Conteúdo:
Objetivo:
Introdução
Na aula passada estudamos sobre a vegetação brasileira e suas características no território. Hoje vamos verificar como o solo é utilizado no país para a produção de diversos gêneros alimentícios bem como de víveres.
O Brasil, o 5º maior país do mundo, possui uma vasta extensão de terras cultiváveis. Essa característica, aliada à modernização da agricultura, faz do Brasil um líder na produção agrícola global. A agricultura moderna envolve maquinário avançado, como tratores e colheitadeiras, uso de produtos químicos para aumentar a produtividade e financiamento governamental.
No Nordeste, áreas especializadas na produção de frutas contrastam com a produção de arroz no Rio Grande do Sul. Pequenos agricultores familiares diferem dos grandes exportadores de carne que alimentam milhões no exterior. Vamos explorar nesta aula como essa rede de produção e circulação funciona no território brasileiro.
Antes de entrar nos números, vale lembrar que "agropecuária" não é sinônimo de "desmatamento": é possível produzir muito em pouco espaço, com tecnologia e manejo adequado, ou produzir pouco em um espaço enorme, de forma predatória. Ao longo da aula, vamos ver os dois lados dessa moeda em ação no território brasileiro.
Como a terra é usada para a agropecuária no Brasil?
Vamos iniciar essa jornada através agropecuária brasileira conhecendo a disponibilidade de terras em nosso país, e, igualmente, como o território está repartido em diferentes porções de áreas cultiváveis.
Vamos relembrar a quantidade de terras que o Brasil possui, conforme tabela abaixo:
Tabela 01 - Quantificação das áreas destinadas à proteção e preservação da vegetação nativa e demais usos e ocupação das terras no Brasil (2018).
| Categorias | ÁREA (ha) | % DA ÁREA DO BRASIL (2018) |
|---|---|---|
| Áreas destinadas à preservação da vegetação nativa cadastradas no car (mundo rural – pecuária, agricultura, silvicultura, extrativismo…) | 218.245.801 | 25,6 |
| Unidades de conservação integral | 88.429.181 | 10,4 |
| Terras indígenas | 117.338.721 | 13,8 |
| Vegetação nativa em terra devoluta e não cadastrada | 139.722.327 | 16,5 |
| Pastagens nativas | 68.022.447 | 8,0 |
| Pastagens plantadas | 112.237.038 | 13,2 |
| Lavouras | 66.321.886 | 7,8 |
| Florestas plantadas | 10.203.367 | 1,2 |
| Infraestruturas, cidades e outros | 29.759.821 | 3,5 |
| TOTAL | 850.280.588 | 100 |
O Brasil detém uma das maiores áreas agrícolas do globo. O país possui uma área total de 851 milhões de hectares, mas apenas cerca de 33% destes são ocupados pela agropecuária (plantações e criações). Isso equivale a 282 milhões de hectares, sendo que 220 milhões são usados para pecuária e 62 milhões para agricultura.
Lembre-se: 01 hectare é a medida de um quadrado de 100m x 100m, totalizando 10 mil m².
Essa modernização agrícola tem um custo ambiental que também precisa entrar na conta. Segundo dados do IBAMA, o Brasil comercializou, em 2023, um recorde de mais de 907 mil toneladas de ingredientes ativos de agrotóxicos, um salto de mais de 20% em relação ao ano anterior. O uso desses produtos ajuda a explicar os recordes de produtividade que o Brasil vem batendo safra após safra, mas também levanta preocupações sobre a contaminação de rios, solos e lençóis freáticos nas regiões de agricultura mais intensiva.
Veja na figura abaixo a distribuição de terras no Brasil:
e comparando com a distribuição de terras do Estados Unidos temos uma situação bem diferente. Grande parte do território, aproximadamente 75% já foi tomado para a prática agrícola.
Agora vamos ver o que se cultiva no território brasileiro.
