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Objetivo: Compreender as principais fontes de energia renovável (solar, eólica, biomassa, hidrogênio verde) e os biocombustíveis brasileiros (Proálcool, etanol, biodiesel e bioenergia), suas vantagens e problemas ambientais; analisar a matriz energética brasileira e suas contradições; entender o que é transição energética, quem ganha e quem perde nesse processo, e como ele se conecta a disputas geopolíticas globais, como a dependência de gás russo na Europa e o domínio chinês da produção de painéis solares.
De onde vem a energia que você usa?
Quando você liga a televisão, carrega o celular ou acende a luz do seu quarto, de onde vem essa energia? Você sabe se a sua cidade é abastecida por uma usina hidrelétrica, por parques eólicos ou por painéis solares? Já ouviu falar em apagão? Já a conta de luz em casa ficou mais cara em algum período de seca?
E no mundo: você sabe por que a Europa entrou em crise de energia em 2022 quando a Rússia invadiu a Ucrânia? Por que certos países brigam por campos de petróleo e por minerais como o lítio? Por que a China domina a produção de painéis solares? Guarde essas perguntas: elas voltam mais à frente na aula, com respostas baseadas em dados reais.
Anote no caderno: Você sabe de onde vem a energia elétrica da sua casa? Você acha que o Brasil vai conseguir abastecer sua população sem queimar combustíveis fósseis? Quais são os desafios? Guarde essa resposta para comparar com o que você vai aprender até o final da aula.
O problema que esta aula vai ajudar a entender
A humanidade queima combustíveis fósseis (petróleo, carvão, gás natural) desde a Revolução Industrial, e isso aqueceu o planeta em 1,2 grau Celsius em média. O Acordo de Paris (2015) estabeleceu a meta de limitar o aquecimento a 1,5 grau, o que exige uma transformação radical na forma como produzimos e consumimos energia.
O Brasil está numa posição privilegiada: tem uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo. Em 2024, 88,2% da eletricidade gerada no país veio de fontes renováveis, recorde histórico, segundo o Balanço Energético Nacional. Mas ainda depende do petróleo para o transporte e do gás para a indústria. A pergunta desta aula é: qual é o verdadeiro papel do Brasil na transição energética global, quem se beneficia e quem paga o preço das escolhas energéticas que fazemos? Essa pergunta vale tanto para o Brasil quanto para o resto do mundo, já que a corrida por energia limpa está redesenhando alianças, disputas comerciais e a própria geografia da produção industrial em escala global.
As principais fontes de energia renovável
A energia solar é obtida por painéis fotovoltaicos que convertem a luz do sol em eletricidade. O Brasil vive um boom solar: encerrou 2024 com cerca de 66 GW de capacidade instalada acumulada, foi o 4º país que mais adicionou energia solar nova naquele ano (atrás só de China, Estados Unidos e Índia) e ocupa a 6ª posição mundial em capacidade acumulada. O Nordeste, especialmente a Bahia e o Piauí, concentra os maiores parques solares centralizados do país, embora boa parte da capacidade instalada esteja espalhada em telhados residenciais e comerciais por todo o Brasil. Uma das grandes vantagens é a geração distribuída: um conjunto de painéis no telhado de uma casa pode abastecer a residência e ainda vender o excedente para a rede elétrica. O setor também virou uma fonte relevante de emprego: só em 2024, a energia solar gerou 323,8 mil postos de trabalho no Brasil, o terceiro país que mais empregou nesse setor no mundo naquele ano, à frente inclusive dos Estados Unidos.
A energia eólica é gerada por aerogeradores. O Brasil é um dos maiores produtores eólicos do mundo, especialmente no Nordeste, onde os ventos alísios são constantes e previsíveis. Em 2024, a eólica já respondia por cerca de 16% da capacidade instalada do país, e eólica e solar juntas somaram quase 24% de toda a eletricidade gerada no Brasil. O Rio Grande do Norte é o estado com maior capacidade eólica instalada, concentrando cerca de 31% de toda a potência eólica do país; Bahia e Rio Grande do Norte juntos respondem por 64% do total.
