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Objetivo:
Introdução
Na aula anterior, vimos o potencial do território brasileiro em relação aos recursos minerais presentes no país.
Hoje, veremos como esse território foi transformado através da industrialização no Brasil.
Você entrará em contato com os fatores e o processo de industrialização brasileiro ao logo do tempo e do espaço.
O que é uma indústria?
O nome indústria pode ser sinônimo de transformação. Ela modifica matérias-primas, como o minério de ferro, e o transforma em um produto comercializável e pronto para o uso, a exemplo do aço.
No Brasil, o segmento industrial representa cerca de 23% do Produto Interno Bruto (PIB) e responde por quase 71% das exportações brasileiras de bens e serviços. É um setor que emprega mais de 9 milhões de trabalhadores diretamente e possui uma média salarial de cerca de 5.887 reais para ensino superior e 2.128 reais para nível médio (CNI). Vale notar também que, apesar de gerar "só" cerca de um quinto do PIB do país, a indústria concentra a maior parte do investimento privado em pesquisa e desenvolvimento realizado no Brasil, o que reforça seu papel como motor de inovação tecnológica para toda a economia.
Qualquer mapa do Brasil nos induz a questão sobre qual a razão da distribuição das indústrias ser tão concentrada na região Sudeste?
Fonte: IBGE (2016).
Primeiro, vamos ver algumas características das indústrias no geral e depois no Brasil. Existem muitas classificações para diferentes tipos de indústrias, como aquelas que produzem produtos para outras indústrias, a exemplo da petroquímica ao refinar o petróleo, siderúrgica ao produzir metal, e a produção de máquinas e equipamentos. Estas seriam as indústrias de bens de produção ou bens de capital.
Há, igualmente, indústrias que produzem produtos que duram bastante, como carros, eletrodomésticos ou produtos de informática. Essas são as indústrias de bens duráveis. Assim como há aquelas que produzem alimentos, bebidas, cosméticos, remédios, são indústrias de bens não-duráveis.
Desde o seu início na Primeira Revolução Industrial, no fim do século XVIII e início do século XIX, na Inglaterra, utilizando para isto força humana, máquinas e energia, o processo de industrialização passou por diversas etapas, como a fase artesanal, com pouca divisão do trabalho e mais focada no trabalho do artesão; depois a fase Manufatureira, com alguma divisão do trabalho e introdução de máquinas simples; até a fase moderna com a presença de tecnologia avançada como robotização e informática. O Brasil também teve seu histórico particular nesse processo de industrialização, que marcou e ainda marca seu território ainda hoje.
Para entender onde o Brasil se encaixa nessa linha do tempo, vale relembrar rapidamente as grandes fases da indústria mundial. A Primeira Revolução Industrial, já citada, usou o carvão e o vapor como fontes de energia. A Segunda Revolução Industrial, a partir do fim do século XIX, trouxe a eletricidade, o petróleo e a linha de produção em série, com destaque para os Estados Unidos e a Alemanha. A Terceira Revolução Industrial, a partir da segunda metade do século XX, é marcada pela eletrônica, pela automação e pela informática. Mais recentemente, fala-se ainda em uma Quarta Revolução Industrial, ligada à robótica avançada, à inteligência artificial e à internet das coisas. O Brasil só começou a se industrializar de fato durante a Segunda Revolução Industrial, décadas depois dos países pioneiros, o que ajuda a explicar boa parte das dificuldades que o país teve, e ainda tem, para competir tecnologicamente no cenário internacional.
Economia agroexportadora
O Brasil viveu séculos como um país eminentemente agrário, com uma economia agrária voltada para o comércio externo. Iniciada no século XVI com a colonização promovida pelos portugueses com o objetivo de exportar riquezas para a Europa, formando uma elite ligada às grandes propriedades de terra, ao trabalho escravo e a exportação de bens primários, como cana-de-açúcar e do algodão no Nordeste e extração do látex na Amazônia.
Esse modelo agrário-exportador imposto pelos colonizadores durante mais de três séculos foi um dos fatores impeditivos para o desenvolvimento da atividade manufatureira no Brasil, conforme texto abaixo:
Como visto, o território foi organizado para ser um arquipélago econômico. Arquipélago é um substantivo coletivo para um conjunto de ilhas. Nesse caso, o Brasil foi marcado por possuir algumas “ilhas” de produção sem comunicação entre si, com transporte deficiente, em benefício do colonizador europeu.
