Conteúdo:
Objetivo:
Introdução
A matriz energética de um país refere-se ao conjunto de todas as fontes de energia disponíveis para suprir suas necessidades, incluindo energia elétrica, calor e combustível.
No Brasil, a matriz energética é diversificada, com predominância de fontes renováveis, como a hidroeletricidade. A matriz elétrica, por outro lado, é especificamente voltada para as fontes de energia que geram eletricidade.
Ao longo desta aula, você vai entender a diferença entre matriz energética e matriz elétrica, conhecer as principais usinas hidrelétricas, termelétricas e nucleares do Brasil, e descobrir como o mundo, e também o Brasil, vêm mudando a forma de produzir energia: do avanço do gás natural e dos biocombustíveis ao crescimento, ainda tímido, da energia eólica e solar. Você também vai entender por que o Brasil ainda depende de energia importada mesmo sendo rico em fontes renováveis, e como o desmatamento de uma floresta pode, indiretamente, afetar a conta de luz de milhões de brasileiros.
Resumo da Matriz Energética Brasileira
Matriz Energética Brasileira: Conjunto de fontes de energia disponíveis no Brasil.
Matriz Elétrica: Focada na geração de eletricidade.
Usinas Hidrelétricas: Utilizam a força da água para gerar energia. Exemplos:
- Belo Monte: 11.233 MW, localizada no rio Xingu.
- Itaipu: 14.000 MW, projeto binacional (Brasil e Paraguai), rio Paraná.
- Tucuruí: 8.370 MW, rio Tocantins, foco na mineração de alumínio.
Termoelétricas: Produzem energia pela queima de combustíveis fósseis.
- Vantagens: Proximidade dos centros consumidores, independência climática.
- Desvantagens: Alta poluição, custos elevados.
Usinas Nucleares: Utilizam a fissão nuclear de urânio. Exemplos:
- Angra 1: 640 MW.
- Angra 2: 1.350 MW.
- Angra 3: 1.405 MW (obra parada, 66% concluída, futuro ainda em debate).
Sistema Nacional de Energia Elétrica: Sistema interligado que distribui energia por todo o Brasil.
- Desafios: Segurança energética, sustentabilidade, diversificação da matriz.
Usinas Hidrelétricas
As usinas hidrelétricas utilizam a força da água para gerar energia. Em 2022, elas responderam por 61,9% de toda a oferta de energia elétrica do Brasil, de longe a principal fonte da matriz elétrica brasileira.
Essa fonte de energia é renovável e considerada menos agressiva ao meio ambiente, apesar de seus impactos socioambientais, como o alagamento de áreas extensas e o deslocamento de comunidades ribeirinhas.
Exemplos de usinas hidrelétricas importantes:
Usina de Belo Monte: Localizada no rio Xingu, na bacia amazônica, próxima a Altamira (PA). É a maior usina inteiramente brasileira e uma das maiores do mundo em capacidade instalada, inaugurada em 2016. O projeto é controverso, devido ao seu impacto ambiental significativo, incluindo a perda de cobertura vegetal e fauna, e o deslocamento de comunidades indígenas e ribeirinhas. Capacidade instalada: 11.233 MW, mas, na prática, a geração média fica em torno de 4.500 MW, podendo cair para menos de 200 MW nos meses mais secos, porque o Rio Xingu tem vazão muito irregular ao longo do ano.
Usina de Belo Monte
Usina de Itaipu: Situada no rio Paraná, na fronteira entre Brasil e Paraguai. É uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo em capacidade instalada, com 14.000 MW distribuídos entre 20 unidades geradoras. Representa um exemplo de cooperação internacional, sendo um projeto binacional entre Brasil e Paraguai desde sua construção, nos anos 1970 e 1980. Em 2024, Itaipu respondeu por cerca de 17% de toda a energia consumida no Brasil e por 75% da energia consumida no Paraguai, uma proporção que já foi ainda maior no passado, quando o país vizinho dependia de Itaipu para praticamente toda a sua eletricidade. Desde o início de suas operações, em 1984, a usina já ultrapassou a marca histórica de 3 bilhões de MWh produzidos, o que a tornou, segundo o Guinness World Records, a maior geradora de energia acumulada do planeta.
