Conteúdo:
Objetivo:
Agora é com você!
Você já reparou que, em muitos mapas-múndi, a Groenlândia parece quase do tamanho da África? Na realidade, a África é cerca de 14 vezes maior que a Groenlândia.
Anote em seu caderno: por que você acha que um mapa, feito para representar o mundo real, pode mostrar um país maior ou menor do que ele realmente é? Guarde sua resposta, vamos retomá-la no final da aula.
Introdução
Na aula passada, vimos a importância da escala cartográfica e geográfica para representarmos a realidade através dos mapas.
Agora, do ponto de vista global, veremos como projetar o globo terrestre (que possui uma forma de esfera) em um plano. O caminho para se tornar um explorador do espaço geográfico é árduo, mas também é gratificante.
As projeções cartográficas realizam essa transformação da realidade tridimensional em planos bidimensionais. Vamos conhecer os diferentes tipos de projeções, seu impacto na descoberta de novas áreas pelo Planeta e aprofundar no estudo sobre a produção cartográfica.
Esta aula responde a uma pergunta que parece só técnica, mas é também política: como transformar um globo redondo em um mapa plano sem mentir sobre o tamanho, a forma ou a posição dos países, e quem decide o que vale a pena distorcer.
O que é uma projeção cartográfica?
Já sabemos alguns elementos dos mapas, como o título, a legenda, a escala, até fizemos uma planta da escola! Agora, vamos discutir o problema de representar algo que é 3D em uma folha, por exemplo, que é 2D, ou possui somente duas dimensões.
Os cartógrafos quebraram a cabeça para tornarem os mapas os mais fiéis possíveis à realidade. Para isso, utilizaram bastante a Matemática com diversos cálculos. Utilizaram as coordenadas geográficas para poder representar a superfície terrestre em um mapa. Tudo isso está ligado as projeções cartográficas.
Projeções cartográficas - Constituem métodos matemáticos para se projetar uma esfera em um plano. Uma região de escala grande como um município ao ser representada em um mapa não sofre muitas distorções. Entretanto, para representar um mapa-múndi, há muitas dificuldades em manter as formas dos continentes, sua área e posições sem distorcê-los. Há diversos tipos de se projetar uma esfera em um plano:
A ideia principal é esta:
A partir desse modelo são projetados pontos possíveis da superfície terrestre. São mais de 200 tipos de projeções.
Quais os tipos de projeções existentes?
Existem três tipos básicos de projeções cartográficas: a cilíndrica, a cônica e a plana ou azimutal, conforme as imagens abaixo:
Observe que na projeção cilíndrica o globo terrestre parece estar envolvido por um cilindro de papel no qual são projetados os paralelos e os meridianos.
Na projeção azimutal ou plana,a Terra parece ser tangenciada em qualquer ponto por um pedaço de papel no qual são projetados os paralelos e os meridianos. Quando o globo é tangenciado num dos polos, dizemos que se trata de uma projeção polar.
Já na projeção cônica, o globo parece estar envolvido por um cone de papel no qual são projetados os paralelos e os meridianos.
QUESTÃO PRÁTICA
Quais são os três tipos principais de projeções cartográficas?
As projeções distorcem a realidade?
Sabemos que todo mapa é uma representação aproximada do espaço terrestre, na medida que depende do objetivo de o pesquisador escolher o que representar. Por isso que a escolha do tipo de projeção já direciona a leitura do mundo e valoriza algum aspecto da realidade.
O globo terrestre não possui distorções, pois mostra diretamente como é na realidade o Planeta. Sua desvantagem é que, na prática, é difícil ter uma visão do todo ao mesmo tempo. Veja aqui:
QUESTÃO PRÁTICA
Toda projeção cartográfica, ao transformar a esfera terrestre em um mapa plano, tem como consequência:
Projeções Cilíndricas
Projeção de Mercator
A projeção mais famosa utilizada até hoje foi elaborada pelo cartógrafo, matemático e geógrafo belga Gerardus Mercator na segunda metade do século XVI.
Ela é perfeita para navegação, principalmente nas regiões intertropicais (entre os trópicos de Câncer e de Capricórnio) pois as direções podem ser traçadas em linhas retas sobre o mapa. Veja abaixo:
Principais características:
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Apresenta paralelos retos e horizontais e os meridianos retos e verticais;
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Possui uma deformação exagerada nas regiões de elevadas latitudes;
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é a mais utilizada para representação total da Terra (mapas-múndi).