A biomassa é a matéria-prima por trás dos biocombustíveis: combustíveis líquidos produzidos a partir de plantas ou de gordura animal, usados para substituir total ou parcialmente a gasolina e o diesel derivados do petróleo. Engloba a cana-de-açúcar (etanol), o bagaço da cana (eletricidade), resíduos florestais e biogás. O Brasil é o maior exportador mundial de etanol de cana e um dos maiores produtores de biodiesel. Em 2024, o etanol (somando anidro e hidratado) substituiu 45,6% de toda a gasolina que seria consumida no país, embora apenas cerca de 30% dos carros flex tenham realmente abastecido com etanol puro naquele ano, a maioria optando pela gasolina quando o preço do etanol não compensa. O setor sucroenergético gera emprego e renda, mas levanta questões sobre uso da terra: plantações de cana ocupam grandes áreas que poderiam ser usadas para alimentos.
Proálcool: a origem do etanol brasileiro
Essa força do etanol no Brasil não é acidente: tem uma origem histórica bem definida. Em 1973, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) reduziu a produção e disparou o preço do barril de petróleo no mercado internacional, o chamado primeiro choque do petróleo. Como o Brasil da época importava a maior parte do petróleo que consumia, o governo militar criou, em 14 de novembro de 1975, o Proálcool (Programa Nacional do Álcool), com o objetivo de reduzir a dependência do petróleo estrangeiro incentivando a produção de etanol e a fabricação de carros movidos a álcool. O programa funcionou: entre 1975 e 2000, cerca de 5,6 milhões de veículos a álcool foram fabricados no país, e a produção de etanol saltou de 600 milhões de litros por ano no início do programa para bilhões de litros poucos anos depois. O Proálcool é considerado a base histórica da liderança brasileira em etanol até hoje, décadas antes de o mundo começar a falar em "transição energética".
O biodiesel é outro biocombustível estratégico: obtido de óleos vegetais (principalmente soja) ou gordura animal, é misturado obrigatoriamente ao diesel comum por lei. Essa mistura mínima vem subindo com o tempo: era de 14% em 2024, passou a 15% em agosto de 2025, e a Lei do Combustível do Futuro prevê que chegue a 20% até 2030. Cada aumento na mistura reduz a importação de diesel fóssil, mas também levanta debate: boa parte do biodiesel brasileiro vem da soja, o que reacende a discussão sobre uso da terra e preço dos alimentos, já vista com o etanol de cana.
O hidrogênio verde é a nova fronteira energética: produzido com eletricidade renovável, ao ser queimado emite apenas vapor d'água. O Brasil quer ser um grande exportador de hidrogênio verde, aproveitando seu potencial solar e eólico, especialmente no Nordeste. O Porto do Pecém, no Ceará, já é polo de projetos nessa área, reunindo diversos memorandos de entendimento assinados com empresas internacionais interessadas em instalar plantas de eletrólise na região e exportar o hidrogênio, ou seus derivados como a amônia verde, para clientes na Europa e na Ásia.
Matriz elétrica brasileira em 2023. Fonte: ONS/ANEEL.
Eólica offshore: a nova fronteira no mar
A maior parte dos parques eólicos brasileiros fica em terra firme (onshore), mas o país começa a avançar sobre uma nova fronteira: a eólica offshore, com turbinas instaladas no mar. Os ventos marítimos sopram mais forte e de forma mais constante que os terrestres, permitindo turbinas maiores e mais produtivas. O Brasil tem dezenas de projetos protocolados no litoral do Ceará, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro, mas o setor ainda espera a aprovação de um marco regulatório definitivo no Congresso Nacional para sair do papel em escala relevante.
QUESTÃO PRÁTICA
O Brasil tem quase 90% de sua matriz elétrica proveniente de fontes renováveis, sendo a hidroeletricidade a principal. No entanto, em anos de seca severa, o país enfrenta risco de apagão e aumento das tarifas de energia. Qual contradição esse fato revela sobre a matriz energética brasileira?
Transição energética: quem ganha e quem perde
A transição energética não é apenas uma questão tecnológica: é um processo político e econômico que redistribui o poder entre países e setores. Países que dependem da exportação de petróleo (Arábia Saudita, Rússia, Venezuela) perdem influência quando o mundo abandona os combustíveis fósseis. Países com abundância de sol, vento e minerais críticos (lítio, cobalto, terras raras) podem ganhar posição na nova ordem energética.
