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Objetivo: Compreender os tipos de migração interna no Brasil (pendular, de retorno, espontânea e forçada); entender as causas históricas e atuais do êxodo rural e suas consequências para as cidades; conhecer o conceito de transumância, os critérios de classificação urbano/rural do IBGE e os principais fluxos migratórios internos brasileiros, incluindo os movimentos mais recentes registrados pelo Censo 2022.
Introdução
O Brasil é um país de migrantes. Ao longo do século XX, dezenas de milhões de brasileiros deixaram o campo em direção às cidades. Só na década de 1950, mais de 7 milhões de pessoas saíram do campo. Entre 1960 e 2000, o país saiu de 45% de população urbana para mais de 80%. Hoje, segundo o Censo 2022 do IBGE, 87,4% dos brasileiros (177,5 milhões de pessoas, de um total de 203,1 milhões) vivem em cidades, embora essa urbanização não seja uniforme: chega a 94,4% no Sudeste, mas fica em 77,6% no Nordeste e 78,5% no Norte.
Essa transformação não foi suave. Foi o êxodo rural em massa que criou as favelas de São Paulo e Rio de Janeiro, que encheu as periferias das metrópoles nordestinas e que esvaziou municípios inteiros do interior do Nordeste e do Sudeste. Entender a migração interna é entender a própria história do Brasil urbano. Essa história não parou: ela apenas mudou de direção e de ritmo nas últimas décadas.
Tipos de Migração
Antes de falar dos grandes fluxos brasileiros, é necessário entender como os geógrafos classificam os movimentos populacionais. A primeira grande divisão é entre migrações externas (entre países) e migrações internas (dentro do próprio país). As migrações internacionais foram estudadas em aulas anteriores. Aqui o foco é o movimento dentro do Brasil.
Migração pendular
A migração pendular é o deslocamento diário ou semanal entre municípios para trabalhar ou estudar, sem mudança definitiva de residência. É o caso do morador de Guarulhos que trabalha em São Paulo, ou do morador de Niterói que trabalha no Rio. Esse tipo de migração é muito intenso nas regiões metropolitanas e revela a desigualdade espacial: as pessoas moram na periferia mais barata mas precisam ir ao centro para trabalhar.
Migração de retorno
A migração de retorno ocorre quando migrantes voltam para sua região de origem. É o caso do nordestino que passou 30 anos em São Paulo, criou os filhos, e voltou para o interior do Ceará na aposentadoria. Ou dos que retornaram durante a pandemia de 2020 ao perder o emprego nas metrópoles. O Censo 2022 mostrou crescimento significativo desse fluxo de retorno ao Nordeste.
Migração forçada x espontânea
Quanto à causa, a migração pode ser forçada (quando as pessoas não têm escolha: guerra, seca, catástrofe) ou espontânea (quando há opção real de permanecer, mas as perspectivas em outro lugar são melhores). Na prática, essa fronteira é porosa: um trabalhador rural que deixa o Nordeste pela seca crônica está sendo "expulso" pela miséria, mesmo que não exista obrigação formal de partir.
Fatores de expulsão e atração
Os geógrafos usam a teoria dos fatores de expulsão e atração (push and pull) para explicar a migração. De um lado, as condições ruins na origem expulsam: seca, falta de emprego, violência. Do outro, as condições melhores no destino atraem: empregos, salários, infraestrutura. O migrante tende a se deslocar quando a soma dos fatores de atração supera os de expulsão, mais o custo e o risco da própria migração.
QUESTÃO PRÁTICA
João mora em Taboão da Serra (SP) e acorda todo dia às 5h da manhã para pegar dois ônibus até São Paulo, onde trabalha como técnico de manutenção. Volta sempre à noite para casa. Qual tipo de migração descreve o movimento de João?