Esse arquipélago econômico não é uma abstração: dá para visualizá-lo em três ciclos concretos que marcaram regiões inteiras do país sem nunca se conectarem entre si. No Nordeste colonial, a economia açucareira organizou engenhos ao longo do litoral, voltados exclusivamente para o mercado europeu, sem qualquer ligação econômica com o interior do próprio Nordeste. Em Minas Gerais, o ciclo do ouro, no século XVIII, criou vilas ricas e urbanizadas, mas voltadas para escoar metal precioso para Portugal, sem deixar uma base industrial local depois que as jazidas se esgotaram. E, já no início do século XX, o ciclo da borracha na Amazônia enriqueceu Belém e Manaus, a ponto de a capital amazonense construir um teatro de ópera suntuoso, mas assim que a produção asiática de látex se tornou mais barata, a economia da região entrou em colapso, sem ter desenvolvido nenhuma indústria de transformação própria. Cada uma dessas "ilhas" viveu seu próprio ciclo de riqueza e decadência isolada das demais, exatamente o oposto do que seria uma economia nacional integrada.
A atividade industrial, portanto, só iria se iniciar no final do século XIX, com o surgimento de indústrias voltada para a produção de bens de consumo duráveis, como tecidos, roupas, calçados, alimentos e bebidas. Antes tudo isso era importado da metrópole portuguesa.
Isso porque com a mão de obra escrava, não havia um mercado consumidor amplo. Além disso, os principais dirigentes do país à época estavam ligados as oligarquias agrárias, que não tinham muito interesse nos investimentos em atividades urbanas.
Nessa época, mais um ciclo econômico surgiu com o Café e com ele uma grande acumulação de capital, riqueza e poder. Uma elite de cafeicultores paulistas comandavam o cenário político na era recente da primeira república. Dessa forma, o Brasil ingressou no século XX ocupando uma posição de nação agroexportadora na Divisão Internacional do Trabalho.
Esse cenário que parecia imutável por séculos começou a se modificar com a vinda dos imigrantes a partir de 1850 e com o fim da escravidão e o surgimento do trabalho assalariado, o qual gerou um mercado consumidor ainda pouco expressivo.
Esses mesmos imigrantes, sobretudo italianos e espanhóis que vinham trabalhar nas fábricas paulistanas, também trouxeram consigo ideias anarquistas e socialistas, e foram protagonistas de um episódio importante dessa fase inicial da industrialização: a Greve Geral de 1917, a primeira greve geral da história do país. Iniciada em São Paulo após a morte de um grevista espanhol durante um protesto, ela durou cerca de um mês e reuniu operários têxteis, metalúrgicos e de outros setores, reivindicando aumento de salário e melhores condições de trabalho num momento em que o custo de vida havia disparado por causa da Primeira Guerra Mundial. O episódio mostra que, desde o início, a industrialização brasileira trouxe junto conflitos entre capital e trabalho semelhantes aos que já haviam ocorrido décadas antes na Europa industrializada.
Por que a indústria ficou concentrada no Sudeste?
Há vários fatores naturais, técnicos e políticos para o predomínio de São Paulo e Rio de Janeiro como regiões pioneiras do processo de industrialização. Sabemos que o Brasil era essencialmente agrário até o final do século XIX, vejamos como os mapas representam esse cenário:
Fonte: FRANK (2018).
Pelos mapas, vemos, dentre outras coisas, que o território era desarticulado até por volta de 1940 e depois ocorre uma expansão da integração nacional sob o comando do Sudeste. Por que ocorreu isso? Alguns fatos explicam essa configuração territorial:
- disponibilidade de capital fornecido pela cafeicultura: presença de bancos e de uma estrutura comercial:
- energia elétrica (as duas cidades, São Paulo e Rio de Janeiro, receberam eletrificação com a criação das companhias Light, entre 1899 e 1905): implantação de uma rede ferroviária eficiente.
- mão-de-obra fornecida por imigrantes europeus.
- O mercado consumidor, porque o dinheiro do café havia se concentrado no Sudeste, formando uma elite econômica e uma crescente classe média que vivia em ambas as cidades.
- o papel do solo, marcado pelo derrame basáltico, e do clima tropical de altitude em grande parte.