Usina de Itaipu
Usina de Tucuruí: Localizada no rio Tocantins, no Estado do Pará, a cerca de 300 km de Belém. A usina foi construída principalmente para fornecer energia elétrica barata para o projeto de mineração de Grande Carajás, incluindo a indústria de alumínio. Capacidade instalada: 8.370 MW.
Por que nem todo o potencial hidrelétrico do Brasil é usado: O clima equatorial e tropical do país garante médias pluviométricas elevadas, e os desníveis dos extensos planaltos brasileiros fornecem a força necessária para girar as turbinas: por isso o Brasil tem um dos maiores potenciais hidrelétricos do mundo. Mas esse potencial não é aproveitado da mesma forma em todas as regiões: a Região Hidrográfica Amazônica concentra o maior potencial do país (como você viu na aula sobre hidrografia brasileira), mas apenas uma pequena parte dele é explorada, por causa da distância dos centros consumidores e dos impactos socioambientais de projetos como o de Belo Monte. Já a Região Hidrográfica do Paraná, onde fica Itaipu, tem boa parte do seu potencial em uso, assim como o Rio Tocantins, onde está Tucuruí. Considerando as usinas já em operação, os rios com maior capacidade de geração de energia do país são o Tocantins, o São Francisco, o Grande, o Paraná, o Iguaçu e o Paranaíba.
Termoelétricas
As usinas termoelétricas produzem energia pela queima de combustíveis fósseis, como carvão, gás natural e óleo diesel.
Essas usinas são mais poluentes, liberando grandes quantidades de gases de efeito estufa e podendo causar chuva ácida: um fenômeno em que poluentes lançados na atmosfera se combinam com a umidade do ar e retornam ao solo em forma de chuva ácida, prejudicando solos, rios e construções.
No Brasil, as termoelétricas convencionais respondem por uma fração pequena da energia elétrica produzida no país, sendo utilizadas principalmente em períodos de seca, quando os níveis dos reservatórios hidrelétricos estão baixos, funcionando como uma espécie de "seguro" do sistema elétrico brasileiro. Elas usam combustíveis variados, como gás natural, carvão mineral, óleo diesel e até bagaço de cana-de-açúcar (um resíduo da produção de etanol e açúcar, reaproveitado como combustível pelas usinas sucroalcooleiras), e costumam ficar próximas a centros urbanos ou industriais, justamente para reduzir perdas no transporte da energia gerada.
Pontos importantes:
Vantagens: Podem ser instaladas em locais próximos aos centros consumidores e não dependem de condições climáticas.
Desvantagens: Poluição ambiental e custos elevados devido à dependência de combustíveis fósseis.
Usinas Nucleares
As usinas nucleares utilizam o calor gerado pela fissão nuclear de átomos de urânio para produzir eletricidade. No Brasil, as usinas nucleares estão localizadas em Angra dos Reis, no Estado do Rio de Janeiro, com as plantas Angra 1 e Angra 2 operando, e Angra 3 ainda inacabada.
Características das usinas nucleares:
Capacidade instalada: Angra 1 (640 MW), Angra 2 (1.350 MW), e Angra 3 (1.405 MW), se um dia for concluída.
Vantagens: Baixa emissão de poluentes, alta eficiência energética e abundância de urânio no mundo.
Desvantagens: Risco de acidentes nucleares, como Chernobyl (1986) e Fukushima (2011), e o problema do lixo radioativo, que permanece perigoso por milhares de anos.