Êxodo Rural: o Grande Movimento do Século XX
O êxodo rural é o deslocamento massivo do campo para as cidades. No Brasil, esse fenômeno ganhou escala a partir dos anos 1950, quando a industrialização do Sudeste (especialmente de São Paulo) criou uma demanda enorme por mão de obra barata, ao mesmo tempo em que a modernização mecanizada do campo reduzia as vagas no setor agrícola e as secas periódicas expulsavam populações do Nordeste. A escala do fenômeno é impressionante: estima-se que, apenas entre 1960 e 1980, cerca de 43 milhões de brasileiros tenham saído do campo em direção às cidades.
Causas do êxodo rural no Brasil
Do lado da expulsão: a seca crônica no Nordeste, a concentração fundiária (a terra pertence a poucos, restando pouco espaço para o pequeno agricultor), a mecanização agrícola que substitui trabalhadores rurais por máquinas, e a falta de acesso a saúde e educação no interior. Do lado da atração: a oferta de empregos industriais e de serviços nas metrópoles, salários acima dos rurais, e a ilusão de acesso a bens de consumo, lazer e infraestrutura urbana. O mercado urbano diversificado ainda oferecia uma porta de entrada mesmo para quem não tinha qualificação: o trabalho informal, sem vínculo empregatício, absorveu boa parte desses migrantes na construção civil e nos serviços.
Para onde foram os migrantes?
O principal destino histórico foi o estado de São Paulo, especialmente a Grande São Paulo, que absorveu fluxos gigantescos do Nordeste, de Minas Gerais e do interior paulista. Entre 1940 e 1980, estima-se que quase 13 milhões de pessoas tenham deixado o Nordeste, motivadas pela decadência agrícola nas áreas de clima semiárido e pelo baixo nível de desenvolvimento industrial da região. A maioria enxergava o Sudeste como a oportunidade mais atrativa, mas outras regiões, como Norte e Centro-Oeste, também se tornaram destino desses migrantes. O Paraná também foi destino importante nas décadas de 1950 e 1960, durante a frente pioneira de colonização agrícola. Depois, com a expansão da agricultura mecanizada para o Centro-Oeste (a partir dos anos 1970 e 1980), novos fluxos migratórios se dirigiram ao Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul.
A chegada em massa de nordestinos às grandes cidades também gerou trocas culturais duradouras. Em São Paulo, por exemplo, a comunidade nordestina fundou em 1991 o Centro de Tradições Nordestinas, um espaço de reunião onde até hoje são realizadas atividades culturais e sociais de apoio às milhares de pessoas com raízes no Nordeste que vivem na cidade. A migração não é só deslocamento de mão de obra: é também deslocamento de identidade e cultura.
Consequências nas cidades
A chegada em massa de migrantes nas metrópoles não foi acompanhada de infraestrutura suficiente. O resultado foram as favelas e as periferias precárias: sem planejamento, sem saneamento, sem transporte de qualidade. A explosão demográfica das metrópoles gerou o que os geógrafos chamam de metropolização: o crescimento acelerado das grandes cidades como polos de atração regional e nacional. Esse legado ainda pesa hoje: segundo a Fundação João Pinheiro, o déficit habitacional brasileiro chegou a 5,77 milhões de domicílios em 2024, o menor patamar da série histórica após dois anos seguidos de queda, mas ainda concentrado sobretudo nas famílias de baixa renda das regiões metropolitanas que mais receberam migrantes ao longo do século XX. A maior parte desse déficit hoje não é mais "falta de casas" no sentido literal, e sim o chamado ônus excessivo com aluguel: famílias urbanas de baixa renda que gastam mais de 30% do que ganham só para pagar aluguel.
Transumância
Ao lado do êxodo rural, existe outro tipo de movimento populacional bem diferente: a transumância. Trata-se de um movimento sazonal de populações e rebanhos em busca de pastagens ou água, de acordo com as estações do ano.
