmente em São Paulo e no norte do Paraná (Londrina e Maringá), mas também no Mato Grosso, no Pará e no Amazonas. A maioria iniciou nas atividades agrícolas, ligadas ao plantio de hortaliças, além de arroz e algodão.

Chineses: calcula-se que a população total de chineses no Brasil seja de 250 a 300 mil habitantes. Desde a década de 1990 os números aumentaram bastante, principalmente nos grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo, nas atividades de comércio e alimentação.

Coreanos: mais recente e em menor número (50 mil), a comunidade coreana está concentrada na capital paulista, São Paulo.

Depois de percorrer índios, negros e imigrantes, fica mais fácil entender a frase de Darcy Ribeiro com a qual abrimos esta aula: o povo brasileiro não é uma cópia mal feita do europeu, é um povo novo, nascido do choque e da mistura entre esses três troncos. Na próxima aula vamos usar essa mesma população, já formada, para entender um problema concreto e muito atual: como a terra brasileira está distribuída entre essas pessoas, e por que a estrutura fundiária do país segue sendo motivo de conflito.


Infográfico - Resumo

Infográfico resumo formação étnica do povo brasileiro Fonte: Organizado e revisado pelo autor.


QUESTÃO PRÁTICA

Segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, a formação do povo brasileiro se deu principalmente pela:

Não existe pergunta boba! A Ciência é feita de perguntas!

P: O que diferencia o povo brasileiro dos outros povos?

R: Essa questão se refere à identidade étnica brasileira. Na geografia e na história local, onde o povo de fato habita, se forjaram os tipos de brasileiros como a cultura crioula, que se desenvolveu nas comunidades da faixa de terras frescas do Nordeste, principalmente com base no engenho açucareiro; a cultura caipira, junto aos mamelucos paulistas, inicialmente com as atividades de caça de índios para venda e, depois, da mineração de ouro e diamantes, e mais tarde com as grandes fazendas de café; a cultura sertaneja, que se difundiu pelos currais de gado, desde o Nordeste árido até os cerrados do Centro-Oeste; a cultura cabocla das populações da Amazônia, na coleta das drogas do sertão e, principalmente, nos seringais; e a cultura gaúcha do pastoreio no Sul do Brasil, em áreas colonizadas por imigrantes, principalmente alemães e italianos.

P: Quais as marcas deixadas na população brasileira pelo colonizador europeu?

R: O Brasil nasceu como uma empresa escravista e exótica, devido à força e à diversidade de suas florestas, com sua fauna e flora exuberantes. Seu povo mestiço, com sangue de índio, africanos e brancos, viveu como um proletariado externo dentro de uma possessão estrangeira. Os interesses e aspirações de seu povo jamais foram levados em conta. A consequência disso foi, dentre outras coisas, um território marcado pela prosperidade empresarial de um lado e uma penúria generalizada da população local de outro, um aglomerado multiétnico com brutal perda de sua cultura e pela eliminação física de seus povos. Quando os imigrantes chegaram mais tarde, esse povo, falante sobretudo da língua portuguesa, já amadurecia sua integração como Estado-nação.

P: O que é racismo?

R: Racismo é toda distinção, exclusão ou restrição baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objetivo anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais. Fonte: Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial.




QUESTÃO ABERTA

Um exercício para reforçar alguns conceitos.

Em quantas diferentes etnias indígenas o Censo 2010 dividiu a população indígena do Brasil?

Em que ano a escravidão foi abolida no Brasil?


Questões para serem respondidas no caderno sobre o tema da aula de hoje:

1. Qual é a diferença entre os conceitos de raça e etnia, segundo o texto?

2. Por que o IBGE utiliza a autodeclaração para definir a cor ou raça da população no Censo Demográfico?

3. Segundo Darcy Ribeiro, o que diferencia o "povo novo" do "povo velho" na formação da identidade brasileira?

4. Explique como ocorreu a miscigenação no Brasil colonial e por que ela se deu majoritariamente a partir de heranças genéticas transmitidas por mulheres indígenas e africanas.

5. Quais foram as diferenças entre a escravidão indígena e a escravidão africana no Brasil colonial?

6. O que os dados de rendimento mensal entre brancos, pardos e negros revelam sobre as desigualdades raciais no Brasil atual?

7. Por que o termo "índio" é considerado uma classificação imposta pelos colonizadores?

8. Qual foi o papel dos quilombos na história da população negra brasileira e por que eles ainda são relevantes hoje?

9. Cite três grupos de imigrantes que vieram para o Brasil após a independência e as regiões onde mais se concentraram.

10. Com base no texto, explique por que a mestiçagem é considerada, ao mesmo tempo, uma marca de identidade e um processo marcado pela violência histórica no Brasil.


Antes de finalizar, vamos fazer as questões!



Para saber mais:

Referências Bibliográficas

📚 Sugestões de Livros



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