Os acidentes de Chernobyl e Fukushima: Em 1986, na usina de Chernobyl, na então União Soviética (atual Ucrânia), um teste de segurança mal conduzido, em que sistemas de proteção foram desligados propositalmente, provocou uma reação em cadeia descontrolada, seguida de explosão e incêndio no reator. O acidente liberou uma quantidade de radiação equivalente a centenas de bombas atômicas de Hiroshima, contaminando uma extensa área da Ucrânia, da Bielorrússia e da Rússia. Já em 2011, no Japão, um terremoto seguido de tsunami provocou a perda total de energia da usina de Fukushima, o que impediu o resfriamento dos reatores e levou à fusão do núcleo em três deles. Os dois acidentes são classificados como nível 7 (o mais grave) na escala internacional de eventos nucleares, e ajudam a explicar por que a energia nuclear, apesar de eficiente e pouco poluente no dia a dia, ainda gera tanta desconfiança pública.
Em Chernobyl, mais de 100 mil pessoas precisaram ser evacuadas, incluindo os cerca de 49 mil moradores da cidade vizinha de Pripyat, fundada em 1970 especialmente para abrigar os trabalhadores da usina. Foi estabelecida uma zona de exclusão com raio de 30 km ao redor do reator, hoje com cerca de 2.600 km², praticamente proibida para moradia permanente até os dias de hoje, quatro décadas depois do acidente, um lembrete de como a contaminação radioativa pode inviabilizar um território por muito mais tempo do que qualquer outro tipo de acidente industrial.
O impasse de Angra 3: As obras de Angra 3 começaram ainda nos anos 1980, mas ficaram paralisadas por longos períodos por falta de recursos e problemas de gestão, entre eles um escândalo de corrupção investigado pela Operação Lava Jato. Retomada em 2022, a obra chegou a 66% de conclusão, mas consome cerca de R$ 1 bilhão por ano só em manutenção, mesmo parada. Concluir a usina custaria algo em torno de R$ 24 bilhões, e o governo federal ainda não decidiu se vale mais a pena terminar a obra ou abandoná-la de vez, já que desistir também tem um custo bilionário, entre dívidas e multas contratuais. O caso de Angra 3 virou símbolo de como projetos de infraestrutura de longo prazo podem ficar reféns de instabilidade política e econômica ao longo de décadas.
De onde vem o urânio brasileiro: O Brasil tem uma única mina de urânio em operação, localizada em Caetité, no interior da Bahia, a única mina de urânio de toda a América Latina. Administrada pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que detém o monopólio constitucional da mineração e do ciclo do combustível nuclear no país, a mina produz o concentrado de urânio usado como matéria-prima nas usinas de Angra dos Reis, reduzindo a dependência brasileira de importação desse mineral estratégico. O depósito de Caetité foi descoberto em 1977 e está em exploração desde 1999, e a INB já planeja dobrar sua capacidade de produção de concentrado de urânio, de 400 para 800 toneladas por ano. O potencial do país vai muito além do que já é extraído: o Brasil tem hoje cerca de 277 mil toneladas de reservas conhecidas de urânio, a sétima maior do mundo segundo a Associação Nuclear Mundial (WNA), com estudos geológicos indicando potencial para figurar entre as cinco maiores reservas do planeta.
Mudanças na Matriz Energética Global
Nas últimas décadas, o mundo vem passando por transformações importantes na forma de produzir energia. Dados da Agência Internacional de Energia mostram que, entre 1971 e 2019, a oferta mundial de energia mais que dobrou, e sua composição também mudou: o petróleo, que já foi disparado a fonte mais usada, perdeu participação relativa para o gás natural, que se tornou uma alternativa ao petróleo na geração de eletricidade, trazendo vantagens econômicas e ambientais. Ao mesmo tempo, porém, o uso do carvão mineral também cresceu de forma expressiva em várias partes do mundo, um movimento na contramão do esforço global de transição para fontes menos poluentes.