Áreas de cultivo no Brasil
A economia brasileira é fortemente impulsionada pela agropecuária, com recordes na produção de cereais, oleaginosas e leguminosas. Principais estados produtores incluem Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Veja o mapa a seguir:
Principais Produtos e Áreas Produtoras
Café: Cultivado principalmente em Minas Gerais e Espírito Santo, o Brasil é o maior produtor e exportador mundial, respondendo por cerca de 37% de toda a produção global na safra 2024/25. Em 2024, o país também bateu recorde de exportação, embarcando 50,5 milhões de sacas de 60 kg para o mercado internacional. Plantado inicialmente no Vale do Paraíba, no Rio de Janeiro, expandiu-se para São Paulo e norte do Paraná no século XX.
Cana-de-açúcar: Introduzida no século XVI, é agora cultivada principalmente no interior de São Paulo, além de Minas Gerais e Alagoas. A produção de álcool combustível impulsionou a expansão desde os anos 1970.
Algodão: Cultivado no Nordeste (algodão arbóreo) e Centro-Sul (algodão herbáceo). Permitido desde 2005, o cultivo de algodão transgênico é regulamentado no Brasil.
Soja: Inicialmente plantada no Rio Grande do Sul e Paraná, expandiu-se para Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e oeste da Bahia. Desde 2023, o Brasil é o maior produtor mundial de soja, e a produção só cresce ano a ano: a safra 2024/25 alcançou cerca de 171 milhões de toneladas, novo recorde histórico e o equivalente a mais de 40% de toda a soja produzida no planeta, à frente dos Estados Unidos.
Laranja: Principalmente produzida no oeste de São Paulo, com 75% da produção nacional, além de Minas Gerais, Espírito Santo e a Baixada Fluminense.
Cacau: Principalmente cultivado na Bahia, que responde por 80% da produção nacional.
Pimenta-do-reino: Originária da Ásia, é cultivada no Pará e no Vale do Ribeira, em São Paulo.
Uva: Introduzida pela colonização italiana, é cultivada no Rio Grande do Sul (região serrana) e também em São Paulo e Minas Gerais. O Vale do Rio São Francisco é notável pela produção irrigada.
Fumo: Produzido em Arapiraca (Sergipe) para charutos e em Santa Cruz do Sul (RS) e interior de Santa Catarina para cigarros.
Banana: Exportada principalmente do Vale do Ribeira, litoral paranaense e Bahia, com destaque também para os litorais fluminense e capixaba.
Feijão: Cultivado em estados como Paraná, Minas Gerais, São Paulo e Bahia, com destaque para o município de Irecê na Bahia.
Milho: Produzido em todo o Brasil, especialmente no Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais, utilizado para consumo humano e ração animal.
Mandioca: Nativa da Amazônia, é uma lavoura de subsistência com maiores produtores na Bahia, Maranhão, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
QUESTÃO PRÁTICA
De acordo com os dados apresentados na aula, marque a alternativa correta sobre a produção de soja no Brasil:
Pecuária brasileira
A pecuária e a avicultura são setores importantes nas exportações brasileiras, mas enfrentam desafios, principalmente o impacto ambiental do avanço dos pastos em áreas de florestas nativas.
Sistemas de Criação
Existem diferentes formas de criação de animais como atividade lucrativa:
- Criação Intensiva: O gado é criado em confinamento ou em pequenas áreas de pastagem. Os animais são geralmente de raças selecionadas, resultando em alta produtividade de leite, carne e couro de alta qualidade.
- Criação Extensiva: Os animais são criados soltos em grandes áreas de pastagem, com menores investimentos e rendimento.
- Criação Semiextensiva: No Brasil, predomina a criação semiextensiva, onde os animais são criados em pastos cultivados, mas recebem vacinação e acompanhamento veterinário.
Tecnologia na Pecuária
Na pecuária, fatores naturais como pastagens e clima adequado são essenciais, mas a tecnologia desempenha um papel crescente na melhoria da produtividade e qualidade da produção animal.