No Brasil, a transumância é praticada principalmente em duas regiões:
No Nordeste semiárido, durante a estação seca, pastores levam seus rebanhos de cabras e ovelhas das áreas mais secas da caatinga para as serras úmidas (como a Chapada do Araripe ou a Serra do Baturité), onde ainda há pastagem. Com o retorno das chuvas, voltam às áreas originais. É uma prática milenar de adaptação ao clima semiárido.
No Sul do Brasil, especialmente nos planaltos catarinense e gaúcho, criadores levam o gado dos campos de altitude (mais frios no inverno) para os vales mais aquecidos, retornando no verão. É uma prática que remonta aos tropeiros do século XIX.
A transumância é diferente do êxodo rural em um aspecto fundamental: ela é cíclica. O pastor vai e volta conforme o calendário natural. Não há abandono definitivo da origem.
QUESTÃO PRÁTICA
Um pesquisador afirma que o êxodo rural brasileiro foi causado principalmente pela industrialização do Sudeste. Um segundo pesquisador diz que foi causado pela miséria e pela seca no Nordeste. Qual afirmação está mais correta geograficamente?
Como o Brasil Mede o Urbano
Para entender os fluxos migratórios, também é preciso entender como o Brasil decide o que é "cidade" e o que é "campo", e essa definição é menos óbvia do que parece. O Censo de 2010 já mostrava a escala da urbanização brasileira: quase 161 milhões de pessoas, mais de 84% da população, viviam em áreas urbanas. Historicamente, essa urbanização se concentrou perto do litoral: os 443 municípios costeiros do Brasil, que correspondem a apenas 5% do território nacional, concentravam 19% de toda a área urbanizada do país em 2019.
Um detalhe importante para o ENEM: diferente de muitos países, o Brasil não classifica um espaço como urbano com base em critérios funcionais, como densidade demográfica ou disponibilidade de infraestrutura (escolas, hospitais, comércio). Pela legislação brasileira, população urbana é aquela que reside na sede do município ou do distrito, independentemente de quão pequena ou pouco povoada essa sede seja. Isso gera situações curiosas: municípios muito pouco populosos, como Borá (SP), um dos menos povoados do país, têm toda a sua população classificada como urbana, mesmo com características bem rurais. Se o Brasil adotasse critérios de densidade como outros países, boa parte dessa população passaria a ser considerada rural, o que mudaria completamente as estatísticas de urbanização do país.
Por isso, para o Censo 2022, o IBGE passou a usar também os conceitos de arranjo populacional e concentração urbana, que ajudam a enxergar a dinâmica real da população sem depender só da divisão entre "urbano" e "rural" de cada município isolado. O resultado do Censo 2022 mostra um contraste grande: 45% dos municípios brasileiros têm menos de 10 mil habitantes, mas juntos reúnem apenas 6,3% da população do país. Do outro lado, as concentrações urbanas abrigam 61% da população brasileira, mais de 124 milhões de pessoas.
Essa hierarquia entre cidades também ajuda a explicar os próprios fluxos migratórios estudados nesta aula. Segundo o IBGE, o Brasil tem 862 cidades que funcionam como centros de comando regional, cuja influência extrapola os limites do próprio território, mas apenas 15 delas são classificadas como metrópoles: grandes centros urbanos cuja influência se estende por vastas áreas do país, caso de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. É justamente por concentrarem empregos, serviços e oportunidades que essas metrópoles historicamente atraíram (e ainda atraem, embora com menos intensidade do que no século XX) os maiores fluxos migratórios internos do Brasil. Essa hierarquia urbana ajuda a explicar, por exemplo, por que uma cidade média como Ribeirão Preto (SP) exerce forte atração sobre os municípios ao seu redor, enquanto um centro de comando regional menor, como Juazeiro do Norte (CE), organiza os fluxos de uma área bem mais restrita: quanto maior o nível hierárquico de uma cidade, maior costuma ser o raio geográfico de sua influência sobre os fluxos migratórios, o comércio e os serviços de toda a região ao seu redor.