No setor de transportes, a principal novidade tem sido a tecnologia da célula de combustível: uma bateria que produz eletricidade a partir da reação entre hidrogênio e oxigênio. Carros elétricos com essa tecnologia são mais eficientes que os movidos por motores de combustão interna e emitem apenas vapor-d'água. O problema é que essas baterias dependem de grande quantidade de lítio, e a exploração desse mineral causa altos impactos ambientais, sobretudo nas regiões desérticas da Austrália, do Chile, da Argentina e da China, que detêm as maiores reservas mundiais.
O uso de biocombustíveis também tem se ampliado em todo o mundo. A biomassa é um material orgânico, como lenha, carvão vegetal e resíduos em decomposição, que libera combustíveis. O Brasil é o segundo maior produtor de etanol do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos: juntos, os dois países respondem por cerca de 80% de toda a produção mundial do biocombustível. Em 2024, a produção brasileira somou 36,83 bilhões de litros, recorde histórico, vindos majoritariamente da cana-de-açúcar (29,1 bilhões de litros), mas com uma fatia do milho que já não é pequena e vem crescendo rápido (7,7 bilhões de litros, 32,8% a mais que no ano anterior), mostrando que o etanol brasileiro deixou de depender de uma única matéria-prima. Se por um lado os biocombustíveis ajudam a reduzir as emissões de gases que geram o efeito estufa, por outro contribuem para o desmatamento e para a ocupação de terras agrícolas que poderiam ser usadas na produção de alimentos.
A energia eólica e a energia solar também têm crescido, mas ainda representam uma fatia pequena da matriz energética mundial: somadas, essas fontes não passam de 2% do consumo energético total do planeta. As centrais fotovoltaicas, equipadas com células solares (componentes eletrônicos que transformam a luz do Sol em corrente elétrica), são uma das formas mais promissoras de obtenção de energia solar. O Brasil já tem experiências de peso nesse campo: o município de Oliveira dos Brejinhos, na Bahia, reúne oito usinas solares que somam cerca de 415 MW de potência, entre elas o complexo Sol do Sertão, com mais de 1 milhão de painéis fotovoltaicos instalados numa área superior a mil hectares, capaz de gerar mais de 1.150 GWh de energia por ano quando em operação plena.
QUESTÃO PRÁTICA
Sobre a tecnologia de célula de combustível a hidrogênio nos carros elétricos, marque a alternativa correta:
O Setor Energético Brasileiro
Em 2021, cerca de 18% da energia consumida no Brasil foi importada, um percentual relativamente baixo, que mostra que o país tem baixa dependência externa de energia (bem diferente, por exemplo, do Japão, que importa a maior parte da energia que consome). As importações brasileiras vêm principalmente de gás natural, carvão mineral e óleo diesel. A importação de óleo diesel acontece porque as refinarias brasileiras não conseguem atender a toda a demanda desse combustível usando apenas petróleo nacional.
O Brasil apresenta um equilíbrio relativo entre fontes renováveis e não renováveis quando se considera toda a matriz energética (e não só a elétrica). Em 2022, pouco mais da metade da oferta de energia (52,6%) veio de fontes não renováveis, principalmente hidrocarbonetos como petróleo e gás natural. As fontes renováveis, como o etanol de cana-de-açúcar, a energia hidráulica e a lenha, responderam pelos outros 47,4%. O setor de transportes e o setor de indústrias são os maiores consumidores de energia do país: em 2022, consumiram, respectivamente, 33% e 32% do total.
Olhando com mais detalhe para essa divisão de 2022: dentro da fatia não renovável (52,6%), o petróleo e seus derivados representam a maior parcela (35,7%), seguidos por gás natural, carvão mineral, energia nuclear e outras fontes não renováveis. Já dentro da fatia renovável (47,4%), a biomassa de cana-de-açúcar lidera (15,4%), seguida pela energia hidráulica, pela lenha e carvão vegetal, por outras fontes renováveis e, por fim, pela energia eólica e solar, que, apesar de crescerem rápido nos últimos anos, ainda representam uma fatia pequena da matriz energética total do país (diferente do que ocorre especificamente na matriz elétrica, onde a energia solar já superou a eólica e se tornou a segunda maior fonte, atrás apenas da hidráulica).