Avanços Tecnológicos
- Seleção Genética: Utilização de técnicas de biotecnologia para selecionar e reproduzir animais de corte ou leiteiros com maior produtividade, resultando em melhorias qualitativas ao longo das gerações. Exames genéticos também são empregados para analisar características hereditárias.
- Inseminação Artificial: Método que utiliza sêmen de animais selecionados para fertilizar a fêmea, aumentando a qualidade genética da cria.
- Fecundação In Vitro: Processo de fertilização em laboratório, utilizando ovos recolhidos de fêmeas e espermatozoides de machos selecionados.
- Clonagem: Produção em laboratório de indivíduos geneticamente idênticos.
Adaptação ao Mercado Internacional
Com a expansão do mercado de carne brasileira no exterior, frigoríficos e proprietários rurais precisam ajustar suas práticas aos padrões internacionais.
- Criação Intensiva: Crescente utilização no setor de gado leiteiro, visando aumentar a eficiência produtiva.
Pastagens Degradadas: Nem toda a área usada para pecuária no Brasil está em boas condições. Levantamentos da Embrapa indicam que cerca de 60% das pastagens cultivadas do país apresentam algum grau de degradação, entre médio e severo, o que reduz a capacidade de suporte de gado por hectare e empurra parte dos pecuaristas a abrir novas áreas em vez de recuperar as antigas. Boa parte dessas terras degradadas, sobretudo em Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, tem alto potencial para virar lavoura ou voltar a ser uma pastagem produtiva, o que torna a recuperação de pastagens uma das principais estratégias defendidas para conciliar produção e conservação, reduzindo a pressão por desmatamento.
Zootecnia
Zootecnia é uma área dedicada ao estudo da reprodução, genética e nutrição de animais, com foco na criação comercial. Apesar de frequentemente associada à veterinária, sua ênfase está na produção animal para fins comerciais.
Bovinos
O Brasil possui o segundo maior rebanho bovino do mundo, atingindo 238,6 milhões de cabeças em 2023, o recorde da série histórica iniciada em 1974, segundo dados do IBGE. Em 2024, o efetivo teve uma leve queda (238,2 milhões de cabeças), mas segue como o segundo maior resultado já registrado. A concentração desse rebanho é significativa no Centro-Oeste do país, com destaque para o Mato Grosso, que sozinho responde por quase 14% do efetivo nacional.
Diversidade de Raças
- Zebu: Predominância de animais de origem indiana, especialmente a variedade de gado Zebu conhecida como Nelore. Adaptado ao clima quente e úmido do Brasil, é criado principalmente para corte.
- Raças Europeias: Também são criadas raças bovinas de origem europeia, como o Holandês, Jersey e Hereford. Essas raças são valorizadas principalmente na produção leiteira.
Desafios e Melhorias na Produção
- Produção Leiteira Intensiva: Crescimento da criação de rebanhos leiteiros de forma intensiva.
- Melhoria da Qualidade do Leite: Produtores estão focados em melhorar a qualidade do leite, incluindo o teor de gordura, e em cumprir metas de higiene e controle sanitário.
- Expansão na Amazônia: A região da Amazônia tem vivenciado um aumento significativo na atividade pecuária, o que levanta preocupações ambientais devido ao desmatamento associado.
A pecuária bovina brasileira enfrenta desafios relacionados à sustentabilidade ambiental e à busca por práticas mais eficientes e sustentáveis, ao mesmo tempo em que busca atender à crescente demanda por carne e leite no mercado nacional e internacional.
Suínos, Ovinos, Caprinos e Equinos: Panorama da Pecuária Brasileira
Suínos
Região Líder: O Sul do Brasil lidera a criação de suínos, com frigoríficos especializados na região.