O Brasil está bem posicionado na transição: tem solar, eólica, hidro, biomassa e reservas de lítio (essencial para as baterias dos carros elétricos) em Minas Gerais. Mas há contradições: o Brasil também é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, com o pré-sal. Como conciliar a exploração de petróleo com os compromissos climáticos? Esse debate está no centro da política energética brasileira.
Minerais críticos: a nova corrida
As energias renováveis não são "gratuitas" em termos de materiais. Um painel solar precisa de silício, prata e outros minerais. Uma bateria de carro elétrico precisa de lítio, cobalto e manganês. Uma turbina eólica offshore usa quantidades enormes de aço e terras raras. Isso criou uma nova geopolítica dos minerais críticos, com disputas por reservas de lítio na América do Sul (triângulo do lítio: Argentina, Bolívia e Chile, que juntos concentram entre 60% e 85% das reservas de lítio mais fáceis de extrair no planeta, segundo a metodologia usada) e de cobalto no Congo: a República Democrática do Congo sozinha responde por cerca de 60% da produção mundial desse metal, essencial para baterias, e parte significativa da extração ainda ocorre de forma artesanal e informal, numa região onde organizações internacionais estimam existir cerca de 200 mil garimpeiros, dos quais até 40 mil seriam crianças.
A China domina a cadeia de processamento de quase todos os minerais críticos: mesmo que o lítio seja extraído no Chile ou no Congo, é processado majoritariamente na China antes de virar bateria. Isso cria uma dependência geopolítica que preocupa Europa e Estados Unidos.
Distribuição mundial das reservas de lítio, cobalto e terras raras: minerais essenciais para a transição energética. Fonte: USGS, 2023.
Por que a China domina os painéis solares
A mesma lógica se repete na fabricação dos próprios painéis solares. A China concentra mais de 80% da capacidade mundial de fabricação de painéis fotovoltaicos, e nas etapas mais estratégicas dessa cadeia (o polissilício, matéria-prima das células solares) essa fatia passa de 95%. O país investiu pesado nessa indústria por décadas, construiu escala gigantesca de produção e derrubou os custos globais dos painéis, o que ajudou a barateá-los para o mundo todo, inclusive para o Brasil. Mas também significa que praticamente qualquer país que queira instalar energia solar hoje depende, direta ou indiretamente, de equipamentos fabricados na China. Preocupados com essa dependência, Estados Unidos e União Europeia passaram a reagir: a partir de janeiro de 2025, os americanos elevaram para 50% a tarifa sobre polissilício, wafers e outros insumos solares chineses, numa tentativa de reconstruir uma indústria solar própria, enquanto a Europa debate suas próprias barreiras comerciais diante de módulos chineses ainda bem mais baratos que os fabricados em solo europeu. É outro capítulo da mesma disputa geopolítica: o mundo quer a energia limpa que a China sabe produzir com mais eficiência, mas cada vez menos países querem depender dela para consegui-la. A resposta chinesa a essas tarifas mostra como a geopolítica da energia se move rápido: em vez de simplesmente pagar a taxa extra para vender aos americanos e europeus, empresas chinesas passaram a transferir parte da fabricação de painéis para países do Sudeste Asiático, como Vietnã, Malásia e Camboja, de onde os produtos chegam aos mercados ocidentais sem carregar o selo "made in China" nem a tarifa que vem junto dele. Para o Brasil, que não impõe barreiras equivalentes e depende quase inteiramente de equipamentos importados para sua expansão solar, esse jogo de tarifas entre as grandes potências tem um efeito indireto: pode significar acesso a painéis chineses mais baratos, desviados dos mercados que fecharam suas portas, mas também reforça a dependência externa numa cadeia produtiva que o país ainda não decidiu se quer, ou consegue, internalizar.
A guerra na Ucrânia e a crise de energia na Europa
Em 2022, a invasão russa da Ucrânia expôs a dependência energética europeia de forma dramática. Antes da guerra, pouco mais de 35% do gás natural importado pela União Europeia vinha da Rússia, entregue principalmente pelos gasodutos Nord Stream. Ao longo de 2022, a Rússia reduziu e depois cortou totalmente o fornecimento pelo Nord Stream 1, numa disputa que se acirrou após as sanções ocidentais à invasão; em setembro daquele ano, explosões ainda danificaram fisicamente os dutos. O resultado foi uma crise energética que disparou os preços do gás e da eletricidade na Europa, alimentou a inflação (que passou de 10% na zona do euro) e forçou países a racionar consumo, reabrir usinas a carvão que estavam sendo fechadas e acelerar investimentos em energias renováveis para reduzir a dependência de um único fornecedor. É um exemplo direto de como a segurança energética também é uma questão de geopolítica, não só de tecnologia.