Essa configuração é resultado de transformações que vêm ocorrendo há décadas. O crescimento populacional e industrial, somado à expansão das áreas urbanas e agrícolas, aumentou a demanda por energia no Brasil, tornando necessária a ampliação constante do parque gerador. Ao longo do século XX, fontes modernas de energia (carvão mineral, petróleo e força hidráulica) substituíram gradualmente as fontes tradicionais que dominavam o consumo brasileiro no passado, como a lenha e o carvão vegetal.
Como se mede a energia: Comparar fontes de energia tão diferentes exige unidades de medida padronizadas. O joule (J) é a unidade básica de energia do Sistema Internacional de Unidades; como as quantidades de energia de um país inteiro são gigantescas, os relatórios costumam usar o exajoule (1 exajoule equivale a 10¹⁸ joules, um quintilhão). Já para comparar fontes de petróleo, gás e outros combustíveis entre si, é comum usar o tep ("tonelada equivalente de petróleo"), que representa a energia liberada pela queima de uma tonelada de petróleo bruto, ou o Mtep (milhão de tep), usado em gráficos de produção de energia de países inteiros. Para a eletricidade especificamente, a unidade mais comum é o watt e seus múltiplos, como o megawatt (MW, usado para medir a capacidade das usinas citadas nesta aula) e o gigawatt (GW): 1 gigawatt é energia suficiente para abastecer cerca de 500 mil residências, o equivalente ao consumo de aproximadamente 2 milhões de pessoas no Brasil.
Comparação das Fontes de Energia
Hidrelétricas: Fonte renovável e menos poluente, mas com impacto ambiental significativo devido ao alagamento e deslocamento de populações.
Termoelétricas: Dependência de combustíveis fósseis, alta emissão de gases poluentes, mas com vantagem de estar menos dependente de fatores climáticos.
Nucleares: Alta eficiência e baixa emissão de poluentes, mas com riscos elevados e desafios no gerenciamento de resíduos.
Sistema Nacional de Energia Elétrica
Fonte: THÉRY, Hervé; MELLO-THÉRY (2024).
O Brasil possui um sistema de transmissão interligado, o Sistema Interligado Nacional (SIN), que permite a distribuição de energia entre diferentes regiões do país, otimizando o uso das diversas fontes de energia disponíveis. Entre as fontes que complementam as hidrelétricas na matriz elétrica brasileira, destacam-se a solar e a eólica, seguidas do gás natural e do bagaço de cana. O setor industrial é o principal consumidor de eletricidade do país, respondendo por 37,3% de todo o consumo elétrico em 2022.
Esse sistema é fundamental para garantir a estabilidade do fornecimento de energia, especialmente em um país com dimensões continentais como o Brasil.
Desafios atuais:
Segurança energética: Garantir a oferta contínua de energia, especialmente em períodos de seca, quando a capacidade hidrelétrica pode ser reduzida.
O Brasil já viveu na prática o que acontece quando essa segurança falha: a chamada crise do apagão, entre 2001 e 2002. Uma combinação de estiagem prolongada, atraso nas obras de geração e transmissão e falta de planejamento para diversificar a matriz elétrica esvaziou os reservatórios das hidrelétricas a ponto de o governo decretar racionamento obrigatório de energia. A partir de junho de 2001, mais de 32 milhões de residências e também indústrias e comércios de 17 estados, incluindo o Distrito Federal, tiveram que cortar em 20% o consumo de eletricidade, sob pena de multa. O episódio, que só foi superado em março de 2002, ajudou a acelerar investimentos em termelétricas e em outras fontes de energia no país, justamente para evitar que uma dependência tão grande das chuvas pudesse, de novo, apagar as luzes de boa parte do Brasil.