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é conforme, isto é, preserva os ângulos e formas dos continentes, mas distorce a área (a proporção do tamanho dos países).
As distorções visíveis podem ser observadas no tamanho da Groelândia, por exemplo, em comparação à da América do Sul. Como a Groenlândia está situada em altas latitudes, a distorção é maior. Outra deformidade ocorre na Antártida, deixando-a com uma área bem maior. Por outro lado, o contorno dos continentes é bem desenhado e de fácil visualização.
Essa projeção foi muito utilizada na época da expansão marítima do século XVI e reflete a visão eurocêntrica do mundo, ou seja, tendo a Europa no “centro de visão” do mapa. (Faria, 2016).
Os mapas carregam as ideologias e a cultura de quem os produziu. Ele revela, nesse caso, o contexto de domínio de um grupo ou nação sobre outra, resumindo: a geopolítica. Não é à toa que esse tipo de mapa com a Europa no centro serviu para alimentar durante séculos a ideia na qual os países “de cima” são superiores aos “de baixo”. Mas nem todas as projeções seguem essas ideias deterministas.
Projeção de Peter
Na década de 1970, após muitas outras projeções terem sido realizadas, o historiador e cartógrafo Arno Peters aperfeiçoou a projeção cilíndrica de James Gall do final do século XIX e elaborou uma projeção que preservava as áreas dos continentes, o qual ficou conhecida como projeção equivalente.
Nessa projeção há um destaque aos países de baixas latitudes, uma vez que buscou preservar suas áreas (tamanho) originais. Por outro lado, atendeu aos interesses dos Estados que se tornaram independentes após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e que, nesse período, eram considerados subdesenvolvidos, a maioria desses países estão, de fato, na parte sul do globo. Foi considerada uma das formas para romper com uma visão colonialista do mundo.
Percebe-se um alongamento dos continentes no sentido norte-sul. A Groenlândia nesse mapa, agora aparece bem menor que o Brasil e a África.
Principais características:
-
Altera as formas para manter as reais proporções dos continentes;
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Apesar de deformar as áreas, procura mantê-las mais próximas do tamanho real;
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Destaca o continente africano no centro;
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Propõe a valorização do mundo subdesenvolvido, mostrando sua área real.
Projeções Planas ou Azimutais
A projeção plana ocorre quando um plano toca um ponto (tangencia) do globo para mapeá-lo.
Os pontos que não tocam o plano são prolongados e daí que surgem as distorções. Nessa projeção, qualquer ponto do globo pode ser tornar o centro do mapa. Nesse caso, as distorções se aproximam de zero. À medida em que nos afastamos do centro da projeção, as distorções aumentam bastante (sistematicamente).
Veja esse exemplo em que o centro da projeção é o encontro da latitude 0º e da longitude 0º.
Ou uma projeção plana da América do Norte.
Essa projeção está muito ligada a geopolítica (as relações de poder entre as nações), pois o cartógrafo pode direcionar o centro das atenções para qualquer território no mundo.
Também é muito utilizada para navegações aérea e marítima. A Organização das Nações Unidas – ONU a utiliza como seu mapa-símbolo. Na época da Guerra Fria, esse tipo de projeção era utilizado para representar o mundo bipolar, isto é, a antiga divisão entre Estados Unidos e União Soviética.
Projeções cônicas
A projeção cônica ocorre a partir de um cone imaginário em que os meridianos formam uma rede de linhas retas, que convergem (que vão para um local em comum) para um ponto, e os paralelos formam círculos concêntricos (com o mesmo centro, um dentro do outro).
Principais características:
- Apresenta paralelos circulares e meridianos radiais, isto é, retas que se originam de um único ponto;
- É usado principalmente para representar países ou regiões de latitudes intermediarias (não diretamente nos polos ou no equador), mas pode ser usada por outras latitudes.
Anamorfoses
Existem outros tipos de mapas que não chegam a ser uma projeção cartográfica, mas sim mapas temáticos que distorcem as áreas dos continentes ou países de acordo com as informações que norteiam o mapa.
São chamadas de anamorfose geográfica, em que cada país é redesenhado de forma que seu polígono sofre uma deformação proporcional a um tema como a população dos países, ou outra variável.