Carros elétricos: a transição chega às ruas
A transição energética também aparece no transporte individual, com o crescimento dos veículos eletrificados. Em 2025, o Brasil vendeu mais de 223,9 mil carros elétricos e híbridos, um crescimento de 26% sobre 2024, enquanto o mercado total de veículos leves cresceu apenas 2,6% no mesmo período; esses modelos já respondem por 9% de todos os carros novos vendidos no país, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico. A chegada de fábricas de montadoras chinesas, como BYD, e a produção nacional de modelos elétricos por marcas tradicionais aceleraram ainda mais essa curva: em abril de 2026, a participação de eletrificados nas vendas já havia saltado para 18,3%, e a Anfavea projetava entre 420 mil e 450 mil unidades vendidas no ano. Ainda assim, a frota brasileira em circulação segue majoritariamente movida a gasolina, etanol e diesel: a eletrificação do transporte é uma tendência clara e cada vez mais rápida, mas ainda está longe de dominar as ruas.
QUESTÃO PRÁTICA
O Brasil possui vastas reservas de lítio em Minas Gerais e um alto potencial para produção de hidrogênio verde no Nordeste. Considerando o contexto da transição energética global, a melhor estratégia para o Brasil seria:
Contradições da transição: quem paga a conta?
A transição energética não é igualitária. Os países que mais emitiram CO2 ao longo dos últimos 200 anos (Europa, Estados Unidos) são os que mais pediram para os países em desenvolvimento abandonarem os combustíveis fósseis. Mas esses mesmos países se desenvolveram queimando carvão e petróleo, e os países pobres ainda dependem dessas fontes para crescer.
No Brasil, há contradições internas também. O etanol de cana é uma energia renovável, mas a expansão do canavial empurou a pecuária e a soja para o Cerrado e a Amazônia, contribuindo para o desmatamento. Os parques eólicos do Nordeste geram energia limpa, mas foram instalados em territórios de comunidades indígenas e quilombolas sem consulta adequada. Usinas hidrelétricas são renováveis, mas alagam territórios, deslocam populações e impactam ecossistemas. A transição energética não é automaticamente justa: ela precisa ser planejada para não reproduzir velhas desigualdades com novas tecnologias.
Emissões históricas acumuladas de CO2 por país desde 1850. Fonte: Our World in Data, 2023.
Quem são os atingidos por barragens
A hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, é um exemplo concreto dessa contradição: apresentada como energia limpa, deslocou à força mais de 20 mil pessoas, muitas delas indígenas e ribeirinhas que dependiam do rio Xingu para viver, e trouxe insegurança alimentar e aumento da violência para a região. Segundo o MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), mais de 1 milhão de pessoas já foram expulsas de suas terras no Brasil ao longo da história por causa de barragens, a maioria sem receber indenização ou reassentamento adequado. Só em 2023, depois de décadas de mobilização, o governo federal sancionou uma lei nacional reconhecendo direitos específicos para essas famílias.
QUESTÃO PRÁTICA
O Brasil extrai lítio em Minas Gerais e o exporta bruto para outros países, que o processam e fabricam baterias de alto valor agregado, revendidas depois ao mundo todo, inclusive ao Brasil. Do ponto de vista da geografia econômica, essa dinâmica repete qual padrão histórico?
Responda no caderno antes de continuar:
1. O texto aponta que os países do Sul Global "correm o risco de se tornarem novamente fornecedores de matérias-primas." Relacione essa ideia com o conceito de neoextrativismo e explique como o Brasil pode evitar essa armadilha em relação ao lítio e ao hidrogênio verde.
2. A transição energética é ambientalmente necessária. Mas ela é socialmente justa? Quem paga o preço das mudanças que a transição exige e quem colhe os benefícios?
O que mudou no seu olhar
Antes de estudar esta aula, você provavelmente achava que a energia renovável era simplesmente "a solução" para os problemas ambientais: limpa, gratuita e boa para todos. Agora você vê que a transição energética é um processo complexo, cheio de contradições políticas, econômicas e sociais. Há disputas por minerais críticos, riscos de um novo ciclo extrativista para países em desenvolvimento, e impactos socioambientais das próprias energias "limpas."