Essa vulnerabilidade da matriz elétrica brasileira às secas está diretamente ligada ao desmatamento da Floresta Amazônica. A floresta funciona como uma imensa bomba de umidade: a evapotranspiração de bilhões de árvores libera vapor d'água na atmosfera, formando os chamados "rios voadores", que carregam chuva para o Centro-Sul do país, região onde estão os principais reservatórios hidrelétricos. Quando a floresta é derrubada, essa quantidade de vapor liberado diminui, o volume de chuvas cai e o nível dos reservatórios baixa, reduzindo a geração de energia hidrelétrica. Foi o que ocorreu em agosto de 2021, quando a falta de chuvas fez as fontes eólica, solar e térmica atingirem níveis recordes de geração para compensar a queda da produção hidrelétrica, evidenciando como um problema de paisagem e cobertura vegetal pode se transformar em um problema de abastecimento elétrico para todo o país.
Sustentabilidade: Equilibrar a necessidade de expansão da capacidade energética com a preservação ambiental e o desenvolvimento sustentável.
Diversificação da matriz: Investir em fontes de energia alternativas, como solar e eólica, para reduzir a dependência de hidrelétricas e termoelétricas: hoje, a energia solar já é a segunda maior fonte da matriz elétrica brasileira, respondendo por cerca de 22% da capacidade instalada do país, à frente da própria eólica, do gás natural e do bagaço de cana. Em 2024, ano de maior expansão da matriz elétrica brasileira desde que a ANEEL começou a medir a série histórica, mais de 91% de toda a potência nova instalada no país veio justamente de usinas solares e eólicas, um sinal de como a expansão dessas duas fontes acelerou nos últimos anos.
Energia geotérmica: Uma fonte ainda pouco explorada no Brasil é a energia geotérmica, obtida a partir do calor armazenado no solo, nas rochas ou na água subterrânea. Diferente de países com atividade vulcânica intensa, o Brasil não tem grande potencial para gerar eletricidade em larga escala a partir dessa fonte, mas pesquisas recentes têm explorado seu uso para climatizar edifícios, aproveitando a troca de calor entre as fundações das construções e o subsolo. Embora tenha impacto pequeno se comparado às hidrelétricas, cada edifício que passa a se climatizar com energia geotérmica reduz sua demanda de eletricidade da rede pública, contribuindo para diversificar o consumo e aliviar a pressão sobre o sistema, especialmente durante períodos de estiagem prolongada.
QUESTÃO PRÁTICA
Sobre a matriz elétrica brasileira em 2022, marque a alternativa correta:
Conclusão
Entender a matriz energética brasileira é crucial para compreender as oportunidades e desafios do desenvolvimento sustentável do país. Com uma matriz predominantemente renovável, o Brasil se destaca no cenário global: poucos países de grande população e território conseguem gerar a maior parte de sua eletricidade sem recorrer a combustíveis fósseis ou à energia nuclear, mas o país enfrenta desafios reais na diversificação de fontes e na garantia de segurança energética para o futuro.
De um lado, o Brasil larga na frente: poucos países grandes têm uma matriz elétrica tão limpa quanto a brasileira, apoiada principalmente em hidrelétricas, com participação crescente de eólica e solar. De outro, essa mesma dependência das águas torna o sistema vulnerável a secas, e, como vimos, o desmatamento da Amazônia não é só um problema para a floresta, mas também para a conta de luz de todo o país. O desafio para as próximas décadas é justamente esse: continuar diversificando a matriz, investindo em eólica, solar e em uma rede de transmissão cada vez mais integrada, sem perder de vista que a maior fonte de energia limpa do Brasil, a força da água, depende diretamente da saúde das florestas e do regime de chuvas que elas ajudam a manter. A crise do apagão de 2001 já mostrou, na prática, o preço de não se preparar para essa vulnerabilidade a tempo, e o desafio, duas décadas depois, é não deixar que a história se repita.