QUESTÃO PRÁTICA
O Brasil define como "urbana" toda a população residente na sede de um município, mesmo que essa sede tenha poucos moradores e características tipicamente rurais. Qual é a principal consequência geográfica dessa metodologia?
Os Novos Fluxos Migratórios Internos
O mapa da migração interna brasileira mudou bastante nas últimas décadas. O fluxo Nordeste-Sudeste ainda existe, mas não é mais dominante como nos anos 1970. Dados de 2013 do IBGE mostram que o Sudeste continua sendo o principal destino não só de nordestinos (67,5% dos que migram do Nordeste vão para lá), mas também da população que deixa o Centro-Oeste (quase metade) e da maioria das pessoas nascidas em outros países.
Mas há uma reviravolta importante, confirmada pelos dados do Censo 2022 divulgados em 2025: entre 2017 e 2022, os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro tiveram saldo migratório negativo pela primeira vez desde que o IBGE começou a fazer esse tipo de comparação, em 1991, ou seja, mais gente saiu desses estados do que entrou neles. São Paulo recebeu 736,4 mil migrantes no período, mas 826 mil pessoas o deixaram, um saldo negativo de 89,6 mil. O Rio de Janeiro teve resultado parecido: 167,2 mil pessoas chegaram, contra 332,6 mil que saíram, saldo negativo de 165,4 mil. O custo de vida elevado, o trânsito, a violência urbana e a busca por qualidade de vida levaram parte da população a deixar essas duas grandes metrópoles rumo a cidades menores, sem que isso signifique que São Paulo ou o Rio estejam "esvaziando": o crescimento populacional segue positivo, só que puxado mais pelos nascimentos do que pela chegada de migrantes.
Esse movimento se conecta a outro fenômeno confirmado pelo Censo 2022: o crescimento das cidades médias (entre 100 mil e 500 mil habitantes). Dos mais de 12 milhões de novos habitantes que o Brasil ganhou entre 2010 e 2022, 8,3 milhões, ou seja, 67,5% do crescimento total, foram parar justamente em cidades dessa faixa de tamanho, que passaram de 25,4% para quase 28% da população brasileira no período. Já as cidades grandes, com mais de 500 mil habitantes, tiveram participação relativa estável, passando de 29,3% para 29% do total, mesmo tendo ganhado 3 milhões de habitantes em números absolutos: cresceram, mas num ritmo mais lento do que as cidades médias. Esse fenômeno é particularmente intenso no Centro-Oeste e, em menor grau, em municípios do Matopiba, impulsionado pela expansão do agronegócio. Já perto das grandes metrópoles do Sudeste, o crescimento das cidades médias vizinhas está ligado ao aumento do preço dos imóveis e dos serviços nas capitais, que empurra parte da população para municípios próximos com boa infraestrutura urbana, mas custo de vida menor.
O Centro-Oeste se tornou um polo de atração importante desde os anos 1980, com a expansão do agronegócio no Cerrado. Estados como Mato Grosso, Goiás e o Distrito Federal absorveram fluxos significativos de migrantes do Sul, do Sudeste e do Nordeste.
Vale registrar que a migração interna não é o único movimento populacional em curso no Brasil: o Censo 2022 mostrou que a imigração internacional também voltou a crescer, revertendo uma tendência de queda que vinha desde 1960. O número de estrangeiros e brasileiros naturalizados vivendo no país saltou de 592 mil em 2010 para 1 milhão em 2022, alta de 70,3%, puxado sobretudo pela chegada de venezuelanos (272 mil), que impulsionaram o crescimento da população latino-americana no Brasil de 183 mil para 646 mil pessoas no mesmo período. É um lembrete de que os fluxos internos estudados nesta aula fazem parte de um quadro migratório mais amplo, que inclui também quem chega de fora do país.