Padrões Sanitários: Devido aos avanços no setor e a rigorosos controles sanitários, o Brasil se consolidou como o terceiro maior exportador mundial de carne suína, atrás apenas da União Europeia e dos Estados Unidos. Em 2024, as exportações somaram 1,229 milhão de toneladas, 10% a mais do que em 2023, gerando mais de US$ 3 bilhões em receita. Nesse mesmo ano, as Filipinas ultrapassaram a China e se tornaram o principal destino das exportações brasileiras, com 254,3 mil toneladas, mais do que o dobro do volume comprado em 2023, à frente do mercado chinês, que segue como o segundo maior comprador.
Ovinos e Caprinos
Crescimento no Nordeste: A criação de ovelhas e cabras tem crescido significativamente no Nordeste brasileiro, destinada principalmente à subsistência.
Diferenças Regionais: Enquanto o Nordeste se destaca na criação de ovinos, o Sul é conhecido pela produção de carne de ovinos lanados.
Equinos, Muares e Asininos
Rebanho de Equinos: Minas Gerais e Rio Grande do Sul são líderes na criação de equinos, amplamente utilizados como animais de tração.
Cuidados e Preocupações: Discussões sobre o bem-estar e leis específicas têm surgido para coibir maus-tratos a equinos em áreas urbanas.
Bubalinos
Introdução e Expansão: Os búfalos foram introduzidos no Brasil em 1870, com sua criação iniciada na Ilha de Marajó. Hoje, o Pará lidera a criação nacional.
Produtos e Interesse: O consumo de queijo de búfala é difundido, e o interesse na carne desses animais tem crescido devido ao seu sabor e baixo teor de gordura.
Avicultura: Destaque na Produção Mundial
Liderança Global: O Brasil é o maior produtor mundial de aves, com destaque para a produção de frangos.
Fatores de Destaque: A grande extensão territorial, oferta de grãos e mão de obra favorecem o setor avícola brasileiro.
Exportação e Mercados: Há mais de uma década o Brasil lidera as exportações mundiais de carne de frango, com recorde de mais de 5,2 milhões de toneladas exportadas em 2024. Atualmente, a China é o maior comprador individual, seguida por Emirados Árabes Unidos, Japão e Arábia Saudita.
Desafios Sanitários: Preocupações com o controle de vacinação e medidas sanitárias aumentaram após a epidemia de gripe aviária.
A pecuária brasileira abrange uma ampla variedade de espécies, impulsionando a economia e a produção de alimentos no país.
QUESTÃO PRÁTICA
Marque a alternativa correta sobre a situação da gripe aviária no Brasil:
Os dois mundos da agricultura
O agronegócio é fazer do campo um espaço de negócio. Isso confronta com o estilo camponês de viver e de produzir. Ele tem uma forma não capitalista de produzir, o que se chama de agricultura familiar, preferencialmente chamada de agricultura camponesa. Há uma disputa entre esses dois “mundos” de agricultura.
A liderança do Brasil nos rankings mundiais de produção e exportação de commodities como soja, café, suco de laranja, carne bovina, carne de frango e açúcar, vistos no tópico anterior, não surgiu por acaso. Ela está ligada à ampliação da entrada do capital agroindustrial no campo: grandes investimentos de empresas e grupos econômicos em maquinário avançado, insumos, logística e financiamento, voltados a um modelo de produção em larga escala orientado para o mercado externo, cotado em dólar. Diferente da imagem de um campo atrasado, esse modelo emprega trabalhadores assalariados qualificados e especializados, operando equipamentos de agricultura de precisão em grandes propriedades rurais, o que ajuda a explicar como o Brasil conquistou posições de destaque global mesmo sendo, ao mesmo tempo, um país de agricultura camponesa.
Ao mesmo tempo que o campo passa a ser disputado pelos grandes grupos que buscam o lucro, há uma outra forma de agricultura, que é sustentável ambientalmente e produz fruto mais saudável.