O Brasil tem uma posição privilegiada: matriz elétrica já bastante renovável, potencial solar e eólico imenso, reservas de lítio e capacidade de produzir hidrogênio verde. Mas ter recursos não é suficiente. A história do petróleo, do minério de ferro e da soja mostrou que exportar matéria-prima sem agregar valor mantém o país na periferia da economia mundial. A transição energética só será transformadora para o Brasil se vier acompanhada de industrialização, ciência, tecnologia e políticas que garantam que os benefícios sejam distribuídos para quem precisa.
Você também deve ter percebido que "energia limpa" não significa "sem impacto nenhum". A hidrelétrica que ilumina sua casa pode ter deslocado famílias inteiras décadas atrás. O painel solar do seu telhado provavelmente foi fabricado com tecnologia e insumos concentrados numa cadeia de produção controlada majoritariamente por um único país. E o carro elétrico que promete zero emissão na rua depende de uma bateria feita com lítio extraído de algum lugar específico do planeta, processado em outro. Isso não significa que renováveis são ruins, muito pelo contrário: significa que toda fonte de energia tem uma geografia e uma história por trás, e entender essa geografia é entender quem realmente se beneficia da transição.
Essa geografia da energia é só uma parte de um quadro maior: a próxima aula, "Meio ambiente no Brasil", vai olhar para o restante desse quadro, o Código Florestal, as unidades de conservação e as políticas que decidem o que resta em pé das florestas e biomas brasileiros depois de séculos de exploração de seus recursos.
Resumo dos conceitos: energias renováveis (solar, eólica, biomassa, hidrogênio verde); biocombustíveis (combustíveis feitos de biomassa, como etanol e biodiesel); Proálcool (programa de 1975 que lançou o etanol brasileiro); biodiesel (mistura obrigatória ao diesel, hoje em expansão); matriz energética (conjunto de fontes usadas por um país); transição energética (substituição dos fósseis por renováveis); minerais críticos (lítio, cobalto, terras raras para as novas tecnologias); eólica offshore (turbinas instaladas no mar); veículos eletrificados (carros elétricos e híbridos); atingidos por barragens (populações deslocadas por hidrelétricas); responsabilidade diferenciada (países ricos emitiram mais e devem liderar a transição).
Infográfico - Resumo
Fonte: Organizado e revisado pelo autor.
RESPONDA COM SUAS PALAVRAS
1. Como se chama o programa criado pelo governo militar em 1975, em resposta ao primeiro choque do petróleo, para incentivar a produção de etanol e a fabricação de carros movidos a álcool no Brasil?
2. Como são chamados minerais como lítio, cobalto e terras raras, essenciais para baterias e painéis solares e por isso alvo de uma nova disputa geopolítica mundial?
Perguntas que você provavelmente tinha
P: O etanol é realmente uma energia limpa?
R: Depende de como se avalia. O etanol de cana queima e libera CO2, mas esse CO2 foi retirado da atmosfera pela própria cana durante o crescimento, o que torna o balanço de carbono próximo de zero. Isso é diferente do petróleo, cujo carbono estava armazenado há milhões de anos e, ao queimar, aumenta o CO2 atmosférico. Mas há questões: a expansão do canavial pode desmatar e emitir carbono; os trabalhadores do corte de cana (antes da mecanização) tinham condições de trabalho exaustivas; e grandes áreas plantadas com cana podem competir com a produção de alimentos. O etanol é mais limpo que a gasolina, mas não é neutro em relação a impactos ambientais e sociais.
P: Por que o Brasil ainda investe no pré-sal se quer ser verde?
R: É uma contradição real da política energética brasileira. O pré-sal é um ativo econômico enorme: exportar petróleo gera divisas que o governo usa para financiar saúde, educação e programas sociais. Abandonar essa receita imediatamente seria um choque econômico severo. O argumento do governo é que pode haver um período de transição em que o Brasil exporta petróleo enquanto investindo os lucros na construção da nova matriz. Mas há um risco: se a transição global for mais rápida do que se espera, o Brasil pode ficar com ativos de petróleo encalhados ("stranded assets"). O debate não tem resposta fácil, mas ignorá-lo seria um erro histórico.