A Amazônia Legal, especialmente o Pará e Rondônia, também foi destino de fluxos migratórios ligados à colonização agrícola, ao extrativismo e a grandes obras de infraestrutura como a Hidrelétrica de Belo Monte. Rondônia foi o caso mais extremo: incentivada por políticas públicas de colonização a partir dos anos 1970, a migração para o estado teve seu maior pico nos anos 1980, com saldos migratórios líquidos de 100 mil a 300 mil pessoas por ano em alguns períodos. O resultado ainda é visível hoje: das pessoas que vivem em Rondônia, 648 mil nasceram em outro estado, sendo 25% vindas de outros estados da própria Amazônia e 23% do Paraná, reflexo direto das frentes pioneiras de colonização agrícola que também levaram paranaenses para o Centro-Oeste na mesma época. O Pará, por sua vez, é hoje o estado mais populoso da Amazônia Legal, com 7,5 milhões de habitantes, resultado tanto da migração quanto de taxas de fecundidade historicamente mais altas do que a média nacional. Esses fluxos geraram conflitos fundiários e pressões sobre a floresta que seguem entre os principais desafios ambientais do país.
O fenômeno mais recente documentado pelo Censo 2022 é o retorno ao Nordeste. O Nordeste, historicamente exportador de migrantes, continua tendo saldo migratório negativo: entre 2017 e 2022, a região recebeu cerca de 746 mil pessoas vindas de outras regiões, mas perdeu 995 mil para fora, um saldo negativo de aproximadamente 249 mil pessoas. O detalhe importante é a tendência: esse saldo negativo era de 701,1 mil pessoas entre 2005 e 2010, ou seja, caiu para menos de um terço do que era quinze anos antes, um sinal claro de que a saída de nordestinos perdeu força e o retorno ganhou peso. Ainda hoje, 54,2% dos 19,2 milhões de brasileiros que vivem fora da região onde nasceram são naturais do Nordeste, e 65,5% deles moram no Sudeste, mas o ritmo de saída, impulsionado por fatores como o aposentado que retorna com a renda da previdência, o jovem que volta após a pandemia e o crescimento do setor de serviços em cidades como Fortaleza, Recife e Salvador, vem diminuindo de forma consistente.
Resumo
Tipos de migração: A migração interna pode ser pendular (deslocamento diário sem mudar de residência), de retorno (volta à origem após período fora), espontânea ou forçada. Os fatores de expulsão (push) e atração (pull) explicam a decisão de migrar.
Êxodo rural: Movimento massivo campo-cidade, com cerca de 43 milhões de brasileiros deixando o campo entre 1960 e 1980 (13 milhões só do Nordeste, entre 1940 e 1980), causado por secas, concentração fundiária, mecanização agrícola (expulsão) e industrialização do Sudeste (atração). Gerou metropolização, periferias precárias e também novas formas de organização cultural, como o Centro de Tradições Nordestinas em São Paulo.
Como o Brasil mede o urbano: Diferente de outros países, o Brasil classifica como urbana toda a sede de município, sem critério de densidade, o que pode superestimar a urbanização. O Censo 2022 trouxe os conceitos de arranjo populacional e concentração urbana: 61% da população (124 milhões) vive em concentrações urbanas, enquanto 45% dos municípios (com menos de 10 mil habitantes) reúnem só 6,3% da população. Das 862 cidades brasileiras que funcionam como centros de comando regional, apenas 15 são metrópoles, e é nelas que historicamente se concentraram os maiores fluxos migratórios do país.
Transumância: Movimento sazonal e cíclico de pastores e rebanhos, praticado no Nordeste semiárido e no Sul. Difere do êxodo rural por não ser definitivo.
Fluxos atuais: São Paulo e Rio de Janeiro tiveram saldo migratório negativo entre 2017 e 2022, pela primeira vez desde 1991; crescimento acelerado das cidades médias; migração para o Centro-Oeste (agronegócio) e Amazônia (colonização); e queda acentuada no saldo negativo do Nordeste (de 701,1 mil para 249 mil entre os períodos 2005-2010 e 2017-2022), sinal do crescimento do retorno documentado pelo Censo 2022.
