Américas Central e do Sul: características gerais
Conteúdo:
Objetivo:
Introdução
Na aula anterior vimos as características do México e do Canadá, países que formam o bloco USMCA com os Estados Unidos.
Na aula de hoje vamos estudar as características gerais da América Central e do Sul: sua geografia física, sua história de colonização e independência, o caso único de Cuba e a economia da região, incluindo o Mercosul e os países andinos.
1. Introdução
A América Central é uma região situada entre a América do Norte e a América do Sul, composta por sete países: Belize, Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica e Panamá. Geograficamente, a região é caracterizada por cadeias montanhosas que se estendem ao longo de sua extensão, além de vulcões ativos e uma rica biodiversidade.
A América do Sul, por sua vez, é dividida em várias sub-regiões, incluindo os Países Andinos e o Cone Sul, onde se destaca o Mercosul, um importante bloco econômico. Ambas as regiões têm uma grande importância geopolítica devido à riqueza em recursos naturais, como petróleo, minérios e biodiversidade.
Além disso, a América Central possui uma relevância estratégica por sua proximidade ao Canal do Panamá, uma das rotas comerciais mais importantes do mundo. Concluída em 1914, a obra interligou os oceanos Atlântico e Pacífico através do istmo centro-americano e, ao encurtar drasticamente o trajeto entre as duas costas dos Estados Unidos, tornou-se depois a principal via de circulação entre a Europa e os países do Pacífico. Essa importância voltou ao centro do debate internacional a partir de 2025, quando o presidente estadunidense Donald Trump passou a ameaçar "retomar" o controle do canal, alegando que a China exercia influência indevida sobre a via por meio da operação de dois portos do canal por uma empresa de Hong Kong. Em meio à pressão, Panamá e Estados Unidos assinaram acordos de segurança que permitem tropas estadunidenses realizarem exercícios militares em território panamenho por três anos, e a Suprema Corte do Panamá declarou inconstitucionais os contratos que davam à empresa chinesa o controle dos portos do canal, episódio que mostra como a geografia estratégica da América Central segue atraindo a disputa entre grandes potências.
3. Colonização
A história da América Central e do Sul é marcada por um longo período de colonização europeia, que moldou profundamente a cultura, a religião e as línguas dessas regiões. Os colonizadores, principalmente espanhóis e portugueses, chegaram ao Novo Mundo no final do século XV, atraídos pela promessa de riquezas e novas terras. A influência europeia é evidente até hoje, com o espanhol e o português sendo as línguas predominantes, e o cristianismo, especialmente o catolicismo, profundamente enraizado na vida social e cultural.
Antes da chegada dos europeus, porém, o continente já era densamente povoado: estima-se que, no século XV, viviam ali cerca de 50 milhões de pessoas de diferentes culturas e etnias. Alguns povos pré-colombianos formaram verdadeiros impérios urbanos, com organização econômica voltada à agricultura e ao comércio. Os maias e os astecas ocuparam a chamada Mesoamérica (região que hoje corresponde a Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Belize, Guatemala e o centro-sul do México), enquanto os incas construíram seu império ao longo da Cordilheira dos Andes, na área hoje ocupada por Peru, Equador, Bolívia e Chile. Esse legado indígena não desapareceu: estima-se que, hoje, cerca de 30 milhões de indígenas distribuídos em mais de 670 grupos étnico-culturais vivam na América Latina, com destaque para países como México, Peru, Guatemala e Bolívia, onde o percentual da população de origem indígena é particularmente elevado.
A colonização não foi um processo pacífico. Pelo contrário, foi marcada pela exploração intensa dos recursos naturais e pela subjugação das populações indígenas. Ouro, prata e outros recursos foram extraídos em grandes quantidades e enviados para a Europa, enriquecendo as metrópoles coloniais à custa das economias locais e das vidas de milhões de pessoas.
Espanha e Portugal adotaram modelos de colonização distintos. A Coroa espanhola organizou seu império americano em vice-reinos administrados de perto por Madri, com cidades planejadas ao redor de minas de prata e ouro, como Potosí, no atual território boliviano, uma das maiores minas de prata da história. Para explorar a mão de obra indígena, os espanhóis criaram o sistema de encomienda, no qual um colono recebia o direito de explorar o trabalho de grupos indígenas em troca da promessa de catequizá-los e protegê-los, uma promessa raramente cumprida na prática. Já Portugal, com menos recursos para administrar diretamente sua colônia, adotou inicialmente o sistema de capitanias hereditárias, concedendo grandes faixas de terra a particulares que assumiam os custos e os riscos da colonização em troca de amplos poderes administrativos.