P: O que é energia nuclear e por que o Brasil não usa mais?
R: A energia nuclear é gerada pela fissão do urânio (ou outros elementos pesados), liberando calor que movimenta turbinas. Não emite CO2 durante a geração, mas produz resíduos radioativos de difícil descarte. O Brasil tem duas usinas nucleares em operação em Angra dos Reis (RJ), Angra 1 e Angra 2, responsáveis por cerca de 2% da geração elétrica do país. Uma terceira usina, Angra 3, está em construção desde os anos 1980, com obras paralisadas por anos e retomadas em 2022; o governo espera concluí-la até 2028, o que levaria a nuclear a cerca de 3% da matriz. Por que a nuclear tem papel tão pequeno no Brasil? Custos de construção altíssimos, prazos de obra longuíssimos e o debate público sobre riscos. Com sol e vento abundantes, o Brasil tem alternativas mais rápidas e baratas para expandir a geração limpa.
P: Por que o governo brasileiro aumentou o imposto sobre carros elétricos importados?
R: Porque montadoras chinesas, principalmente a BYD, passaram a controlar mais da metade do mercado brasileiro de veículos eletrificados vendendo carros importados a preços muito competitivos, o que preocupou o governo e as montadoras que fabricam no Brasil. A partir de julho de 2024, o imposto de importação para carros elétricos começou a subir em etapas: de 10% para 18%, depois para 25% em 2025 e deve chegar a 35% em 2026. A ideia por trás da medida não é impedir a chegada dos elétricos, mas empurrar as montadoras a instalar fábricas e gerar empregos no Brasil em vez de só importar veículos prontos, repetindo uma estratégia industrial usada antes com outros setores automotivos.
Hora de usar o novo olhar.
O Brasil na transição energética
Atividade individual
No início desta aula você refletiu sobre de onde vem a energia que você usa. Agora, com os conceitos aprendidos, escreva uma análise de 15 a 20 linhas respondendo:
1. Quais são as vantagens da matriz energética brasileira em relação a países que dependem de combustíveis fósseis?
2. Quais são as contradições e limitações dessa matriz (dependência da hidroeletricidade, uso de termelétricas em anos de seca, impactos das grandes usinas)?
3. O que o Brasil precisaria fazer para se tornar um líder global na transição energética e, ao mesmo tempo, garantir que os benefícios dessa transição cheguem à população mais pobre? Pense em investimento em ciência e tecnologia, industrialização local dos minerais críticos e políticas de distribuição justa dos ganhos econômicos.
Dica: o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) publica dados em tempo real sobre a geração de energia por fonte em ons.org.br, o que permite acompanhar ao vivo a participação de cada fonte na matriz elétrica do país.
Questões para responder no caderno:
1. O que é matriz energética? Como a matriz elétrica brasileira se diferencia da maioria dos países do mundo?
2. Explique como funciona a energia solar fotovoltaica e cite as vantagens do Brasil para desenvolver essa fonte.
3. O que é energia eólica? Por que o Nordeste brasileiro concentra os maiores parques eólicos do país?
4. O que é hidrogênio verde? Por que ele é considerado um combustível do futuro e qual é o potencial do Brasil nessa área?
5. Por que a dependência excessiva da hidroeletricidade torna a matriz elétrica brasileira vulnerável às variações climáticas?
6. O que são minerais críticos? Como a disputa por esses recursos está criando uma nova geopolítica energética global?
7. O que é transição energética? Quais países têm mais responsabilidade histórica nas mudanças climáticas e, portanto, mais obrigação de liderar e financiar essa transição?
8. O que foi o Proálcool e por que ele foi criado em 1975? O etanol de cana-de-açúcar e o biodiesel são energias renováveis, mas têm contradições sociais e ambientais. Quais são essas contradições?
9. Por que os países do Sul Global, como o Brasil, correm o risco de reproduzir relações de dependência na nova economia de baixo carbono, mesmo sendo grandes produtores de energias renováveis e minerais críticos?
10. Como o Brasil pode usar sua posição privilegiada na transição energética (sol, vento, lítio, hidrogênio verde) para agregar valor internamente e reduzir as desigualdades regionais, especialmente no Nordeste?
Antes de finalizar, vamos fazer as questões!