Conteúdo:
Objetivo:
O que você sabe sobre a África?
Quando alguém fala "África", o que vem à sua cabeça? Deserto? Savana com leões e elefantes? Pobreza? Conflitos? Essas imagens existem, mas descrevem apenas fragmentos de um continente gigantesco, com mais de 30 milhões de km² e mais de 1,4 bilhão de pessoas.
Antes de começar, responda honestamente no caderno:
- Você consegue nomear cinco países africanos sem olhar o mapa? E cinco capitais?
- Você imaginaria que a África tem florestas tropicais tão densas quanto a Amazônia? Ou montanhas com neve permanente no topo?
- Por que você acha que a maioria das imagens da África que chegam até nós mostram somente deserto e pobreza? Quem produz essas imagens e por quê?
Guarde essas respostas. Ao final da aula, você vai rever o que pensava com olhos bem diferentes, com dados concretos de relevo, clima, rios e biodiversidade que raramente aparecem nas notícias sobre o continente.
O problema que esta aula vai iluminar
A África é o continente mais rico do mundo em diversidade de minerais, possui o segundo maior rio em volume d'água do planeta, a segunda maior floresta tropical, a maior área de savana e algumas das mais antigas civilizações da história humana. Ao mesmo tempo, é o continente com os maiores índices de insegurança alimentar, desertificação e vulnerabilidade às mudanças climáticas.
Essa contradição não é obra da natureza: é resultado de séculos de exploração colonial que transformou os recursos naturais africanos em riqueza para outros continentes, deixando populações locais sem acesso ao que é seu. Esta aula começa pela natureza, mas já aponta essa questão que vai nos acompanhar nas próximas aulas.
Relevo da África: planaltos, desertos e o sistema do Rift Valley. Fonte: elaboração própria.
Clima e vegetação
A África é cortada pelo Equador quase ao meio, o que determina uma distribuição climática em faixas simétricas ao norte e ao sul da linha equatorial. Essa simetria é uma das características mais marcantes do continente e explica a repetição de climas e vegetações nos dois hemisférios.
Do Equador para os trópicos:
- Clima equatorial e floresta densa: concentrado na Bacia do Congo e no Golfo da Guiné. A Bacia do Congo abriga a segunda maior floresta tropical do planeta, com biodiversidade comparável à Amazônia e papel fundamental na regulação climática global.
- Clima tropical e savana: a savana africana cobre cerca de metade do continente, com uma estação chuvosa e uma seca bem definidas. É o bioma das grandes migrações de animais, do Serengeti e dos grandes parques nacionais africanos. Todos os anos, cerca de 1,5 milhão de gnus, acompanhados de centenas de milhares de zebras e gazelas, percorrem um circuito de mais de 800 km entre o Parque Nacional do Serengeti, na Tanzânia, e a Reserva Nacional do Masai Mara, no Quênia, em busca de pasto fresco e água, atravessando rios infestados de crocodilos. É considerado o maior espetáculo de migração de mamíferos terrestres do planeta e sustenta uma cadeia econômica de turismo de observação de vida selvagem fundamental para os dois países.
- Clima semiárido e Sahel: o Sahel é a faixa de transição entre o Saara e a savana, extremamente vulnerável à seca e à desertificação.
- Clima árido e desertos: o Saara ao norte (maior deserto quente do mundo) e os desertos do Namibe e Kalahari ao sul.
- Clima mediterrâneo: nos extremos norte (Marrocos, Tunísia) e sul (Cabo da Boa Esperança), com verões secos e invernos chuvosos.
Madagascar
Fora do padrão de faixas simétricas do continente está a ilha de Madagascar,
a quarta maior ilha do planeta, separada da África continental há cerca de 160 milhões de anos. Esse
isolamento geológico prolongado transformou a ilha em um dos maiores centros de biodiversidade endêmica
do mundo: mais de 90% das espécies de mamíferos, répteis e anfíbios de Madagascar, incluindo os
famosos lêmures, não existem em nenhum outro lugar do planeta. Boa parte dessas florestas únicas está
hoje ameaçada pelo desmatamento para agricultura de subsistência e produção de carvão vegetal.
Essa sequência de faixas climáticas e suas respectivas vegetações, chamadas tecnicamente de zonobiomas, não muda de forma abrupta de um clima para o outro: entre cada zona existe uma faixa de transição em que a vegetação se modifica gradualmente. Na transição entre o deserto e a savana, por exemplo, a vegetação de pequeno porte e as espécies xerófitas, adaptadas à escassez de água e típicas do clima árido, vão dando lugar de forma progressiva a gramíneas e arbustos mais densos, em um processo chamado de savanização, até que a paisagem passe a corresponder plenamente às características do clima tropical e savana. Esse mesmo tipo de gradiente, com intensidade e direção variáveis, ocorre em todas as fronteiras entre zonobiomas vizinhos no continente africano.
Zonas climáticas e vegetação da África. Fonte: elaboração própria com dados da FAO, 2022.
QUESTÃO PRÁTICA
O Rift Valley, sistema de fossas tectônicas do leste africano, é chamado de "berço da humanidade" porque:
Principais rios e lagos da África. Fonte: elaboração própria com dados da FAO Aquastat, 2023.
Principais problemas ambientais
A África é um dos continentes mais vulneráveis às mudanças climáticas, apesar de ser responsável por menos de 4% das emissões globais de gases de efeito estufa. Essa injustiça ambiental, quem polui menos sofre mais, resume bem a situação africana diante dos problemas ambientais contemporâneos.