Essa modernização do campo, no entanto, não ocorre de forma homogênea em todo o território: ela se concentra em áreas específicas, formando uma espécie de arquipélago de tecnologia e capital cercado por regiões que permanecem à margem desse processo, fenômeno conhecido como seletividade espacial. O estado da Bahia ilustra bem esse padrão: a partir da década de 1970, três frações do seu território, antes sem modernização, foram incorporadas a diferentes circuitos espaciais produtivos globalizados, cada uma ligada a uma cadeia distinta, a soja e os grãos do MATOPIBA ao norte, a fruticultura irrigada do Vale do São Francisco e a silvicultura de eucalipto mais ao sul do estado, enquanto o restante do território baiano seguiu sem receber esse tipo de investimento em tecnologia. Esse padrão de "ilhas" de modernização gera impactos diretos sobre os mosaicos produtivos tradicionais que as cercam, seja pela tensão com as formas antigas de uso da terra, seja pela substituição delas.
A agricultura camponesa ainda ocupa grande espaço no campo brasileiro, seja através da reforma agrária, seja através de formas muito anteriores de posse e ocupação da terra.
GÖRGEN, Frei Sérgio Antônio. Disponível em: http://www.mundojovem. Acesso em: 2 jul. 2008.
QUESTÃO PRÁTICA
De acordo com o exemplo da Bahia, o que caracteriza a seletividade espacial na modernização agrícola?
Elaboração de Carta ao Congresso
Objetivo: Os alunos irão explorar diferentes perspectivas sobre temas relacionados ao agronegócio e à agropecuária brasileira, defendendo seus pontos de vista em uma carta ao congresso.
Instruções:
- Divida a turma em grupos, atribuindo a cada grupo um dos quatro temas mencionados: Agronegócio versus Agricultura Familiar, Impacto ambiental da expansão agropecuária, Desafios e oportunidades da agroindústria, Controle sanitário e saúde pública.
- Cada grupo deve discutir e elaborar argumentos para defender seu ponto de vista sobre o tema atribuído. Eles devem considerar aspectos positivos e negativos, bem como possíveis soluções para os desafios identificados.
- Depois de discutir, os grupos devem redigir uma carta ao congresso, seguindo o formato abaixo:
- Destinatário: Congresso Nacional do Brasil
- Assunto: Defesa de [tema atribuído]
- Saudação: Ex: "Prezados membros do Congresso Nacional,"
- Introdução: Apresentação do tema e da posição do grupo.
- Desenvolvimento: Apresentação dos argumentos principais, com base em evidências e exemplos.
- Conclusão: Reafirmação da posição do grupo e solicitação de ações específicas por parte do congresso.
- Despedida: Ex: "Atenciosamente,"
- Assinatura: Nome dos membros do grupo.
- Após a redação das cartas, os grupos devem compartilhar suas cartas em uma sessão de leitura em sala de aula.
- Após as leituras, promova uma discussão em sala de aula, incentivando os alunos a expressarem seus pontos de vista e debaterem sobre as diferentes perspectivas apresentadas nas cartas.
- Como atividade complementar, os alunos podem ser convidados a enviar suas cartas ao congresso de forma simbólica, promovendo uma reflexão sobre a participação cívica e o papel dos cidadãos na formulação de políticas públicas.
Infográfico - Resumo
Fonte: Organizado e revisado pelo autor.
Não existe pergunta boba! A Ciência é feita de perguntas!
P: Qual é a diferença entre agronegócio e agricultura camponesa, e por que se fala em uma disputa entre esses dois "mundos" da agricultura?
R: O agronegócio é a agricultura pensada como negócio: grandes investimentos em maquinário, insumos e financiamento, voltados à produção em larga escala para o mercado externo. Já a agricultura camponesa (ou familiar) tem uma lógica não capitalista, ligada à subsistência e à venda em pequena escala, muitas vezes praticada em propriedades conquistadas por reforma agrária ou por formas antigas de posse da terra. A disputa surge porque os dois modelos competem pelo mesmo espaço, a terra, e recebem tratamento bem diferente em termos de crédito, tecnologia e visibilidade política, mesmo o Brasil sendo, ao mesmo tempo, uma potência do agronegócio e um país de agricultura camponesa numerosa.