QUESTÃO ABERTA
Um exercício para reforçar alguns conceitos.
Segundo o texto, por que o critério brasileiro de "urbano" pode superestimar o tamanho real da população urbana do país?
Segundo o texto, o que diferencia a transumância do êxodo rural?
Infográfico - Resumo
Fonte: Organizado e revisado pelo autor.
Não existe pergunta boba! A Ciência é feita de perguntas!
P: O êxodo rural acabou no Brasil?
R: Não completamente, mas perdeu muito a intensidade. Nos anos 1970, o Brasil urbanizava a um ritmo de quase 1 ponto percentual por ano. Hoje, esse ritmo é muito menor: a população rural ainda decresce, mas o Brasil já é tão urbanizado (87,7%) que o "reservatório" de população rural potencialmente migrável é bem menor do que antes. O que persiste é o êxodo rural em áreas específicas, como municípios do interior do Nordeste ou zonas afetadas por crise agrícola. Mas o grande êxodo de massa do século XX já passou.
P: Por que tanta gente volta para o Nordeste se ele era tão pobre?
R: Vários fatores explicam esse movimento. Primeiro, o próprio Nordeste mudou: programas como o Bolsa Família, a expansão do crédito rural, a universalização da previdência rural e o crescimento de cidades médias como Campina Grande, Juazeiro do Norte e Petrolina melhoraram as condições locais. Segundo, o custo de vida nas metrópoles do Sudeste se tornou proibitivo para aposentados que recebem o mínimo. Terceiro, após a pandemia de 2020, muitos perderam empregos informais nas metrópoles e retornaram sem perspectiva de recolocação rápida. É importante notar que o Nordeste, mesmo com esse retorno mais forte, ainda tem saldo migratório levemente negativo, cerca de 249 mil pessoas a menos entre 2017 e 2022, mas esse número é bem menor do que os 701 mil registrados entre 2005 e 2010, o que mostra a tendência: o Nordeste continua perdendo um pouco mais de gente do que ganha, mas cada vez menos. O retorno não é necessariamente sinal de fracasso: em muitos casos, é uma escolha racional de quem tem renda fixa e prefere viver onde o dinheiro rende mais.
P: Como assim São Paulo "perdeu" população para outras cidades? Ela não é a maior metrópole do Brasil?
R: As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo. São Paulo continua sendo o estado mais populoso do Brasil em números absolutos, mas entre 2017 e 2022 mais gente saiu do estado (826 mil pessoas) do que entrou nele (736,4 mil), um saldo migratório negativo de 89,6 mil pessoas, o primeiro desde que o IBGE passou a medir esse indicador, em 1991. Isso não significa que São Paulo esteja "esvaziando": o crescimento populacional do estado continua positivo, só que puxado mais pelos próprios nascimentos do que pela chegada de migrantes. Quem sai de São Paulo, em geral, vai para cidades médias vizinhas, fugindo do custo de vida alto, do trânsito e da violência urbana, mas sem se afastar demais da região metropolitana.
P: Transumância ainda existe? Parece coisa do passado.
R: Sim, ainda existe, embora seja muito menos visível do que o êxodo rural. No semiárido nordestino, a transumância persiste como estratégia de sobrevivência dos pequenos criadores de caprinos e ovinos, especialmente em Pernambuco, Ceará e Paraíba. No Sul, a prática é menor e mais mecanizada. Para o vestibular e ENEM, o ponto essencial é saber distinguir a transumância (movimento cíclico, sazonal, sem abandono da origem) do êxodo rural (movimento definitivo, campo-cidade). Essa distinção aparece com frequência em questões de múltipla escolha.
Hora de usar o que você aprendeu.