Um aspecto sombrio dessa era foi o uso massivo de mão de obra escrava africana. Os primeiros africanos escravizados chegaram ao continente americano em 1502, na Ilha de São Domingos, que corresponde ao atual território do Haiti e da República Dominicana, no Mar do Caribe. Dali, o tráfico se espalhou por toda a região: os escravizados foram forçados a trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar do Brasil e das Antilhas, nas lavouras de cacau e café da Venezuela e nas plantações de café, algodão e tabaco da Colômbia. Milhões de africanos atravessaram o Atlântico em condições desumanas, e os grupos afro-latinos resultantes desse processo compartilham uma história de escravização, de inserção desigual no modelo colonial e de luta por liberdade, como na formação de quilombos, contribuindo para a formação de sociedades profundamente desiguais.
Mesmo após a independência dos países da América Central e do Sul, muitas das estruturas de poder e desigualdades sociais estabelecidas durante a colonização persistiram. As elites coloniais mantiveram seu poder e influência, enquanto a maioria da população continuou a enfrentar desafios relacionados à pobreza e à falta de acesso a oportunidades. Este legado colonial ainda é evidente hoje, influenciando a dinâmica social, econômica e política da região.
5. Questão Cubana
Cuba ocupa um lugar único na história e na geopolítica da América Latina. A Revolução Cubana de 1959, liderada por Fidel Castro, transformou radicalmente o país, estabelecendo um governo socialista que desafiou a hegemonia dos Estados Unidos na região. Antes da revolução, Cuba era amplamente influenciada pelos interesses econômicos e políticos dos EUA, com uma economia baseada no turismo, no açúcar e em outras exportações. A revolução, no entanto, trouxe profundas mudanças sociais e econômicas, incluindo a nacionalização de indústrias, a reforma agrária e o estabelecimento de um sistema de saúde e educação gratuitos.
Um dos eventos mais marcantes da história recente de Cuba foi o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos em 1962, que continua em vigor até hoje. O embargo foi uma resposta direta à aliança de Cuba com a União Soviética durante a Guerra Fria e à expropriação de propriedades americanas na ilha. Esse bloqueio econômico teve um impacto devastador na economia cubana, limitando o acesso a produtos básicos, tecnologia e mercados internacionais.
Desde o início de seu segundo mandato, em janeiro de 2025, o presidente Donald Trump voltou a colocar Cuba entre as prioridades da política externa dos EUA para a América Latina, combinando novas sanções econômicas e financeiras, restrições a viagens e pressão sobre o setor energético cubano. Em janeiro de 2026, uma ordem executiva classificou Cuba como uma "ameaça incomum e extraordinária" à segurança estadunidense e passou a permitir tarifas adicionais contra qualquer país que forneça petróleo à ilha, agravando uma crise de combustíveis que já afetava o abastecimento de alimentos, água e hospitais no país. Em outubro de 2025, pela trigésima terceira vez consecutiva, a Assembleia Geral da ONU votou, por larga maioria, pelo fim do embargo, uma posição que os Estados Unidos seguem rejeitando. Apesar dessas dificuldades, o governo cubano conseguiu manter seu sistema socialista e implementar políticas sociais que continuam a ser um marco distintivo do país.
Cuba se destaca como uma exceção na América Latina por sua adesão ao socialismo em uma região predominantemente composta por economias de mercado. Enquanto a maioria dos países latino-americanos adotou políticas neoliberais nas últimas décadas, Cuba permaneceu firme em seu modelo econômico e político, com um controle centralizado e uma economia planificada. Isso resultou em um desenvolvimento econômico diferente, com avanços notáveis em áreas como a saúde e a educação, mas também com limitações significativas em termos de crescimento econômico e inovação tecnológica.
Entre as fontes de divisas mais importantes para a economia cubana estão o turismo internacional e as remessas enviadas por cubanos que vivem no exterior, sobretudo nos Estados Unidos, que ajudam milhões de famílias na ilha a driblar a escassez de produtos básicos agravada pelo embargo. Em 2021, o governo cubano promoveu uma reforma monetária que unificou o peso cubano com o antigo peso conversível, numa tentativa de simplificar um sistema de dupla moeda que distorcia preços e salários havia décadas. A reforma, no entanto, veio acompanhada de forte inflação, o que aprofundou as dificuldades econômicas da população cubana justamente no momento em que o endurecimento do embargo, a partir de 2025, voltou a restringir o acesso do país a combustíveis e insumos básicos.