Os censos industriais da época demonstram essa hegemonia do Sudeste. Um levantamento feito em 1920 revela que, do total da produção industrial brasileira na época, 65.3% concentravam-se na região. São Paulo detinha 31.5% das indústrias, o Rio de Janeiro, então capital do país, contava com 28,2% dos estabelecimentos industriais, e Minas Gerais abrigava 5.69% do total.
As três primeiras décadas do século XX foram marcadas por algum crescimento industrial no Brasil graças à disponibilidade de capital oriundo da cafeicultura, à expansão urbana, à chegada das ferrovias, entre outros fatores. Por isso, o processo de industrialização brasileiro é considerado tardio, porque ocorreu efetivamente mais de cem anos depois da Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra no século XVIII e que prosseguiu em diferentes países europeus e nos Estados Unidos. Dessa forma, o país tornou-se profundamente dependente dessas nações em termos econômicos e tecnológicos.
Em 1929, ocorreu a quebra da Bolsa de Nova York, que levou as exportações de café brasileiro a um quadro caótico, sem precedentes, e resultou na falência de inúmeros fazendeiros. Nesse contexto de dificuldades econômicas, Getúlio Vargas ascendeu ao poder, com a vitória da Revolução de 30. Com a crise, o modelo político e econômico precisava mudar.
A Política de substituição de importações
A Política de Substituição de Importações objetivava produzir internamente tudo aquilo que antes era importado a fim de fomentar a indústria nacional.
Alguns fatores importantes foram fundamentais para o desenvolvimento da indústria no Brasil. O primeiro foi a ascensão do governo de Getúlio Vargas (1930-45), que promoveu a destituição da oligarquia agroexportadora que dominou a vida política e econômica do Brasil durante a primeira fase da República (1889-1930).
Do ponto de vista econômico, o referencial teórico que fundamentava as decisões do governo estava ligado à intervenção do Estado na economia, aliado a um sentimento nacionalista.
A partir disso, o governo criou grandes empresas públicas consideradas estratégicas para o avanço da indústria: a Companhia Vale do Rio Doce (atual Vale), criada em 1942, para atuar na exploração de minério de ferro, em Minas Gerais, na área do Quadrilátero ferrífero; a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), inaugurada em 1946, no município de Volta Redonda, no Estado do Rio de Janeiro; e a Petrobrás, fundada em 1953, uma empresa ligada à pesquisa e prospecção de petróleo, no segundo mandato do governo Vargas. E o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), encarregado por financiar os investimentos a longo prazo dessas infraestruturas.
O caso da CSN é um bom exemplo de como esses grandes projetos industriais transformavam também a geografia humana ao seu redor. As obras da usina começaram em 1941, viabilizadas por um acordo com os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial: em troca de financiamento e tecnologia para a siderúrgica, o Brasil cedeu uma base militar em Natal para as forças aliadas. Como não havia praticamente nada na região, a companhia teve que construir do zero uma cidade inteira para abrigar os operários, muitos deles vindos de outras partes do país e apelidados de "arigós": casas, escolas, hospitais, igrejas e áreas de lazer, tudo planejado junto com a fábrica. Assim nasceu Volta Redonda, uma das expressões mais claras de como a industrialização por substituição de importações não construía só fábricas, mas cidades inteiras ao seu redor. Quando o alto-forno foi finalmente aceso, em 1946, o aço produzido ali passou a abastecer obras marcantes como a construção de Brasília e os metrôs do Rio de Janeiro e de São Paulo. Até hoje Volta Redonda carrega o apelido de "Cidade do Aço", uma identidade urbana construída literalmente em torno de uma única grande indústria, algo comum em vários outros municípios brasileiros que nasceram ou cresceram na sombra de uma mineradora, siderúrgica ou montadora de automóveis, como São José dos Campos com a indústria aeroespacial ou São Bernardo do Campo com as montadoras de veículos do ABC paulista.
Para criar as condições para que a indústria se expandisse no Brasil e pudesse atender à demanda interna, o Estado passou a facilitar a importação de máquinas e equipamentos, mas restringiu, por outro lado, a importação de produtos industrializados.
Essa mesma fase do governo Vargas, conhecida como Estado Novo (1937-1945), regime autoritário com o Congresso fechado e amplos poderes concentrados no Executivo, foi também quando o governo organizou toda a legislação trabalhista existente em um único documento: a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), sancionada em 1943. A CLT unificou direitos como carteira assinada, férias remuneradas, jornada de trabalho limitada e salário mínimo nacional, ao mesmo tempo em que colocava os sindicatos sob forte controle do Estado. Não é coincidência que a organização da mão de obra tenha andado junto com a construção da indústria de base: um operariado com direitos mínimos garantidos, mas também disciplinado pelo Estado, era peça central do projeto de industrialização que Vargas tentava construir.