Mapeando a migração na sua própria história
Atividade individual
Pesquise na sua família ou na história do seu município e responda em 15 a 20 linhas:
1. Alguém da sua família migrou internamente? De onde veio e para onde foi? Quais foram os fatores de expulsão e de atração?
2. Se não houver histórico familiar, pesquise: qual é o principal fluxo migratório que formou a população do seu município? O município é receptor ou emissor de migrantes?
3. Existe migração pendular significativa na sua região? Quem faz esse trajeto diário e por quê?
Dica: o IBGE tem uma ferramenta chamada "Cidades@" (cidades.ibge.gov.br) com histórico demográfico de todos os municípios brasileiros, incluindo dados de migração do Censo 2022.
Êxodo Urbano: um Fenômeno Seletivo
Nos últimos anos, ganhou destaque na mídia a expressão êxodo urbano, o suposto movimento inverso ao êxodo rural: pessoas deixando as grandes cidades em direção a municípios menores ou áreas rurais.
Geógrafos apontam, porém, que esse fenômeno costuma ser exagerado pela mídia. Em muitos casos, o que se chama de êxodo urbano é, na verdade, a aquisição de uma segunda residência por uma pequena fração da elite econômica, ou a mudança de trabalhadores com renda elevada e estabilidade no emprego, muitas vezes em regime de trabalho remoto, para cidades do interior, onde reproduzem, em condomínios fechados e bairros planejados, o mesmo padrão de vida das metrópoles.
Essa dinâmica é bem diferente do êxodo rural do século XX, que foi um movimento de massa envolvendo milhões de trabalhadores pobres expulsos do campo pela seca, pela concentração fundiária e pela mecanização agrícola. O êxodo urbano contemporâneo, ao contrário, é um deslocamento seletivo e voluntário, possibilitado por privilégios econômicos: só migra quem tem renda suficiente para sustentar essa escolha, o que o torna um fenômeno de escala muito menor do que a expressão sugere. É bem diferente, inclusive, do saldo migratório negativo real e mensurável que São Paulo e o Rio de Janeiro registraram entre 2017 e 2022, puxado majoritariamente pelo crescimento das cidades médias vizinhas, não por uma "fuga" romantizada da cidade grande.
Com isso, fechamos o bloco de aulas sobre população: taxas demográficas, transição demográfica, estrutura etária, atividades econômicas e, agora, migrações. Na próxima aula, vamos revisar tudo o que foi estudado desde o início deste módulo, reunindo os principais conceitos e dados das aulas 20 a 25 antes de seguirmos adiante.
Questões para responder no caderno:
1. O que é migração interna? Cite dois exemplos típicos do Brasil, incluindo a migração pendular.
2. O que é migração de retorno? Quais fatores estimularam o retorno ao Nordeste documentado pelo Censo 2022?
3. Diferencie migração forçada de migração espontânea. O êxodo rural nordestino se encaixa em qual categoria, e por que a resposta é mais complexa do que parece?
4. O que são fatores de expulsão (push) e de atração (pull)? Aplique essa teoria para explicar o êxodo rural brasileiro do século XX.
5. Quais foram as principais causas históricas do êxodo rural no Brasil? Cite pelo menos três fatores.
6. Por que o critério brasileiro de classificação urbano/rural (sede de município) é diferente do usado por outros países? Que problema isso pode causar em comparações internacionais?
7. O que são arranjo populacional e concentração urbana? O que os dados do Censo 2022 revelam sobre a distribuição da população brasileira entre municípios pequenos e grandes concentrações urbanas?
8. O que é transumância? Por que ela é diferente do êxodo rural?
9. Como São Paulo e o Rio de Janeiro podem ter tido saldo migratório negativo entre 2017 e 2022 mesmo sendo os estados mais populosos do país? O que isso tem a ver com o crescimento das cidades médias?
10. O que é êxodo urbano e por que geógrafos consideram esse termo, muitas vezes, exagerado pela mídia?
Antes de finalizar, vamos fazer as questões!