Vale lembrar que toda essa demanda crescente por energia tem uma origem simples: mais gente consumindo mais eletricidade, combustível e calor a cada ano. Na próxima aula, vamos justamente conhecer de perto essa população que move a economia e a demanda energética do país, estudando a transição demográfica brasileira, a estrutura etária e as principais teorias sobre crescimento populacional.
QUESTÃO PRÁTICA
Sobre a situação atual da Usina Angra 3, marque a alternativa correta:
QUESTÃO ABERTA
Um exercício para reforçar alguns conceitos.
Segundo o texto, o que provocou a perda total de energia da usina de Fukushima em 2011, impedindo o resfriamento dos reatores?
Segundo o texto, o que o Sistema Interligado Nacional (SIN) permite fazer com a energia elétrica entre as diferentes regiões do Brasil?
Infográfico - Resumo
Fonte: Organizado e revisado pelo autor.
Não existe pergunta boba! A Ciência é feita de perguntas!
P: Se o Brasil depende tanto de hidrelétricas, por que ainda precisamos de termelétricas, que são mais poluentes e mais caras?
R: Porque a geração hidrelétrica depende do volume de água nos reservatórios, que varia conforme o regime de chuvas. Em anos ou meses de seca, o nível dos reservatórios cai e a capacidade de geração hidrelétrica diminui. As termelétricas funcionam como uma reserva de segurança: entram em operação justamente para compensar essa queda e evitar apagões, mesmo sendo uma opção mais cara e mais poluente.
P: Se os carros elétricos com célula de combustível emitem apenas vapor-d'água, por que essa tecnologia ainda é considerada controversa do ponto de vista ambiental?
R: Porque, embora não poluam durante o uso, essas baterias dependem de lítio, mineral cuja extração causa altos impactos ambientais, especialmente em regiões desérticas da Austrália, do Chile, da Argentina e da China, que concentram as maiores reservas do mundo. Ou seja, o impacto ambiental não desaparece, ele apenas se desloca da cidade, onde o carro roda, para a região onde o lítio é extraído.
P: Por que o desmatamento da Amazônia é considerado uma ameaça à segurança energética do Brasil, e não só um problema ambiental?
R: Porque a floresta amazônica libera grande volume de vapor d'água na atmosfera por evapotranspiração, formando os "rios voadores" que levam chuva até os reservatórios das hidrelétricas do Centro-Sul do país. Com menos floresta, chove menos nessas regiões, os reservatórios recebem menos água e a geração hidrelétrica cai, obrigando o sistema a acionar termelétricas mais caras e poluentes para compensar, como já aconteceu em agosto de 2021.
Questões para o caderno
1. O que é matriz energética e como ela se diferencia da matriz elétrica?
2. Em 2022, qual foi a participação das usinas hidrelétricas na oferta de energia elétrica do Brasil?
3. Por que a geração de energia da Usina de Belo Monte varia tanto ao longo do ano?
4. Como a Usina de Itaipu exemplifica a cooperação internacional?
5. Quais são as vantagens e desvantagens das usinas termoelétricas, e por que elas são acionadas principalmente em períodos de seca?
6. Quais são os riscos associados às usinas nucleares, e como esses riscos são exemplificados pelos acidentes de Chernobyl e Fukushima?
7. Por que a tecnologia de célula de combustível a hidrogênio é considerada, ao mesmo tempo, uma solução e uma fonte de impacto ambiental?
8. Em 2021, qual foi a participação da energia importada na matriz energética brasileira, e de onde ela vem principalmente?
9. O que é o Sistema Interligado Nacional (SIN) e qual é a sua função?
10. Como o desmatamento da Amazônia pode afetar a segurança energética do Brasil?
Antes de finalizar, vamos fazer as questões!