Economia urbano-industrial
A transição de uma economia agroexportadora em direção à economia urbano-industrial ocorreu através da abertura ao capital estrangeiro.
Essa transição ocorreu a partir da década de 1950, com o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, após o acúmulo de capitais derivados da política de substituições de importação e com o avanço da internacionalização da economia, o país consolidava o modelo de consumo, o crescimento das cidades e das indústrias. Lembra que foi JK quem transferiu a capital federal do Rio de Janeiro para Brasília buscando promover à ocupação do interior do território.
A industrialização deveria ser alcançada a qualquer custo, do jeito que fosse possível. Amparada pelas elites, pelos intelectuais e pelo povo, formou-se uma política favorável aos interesses das grandes empresas estrangeiras. Foi no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960) que esse modelo se instaurou através do tripé econômico: capital privado nacional, capital privado internacional (as multinacionais) e intervenção do Estado.
Dessa forma, o processo de industrialização do país ingressou em uma nova fase, marcada pela crescente presença de empresas multinacionais, voltadas principalmente para a produção de bens de consumo duráveis, como automóveis, eletrodomésticos, transportes, comunicações etc.
Esse avanço industrial teve um efeito colateral direto sobre a distribuição da população pelo território: o êxodo rural. À medida que as cidades ofereciam empregos nas fábricas e a agricultura foi se mecanizando e exigindo cada vez menos trabalhadores, milhões de brasileiros deixaram o campo em direção às cidades ao longo da segunda metade do século XX. Em 1950, cerca de 64% da população brasileira ainda vivia em áreas rurais; em poucas décadas essa proporção se inverteu completamente, e hoje mais de 84% dos brasileiros vivem em cidades. Esse movimento aconteceu de forma rápida demais para que a infraestrutura urbana acompanhasse, o que ajuda a explicar o crescimento acelerado e desordenado de favelas e periferias nas grandes metrópoles industriais, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro.
O Brasil, diante desse cenário, é caracterizado como uma país de industrialização tardia, tendo em vista que seu processo de industrialização se concretizou após quase dois séculos do início da Revolução Industrial na Europa.
O período militar e o endividamento externo
A partir de 1950, o Brasil ainda era um país pouco industrializado, e o dinheiro para realizar diversas obras como indústrias de aço, hidrelétricas, estradas, dentre outras, vieram de empréstimos internacionais, agravados pelas crises seguintes de 1980 e 1990.
Após JK, o governo no Brasil entrou em um período conturbado, com a renúncia de Jânio Quadros e com o governo de João Goulart (1961-64) que perdurou até o golpe de Estado de 1964.
Com o regime militar houve um grande aumento do endividamento do país, de cerca de 3,3 bilhões de dólares de dívida externa no início do regime para aproximadamente 105 bilhões ao término desse período, em 1985. O PIB do Brasil cresceu significativamente, chegando a figurar entre as dez maiores economias do mundo no início dos anos 1980. O país cresceu muito nesse tempo, mas com consequências sociais e políticas.
O parque industrial se desenvolveu de forma significativa e a infraestrutura de transportes, energia e telecomunicações se modernizou.
O capital estrangeiro entrou em vários setores da economia, principalmente na extração de minerais metálicos em Carajás, Trombetas e Jari; nas indústrias químicas e farmacêuticas e na fabricação de bens de capital utilizados pelas indústrias de bens de consumo.
Foi também nesse período, em 1967, que o governo militar criou a Zona Franca de Manaus, por meio do Decreto-lei 288. A ideia era usar incentivos fiscais, isenções de impostos válidas por décadas, para atrair indústrias para o meio da Amazônia, criando ali um polo industrial, comercial e agropecuário capaz de ocupar e integrar uma região até então praticamente isolada do restante do território nacional. Hoje o Polo Industrial de Manaus reúne centenas de fábricas, com destaque para os setores de eletrônicos, informática e motocicletas, e segue sendo um dos poucos grandes exemplos de industrialização fora do eixo Sudeste, mesmo tendo nascido de uma decisão política e não de vantagens naturais de localização.