A posição única de Cuba também gerou impactos regionais significativos. As relações de Cuba com os Estados Unidos têm sido historicamente tensas, culminando na Crise dos Mísseis de 1962, que quase levou a um conflito nuclear. No entanto, Cuba também recebeu apoio de outros países latino-americanos, especialmente em fóruns internacionais como a ONU, onde a maioria das nações da região condena o embargo americano e apoia o direito de Cuba à autodeterminação. Apesar das dificuldades econômicas, Cuba continua a exercer uma influência cultural e política desproporcional ao seu tamanho, sendo um símbolo de resistência e soberania na América Latina. Na próxima aula, vamos aprofundar a situação política atual de Cuba, além dos casos da Venezuela e da Bolívia.
Infográfico - Resumo
Fonte: Organizado e revisado pelo
autor.
Não existe pergunta boba! A Ciência é feita de perguntas!
P: Se o embargo dos EUA contra Cuba já dura mais de 60 anos e a ONU pede seu fim todo ano, por que ele continua?
R: Porque a decisão de manter ou suspender o embargo é dos Estados Unidos, não da ONU: as resoluções da Assembleia Geral têm peso político e moral, mas não são de cumprimento obrigatório. Setores da política estadunidense seguem defendendo o embargo como forma de pressão contra o governo cubano, mesmo sem apoio internacional significativo.
P: Como um país pode ser suspenso de um bloco econômico como o Mercosul?
R: Porque blocos como o Mercosul têm cláusulas que exigem o respeito a princípios democráticos e ao cumprimento dos acordos comerciais firmados. Quando um país-membro é considerado em descumprimento dessas cláusulas, como aconteceu com a Venezuela em 2016, os demais membros podem suspender seus direitos dentro do bloco até que a situação seja revista.
P: Se os países andinos têm tantos recursos minerais valiosos, por que continuam pobres?
R: Porque ter recursos naturais não garante desenvolvimento: quando a economia de um país depende demais da exportação de matérias-primas, sem agregar valor industrialmente a elas, a riqueza gerada tende a se concentrar em poucas mãos e o país fica vulnerável às oscilações de preços internacionais, um padrão conhecido como dependência de commodities.
QUESTÃO PRÁTICA 01
Em julho de 2024, o sexto país a se tornar membro pleno do Mercosul foi:
QUESTÃO PRÁTICA 02
A Cordilheira dos Andes, a mais extensa do mundo, se estende ao longo de:
Resumindo
Nesta aula, vimos as características gerais da América Central e do Sul: seu relevo marcado pelos Andes, sua diversidade climática, do deserto do Atacama à Amazônia, e sua história de colonização europeia que deixou marcas profundas nas desigualdades sociais da região. Vimos também como a independência política do século XIX não resolveu a dependência econômica de commodities, um padrão que blocos como o Mercosul, hoje com seis membros plenos após a entrada da Bolívia em 2024, tentam superar por meio da integração regional. Por fim, vimos o caso único de Cuba, socialista desde 1959 e sob embargo dos Estados Unidos desde 1962, um embargo que se intensificou nos últimos anos.
Na próxima aula, vamos aprofundar os conflitos e a política latino-americana atuais: as guerrilhas, o narcotráfico e a situação política de Venezuela, Cuba e Bolívia.
Questões para responder no caderno
1. Quais países formam a América Central, e qual sua relevância estratégica?
2. Quais são as principais características físicas da América do Sul (relevo, clima e vegetação)?
3. Como a colonização europeia moldou a cultura e as desigualdades sociais da região?
4. Por que a independência política não resolveu o subdesenvolvimento econômico?
5. O que caracterizou a Revolução Cubana de 1959, e quais mudanças ela trouxe ao país?
6. Desde quando e por que os Estados Unidos mantêm o embargo econômico contra Cuba?
7. O que é o Mercosul, e como sua composição mudou entre 2012 e 2024?
8. O que caracteriza a economia dos países andinos?
9. Por que a dependência de commodities é um risco para as economias latino-americanas?
10. Qual é o status do acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia em 2026?
Antes de finalizar, vamos fazer as questões!
Para saber mais:
Referências Bibliográficas
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