P: O que a expansão da pecuária em São Félix do Xingu revela sobre a relação entre desmatamento e política de subsídios na Amazônia?
R: Em São Félix do Xingu (PA), áreas equivalentes a quase 10 vezes o tamanho da cidade de São Paulo foram desmatadas para dar lugar a pastagens. O caso mostra que, apesar do discurso oficial de combate ao desmatamento, políticas de subsídio aos pecuaristas acabam tornando mais barato desmatar e formar novas pastagens do que recuperar áreas já degradadas, o que perpetua o avanço da fronteira agropecuária sobre a floresta e compromete a fertilidade dos solos da região a longo prazo.
P: O que é seletividade espacial, e como o caso da Bahia ilustra esse conceito?
R: Seletividade espacial é o padrão de modernização agrícola em que o uso intensivo de tecnologia e capital se concentra em frações específicas do território, formando "ilhas" modernizadas cercadas por áreas que ficam de fora desse processo. Na Bahia, isso aparece em três frentes distintas desde os anos 1970: a soja e os grãos do MATOPIBA ao norte, a fruticultura irrigada do Vale do São Francisco, e a silvicultura de eucalipto mais ao sul, enquanto o restante do território estadual segue sem receber esse tipo de investimento, gerando tensão com os mosaicos produtivos tradicionais do entorno.
Fechamos aqui a segunda parte da nossa jornada pela geografia agrária brasileira. Vimos como o mesmo país que lidera rankings mundiais de soja, café e carne também abriga uma agricultura camponesa numerosa, e como a modernização do campo, apesar de todos os recordes de produção, convive com desafios sérios de sustentabilidade, do desmatamento na Amazônia ao uso intensivo de agrotóxicos. Na próxima aula vamos revisar tudo o que estudamos desde a aula 13, e na sequência avançar para temas ainda mais atuais dessa mesma discussão: transgênicos, soberania alimentar e agroecologia, e como essas escolhas produtivas impactam o ambiente e a nossa própria mesa.
QUESTÃO ABERTA
Um exercício para reforçar alguns conceitos.
Por que, segundo a aula, alguns produtores acham mais barato desmatar e formar novas pastagens em vez de recuperar áreas já degradadas na Amazônia?
Por que a produção brasileira de commodities como soja, café e carne bovina consegue liderar rankings mundiais mesmo o país tendo tanta agricultura camponesa?
Questões para o caderno
1. Segundo a tabela apresentada na aula, que percentual da área do Brasil (2018) era ocupado por lavouras, e qual por pastagens (nativas e plantadas somadas)?
2. Compare a proporção do território agrícola do Brasil (cerca de 33%) com a dos Estados Unidos (cerca de 75%). O que essa diferença revela sobre o potencial de expansão agrícola brasileiro?
3. Cite três produtos agrícolas de destaque no Brasil e o estado ou região onde cada um é predominantemente cultivado.
4. Quais são os três sistemas de criação de gado (intensivo, extensivo e semiextensivo) e qual deles predomina no Brasil?
5. Cite dois avanços tecnológicos aplicados à pecuária brasileira (seleção genética, inseminação artificial, fecundação in vitro ou clonagem) e explique o objetivo de cada um.
6. Explique o papel da Embrapa no desenvolvimento da pecuária brasileira desde sua criação, em 1973.
7. Como a expansão da pecuária em municípios como São Félix do Xingu (PA) exemplifica os desafios ambientais do avanço da fronteira agropecuária na Amazônia?
8. O que mudou na situação da gripe aviária no Brasil entre 2023 e 2025? Por que o foco confirmado em uma granja comercial teve impacto sobre as exportações brasileiras?
9. Diferencie agronegócio de agricultura camponesa (familiar) e explique por que os dois modelos coexistem, e por vezes entram em conflito, no campo brasileiro.
10. O que é seletividade espacial? Use o exemplo da Bahia para explicar como esse processo cria "ilhas" de modernização agrícola.
Antes de finalizar, vamos fazer as questões!