Esse período é conhecido pelos historiadores como “Milagre Econômico”, com crescimento elevado do PIB, mas também com a diminuição do poder de compra por parte dos trabalhadores.
Os números do período impressionam: a economia brasileira cresceu, em média, mais de 11% ao ano entre 1968 e 1973, partindo de 9,8% em 1968 e chegando a 14% em 1973, contra um crescimento médio de apenas 4,2% ao ano nos anos imediatamente anteriores ao golpe. Foi nesse contexto que o Brasil chegou a figurar entre as dez maiores economias do mundo. O problema é que esse crescimento acelerado veio acompanhado de forte concentração de renda: o chamado "bolo" cresceu, na famosa metáfora usada por ministros da época, mas precisaria "crescer para depois ser dividido", o que na prática significou que boa parte da população trabalhadora não sentiu os benefícios desse crescimento no seu dia a dia.
Com a crise do petróleo, dentre outras, no final da década, os investimentos externos foram reduzidos e a economia brasileira teve de arcar com o pagamento dos juros da dívida externa.
O lema era exportar a qualquer custo e na busca por superávit, o país aumentou os impostos de importação e, assim, reduziu a competitividade do parque industrial brasileiro diante do exterior ao longo dos anos 1980.
Não à toa, os anos 1980 ficaram conhecidos na história econômica brasileira como a "década perdida". Enquanto o país tentava pagar os juros da dívida externa herdada do período militar, a inflação foi saindo de controle: em 1989 já passava de quase 2.000% ao ano. Sucessivos planos econômicos tentaram conter os preços por meio de congelamentos, como o Plano Cruzado de 1986, mas todos fracassaram e a inflação voltou a acelerar logo em seguida. O resultado foi uma década de estagnação para a indústria brasileira, com baixo investimento em modernização tecnológica, justamente no momento em que outros países emergentes asiáticos avançavam rapidamente em seus próprios processos de industrialização. Essa crise inflacionária só seria efetivamente resolvida em 1994, com o Plano Real.
Vimos aqui como o Brasil saiu de uma economia agroexportadora fragmentada em "ilhas" isoladas para construir, em pouco mais de meio século, um parque industrial concentrado sobretudo no Sudeste. Na próxima aula vamos entender a segunda parte dessa história: os fatores que explicam por que a indústria se instalou onde se instalou, e como esse mapa começou a mudar nas últimas décadas, com a desconcentração industrial levando fábricas para outras regiões do país.
Saiba mais!
Depois da tempestade, vem o “milagre”
Do ponto de vista da industrialização brasileira propriamente dita, o golpe de 1964 não trouxe nenhuma mudança nos rumos por ela tomada desde 1955. Muito pelo contrário, o papel da ditadura militar foi o de consolidar o modelo econômico implantado nos anos 1950, aperfeiçoando-o. Logo, a primeira característica da industrialização brasileira dessa época foi a permanência das diretrizes estabelecidas pelo Plano de Metas, mantendo-se o tripé inaugurado nos anos 1950 a pleno vapor.
A história da economia e da industrialização brasileiras do pós-64 pode ser dividida em três períodos: a) 1962-1967: fase caracteriza como de crise e recessão; b) 1968-1974: fase de retomada do crescimento industrial, vulgarmente conhecida como “milagre econômico brasileiro”, em virtude das elevadas taxas de crescimento de nossa economia; c) de 1974 até o presente (1992): fase em que o “milagre” entrou em total e completo declínio, sem que as várias saídas tentadas tenham conseguido grande sucesso.
QUESTÃO PRÁTICA
O modelo de industrialização brasileira é considerado:
QUESTÃO PRÁTICA
Na era Vargas e com a economia fortemente intervencionista, a industrialização brasileira baseou-se na:
QUESTÃO PRÁTICA
No governo JK, o aspecto central da industrialização brasileira pode ser destacada a partir do(a):
Não existe pergunta boba! A Ciência é feita de perguntas!
P: Por que se fala que a industrialização do Brasil foi dependente?
R:
A teoria da dependência surgiu após o esgotamento da teoria da substituição das importações na era JK, com a entrada de indústrias automotivas internacionais, dentre outras. Essa teoria diz que o subdesenvolvimento dos países como o Brasil, México, África do Sul etc. além do processo de colonização era também resultado do interesse do centro do capitalismo e das elites do próprio país em manter esses países produzindo bens primários.