Exemplo. A população da China que é, aproximadamente de 1,5 bilhão de pessoas e da Índia com 1.4 bilhão irão aparecer maiores no mapa.
Nesse mapa, por exemplo, o Paquistão que tem uma área de 796 100 km² , muito menor do que a do Brasil (8.515.759) km² possui sua forma aumentada.
Já com a Rússia ocorre o inverso, com uma área territorial de 17.098.250 km2, quase o dobro da área do Brasil, teve seu polígono deformado e diminuído, pois possui uma população um pouco menor que o Brasil.
Não existe pergunta boba! A Ciência é feita de perguntas!
P: Existe uma projeção que está no meio termo, entre a projeção de Mercator e a de Peters?
R: Há a projeção cilíndrica de Robinson elaborada pelo cartógrafo e geógrafo norte-americano Arthur Robinson (1915-2004). O interessante é que os meridianos estão em forma de curva ou elipse, enquanto os paralelos permanecem retos. Ela é chamada de afilática, pois não deforma tanto as áreas e nem as formas dos continentes. Por isso é a mais utilizada para representar o globo terrestre.
Ainda dentro das projeções cilíndricas, destaca-se a de Mollweide , com meridianos igualmente curvos e de forma elíptica, uma pouco mais achatada nos polos. A vantagem desta é que as zonas centrais possuem grande exatidão em seu desenho, mas as extremidades apresentam grandes distorções.
E uma última projeção, para ilustrar, refere-se a de Goode, chamada de projeção descontínua ou interrompida.
Ao segmentar algumas áreas dos oceanos Pacífico, Atlântico e Índico, ele queria manter as formas das terras emersas totalmente conservada, com exceção da Antártica e Groenlândia. Sua vantagem está em representar temas como a distribuição de indústrias, Recursos minerais ou de indicadores socioeconômicos.
P: Hoje em dia, com a existência de satélites e internet, ainda precisamos de projeções cartográficas?
R: Essa é uma ótima pergunta. O assunto sobre a união da tecnologia com a produção cartográfica é fundamental e vamos ver esse assunto também na próxima aula. Os mapas nos ajudam na compreensão espacial das coisas, dos processos que os eventos humanos ou naturais criam. Hoje, mais do que nunca, o mundo se encontra praticamente todo mapeado. Mesmo as áreas não visitadas, estão potencialmente sendo fotografadas pelos satélites. Por isso o espaço tem uma importância fundamental no mundo atual. Todos os lugares foram atingidos, direta ou indiretamente, pelo processo produtivo, o que cria uma hierarquização entre os agentes. Cada ponto do território mapeado torna-se único, repleto de potencialidades, sociais, naturais etc.
P: Quais temas de estudo os mapas podem representar?
R: Os mapas temáticos podem nos dar uma visão de conjunto sobre inúmeros tópicos, quais sejam: sobre o papel da informação no mundo atual; o grau de tecnologia empregado nas atividades produtivas, o funcionamento do crédito pelo território, o intercâmbio de bens naturais e sociais pelos Estados, dentre inúmeros outros. Nesse sentido, os mapas não servem apenas para localização estrita, mas para analisar processos que estão ocorrendo, como a pandemia de Covid-19 que se espalhou por todo o Planeta.
O que mudou no seu olhar
Releia o que você escreveu no início sobre o tamanho da Groenlândia nos mapas. Agora você sabe que a resposta não é um erro de desenho: é uma escolha entre o que preservar e o que sacrificar. Mercator preservou os ângulos, então distorceu as áreas. Peters preservou as áreas, então distorceu as formas. Não existe mapa plano sem algum tipo de perda.
E essa escolha nunca foi neutra. Um mapa que aumenta a Europa e diminui a África, ou que coloca um continente sempre no centro, ensina uma ideia de mundo junto com a geografia. Escolher qual projeção usar é também escolher qual história contar sobre quem é grande, quem é pequeno e quem fica no meio.
Resumo dos conceitos: projeção cartográfica (método matemático para representar a esfera em um plano); projeção cilíndrica, cônica e plana (as três formas básicas de projetar); projeção conforme (preserva forma, distorce área, como Mercator); projeção equivalente (preserva área, distorce forma, como Peters); anamorfose geográfica (mapa temático que deforma países conforme uma variável, como população).
Ficha de Conceitos
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