A ideia é a de que os países subdesenvolvidos, porém industrializados como o Brasil, não estão no mesmo patamar de igualdade com os países desenvolvidos, onde fornecem matérias-primas e recebem produtos industrializados, criando uma relação de dependência.
P: Quais são as fórmulas econômicas mais utilizadas para industrializar um país?
R:
Existem diversas formas de teorizar e aplicar uma fórmula econômica, a depender das regras do sistema proposto. No sistema capitalista, as variáveis giram, grosso modo, em torno do lucro e do trabalho assalariado e pela lei de oferta e procura. Dentro desse sistema, temos, de modo geral, grandes formas e suas variações que englobam várias visões de mundo sobre o que seria um bom caminho para a economia e, consequentemente, para a industrialização. Temos a forma da economia neoliberal e a economia desenvolvimentista.
A forma neoliberal baseia-se na suposição de que o mecanismo de preços deveria ser respeitado como o fator determinante da economia. Isso significa que o Estado controlaria o mínimo possível as medidas fiscais e monetárias, por exemplo.
Por outro lado, temos a visão desenvolvimentista nacionalista, como a de Vargas, O Estado interviria mais diretamente por meio de empresas estatais e das empresas de economia mista, como o Banco do Brasil, no sentido de assegurar as áreas que deveriam receber investimentos.
P: Qual a posição do Brasil perante os outros países do Mundo?
R:
Essa questão remete à Divisão Internacional do Trabalho (DIT), que busca entender como são caracterizados o conjunto de países de acordo com a produção industrial, dentre outras coisas.
Até a década de 1960, a velha DIT se referia aos países do Norte como os responsáveis pelo fornecimento de produtos industrializados e os do Sul, pelos produtos primários, como minérios e produtos agrícolas. Com o passar do tempo, surgiram países, como o Brasil, México e Coréia do Sul, Hong Kong, Taiwan, Singapura, Índia, etc. que reorganizaram seu espaço produtivo e foram caracterizados de Países recentemente industrializados.
Alguns desses países favorecem a entrada de multinacionais em seu território e melhoraram suas exportações. Outros investiram em bens de capital como o Brasil e em infraestrutura. O importante é lembrar que a análise sobre um país está intimamente ligada aos interesses do capitalismo mundial, dos governos locais, dos fatores naturais e das características próprias de cada povo com seu território, não se trata de simples comparação entre um país e outro, pois há história e geografias diferentes entre cada país no mundo.
Vale notar que, mesmo depois de décadas de industrialização, o Brasil continua sendo, na balança comercial, um grande exportador de commodities: lembre-se da aula sobre recursos minerais, em que vimos que minério de ferro, soja e petróleo seguem entre os principais produtos exportados pelo país. Isso mostra que a industrialização não elimina de uma vez por todas o papel de fornecedor de matérias-primas que um país ocupa na Divisão Internacional do Trabalho, ela apenas se soma a esse papel. O Brasil de hoje exporta ao mesmo tempo minério de ferro bruto e aviões fabricados pela Embraer, o que o coloca numa posição híbrida e complexa dentro da economia mundial: nem totalmente periférico, nem plenamente central.
Infográfico - Resumo
Fonte: Organizado e revisado pelo autor.
QUESTÃO ABERTA
Um exercício para reforçar alguns conceitos.
Que processo levou milhões de brasileiros a deixar o campo rumo às cidades ao longo da industrialização?
Que estratégia econômica levou o governo a facilitar a importação de máquinas, mas dificultar a importação de produtos industrializados já prontos?
Questões para o caderno
1. O que é a indústria?
2. Qual é a contribuição do setor industrial para o PIB brasileiro?
3. Por que a distribuição das indústrias é concentrada na região Sudeste do Brasil?
4. Quais são os tipos de indústrias mencionadas no texto?
5. Como o modelo agrário-exportador impactou a industrialização no Brasil?
6. Qual evento econômico levou à falência de muitos fazendeiros no Brasil em 1929?
7. O que foi a Política de Substituição de Importações?
8. Quais grandes empresas públicas foram criadas pelo governo de Getúlio Vargas?
9. Como Juscelino Kubitschek contribuiu para a industrialização no Brasil?
10. Qual foi o impacto do regime militar no endividamento externo do Brasil?
Antes de finalizar, vamos fazer as questões!