Desertificação no Sahel: o avanço do deserto sobre o Sahel é um dos problemas ambientais mais graves da África. A combinação de seca, sobrepastoreio e desmatamento degrada solos que comunidades inteiras dependem para sobreviver. Em resposta, países do Sahel iniciaram a "Grande Muralha Verde", projeto de reflorestamento de 8.000 km para conter o avanço do Saara.
Lançada em 2007 pela União Africana, a meta original da Grande Muralha Verde era restaurar 100 milhões de hectares de terras degradadas até 2030, mas o projeto avança bem mais devagar do que o planejado: em meados de 2024, estava apenas cerca de 30% completo. Ainda assim, os números acumulados não são pequenos: somente entre 2021 e 2025, o programa "Acelerador" da iniciativa ajudou a colocar 1,66 milhão de hectares em processo de restauração no Sahel, gerando 4,6 milhões de empregos e beneficiando cerca de 46 milhões de pessoas. O maior obstáculo é o financiamento: dos 19 bilhões de dólares prometidos por doadores internacionais em 2021, pouco mais de 2,5 bilhões haviam sido efetivamente entregues até o ano seguinte, e estima-se que ainda faltem cerca de 33 bilhões de dólares para que a meta de 2030 seja alcançada.
O Lago Chade que some: nenhum caso ilustra melhor o drama do Sahel do que o Lago Chade. Situado na fronteira entre Chade, Níger, Nigéria e Camarões, o lago perdeu entre 90% e 95% de sua área em poucas décadas: de cerca de 25 mil km² no início dos anos 1960 para pouco mais de mil km² hoje, com fortes variações sazonais. A combinação de seca prolongada, mudanças climáticas e grandes projetos de irrigação que desviaram a água dos rios que alimentam o lago deixou milhões de pescadores e agricultores sem sua principal fonte de subsistência, alimentando migrações forçadas e, segundo pesquisadores, contribuindo para a instabilidade social que favoreceu o crescimento de grupos armados na região, como o Boko Haram.
Desmatamento da floresta do Congo: a segunda maior floresta tropical do mundo, com quase 200 milhões de hectares, perde área para a agricultura de subsistência, extração de madeira e mineração. Em 2024, a Bacia do Congo perdeu cerca de 780 mil hectares de floresta primária, um ritmo que vem crescendo ano a ano. Ao contrário da Amazônia, onde o desmatamento é fortemente mecanizado e empresarial, no Congo predomina o desmatamento por pequenos agricultores que precisam de terra para sobreviver, praticando o chamado cultivo itinerante com rotação de áreas, embora a agricultura permanente em maior escala também venha crescendo na região.
Conflitos por recursos hídricos: a disputa pelo Nilo entre Etiópia, Sudão e Egito é o exemplo mais crítico. Com o crescimento populacional e o aumento das temperaturas, a água torna-se cada vez mais escassa e politicamente disputada.
Derretimento das neves do Kilimanjaro: o glaciar do Kilimanjaro perdeu mais de 80% de sua cobertura de gelo no século XX. As previsões indicam desaparecimento completo antes de 2050. Além do impacto simbólico, o derretimento afeta os rios e a disponibilidade de água na região. O mesmo processo atinge outras montanhas africanas com neve permanente, como o Monte Quênia e as Montanhas Ruwenzori, na fronteira entre Uganda e a República Democrática do Congo, cujas geleiras também estão entre as que mais perdem massa no planeta, proporcionalmente ao seu tamanho original.
QUESTÃO PRÁTICA
A África é responsável por menos de 4% das emissões globais de gases de efeito estufa, mas é o continente mais vulnerável às mudanças climáticas. Esse fenômeno é chamado de:
TEXTO DE APOIO
"A África é rica em recursos naturais, mas pobre em retornos para sua população. Isso não é acidente: é o resultado de séculos de exploração e de governança que serviu a interesses externos mais do que às necessidades dos africanos. Enquanto o continente exporta madeira, minérios e petróleo em estado bruto, os países que os processam e vendem ficam com a maior parte do valor."
MAATHAI, Wangari. Desafio à África: uma perspectiva africana sobre os problemas contemporâneos do continente. São Paulo: Globo, 2010, p. 41.
Conceitos estudados nesta aula:
- Rift Valley e relevo planaltico africano
- Simetria climática em relação ao Equador
- Savana africana, Sahel e Bacia do Congo
- Nilo, Congo, Niger e Zambeze
- Desertificação, injustiça ambiental e mudanças climáticas
Por que o relevo africano é tão diferente do relevo sul-americano?
A América do Sul tem os Andes, uma cadeia de montanhas jovens e elevadas formada pelo encontro de placas tectônicas. A África, em contraste, é formada principalmente por planaltos antigos, originados em escudos cristalinos estáveis há centenas de milhões de anos. O Rift Valley é a exceção: uma zona ativa de separação de placas que criou lagos, vulcões e vales profundos no leste do continente.
Por que a África sofre tanto com as mudanças climáticas se polui tão pouco?
A vulnerabilidade da África às mudanças climáticas vem de sua geografia (muitas regiões já semiáridas), de sua estrutura econômica (agricultores que dependem da chuva) e da falta de infraestrutura para se adaptar. Países ricos, que emitiram a maior parte dos gases de efeito estufa ao longo da história industrial, têm recursos para se adaptar (diques, irrigação, seguros). A África não tem essa margem. Esse desequilíbrio é chamado de injustiça climática.
O que é a "Grande Muralha Verde"?
É um projeto de reflorestamento de 8.000 km de extensão, da costa atlântica (Senegal) ao Mar Vermelho (Djibuti), que envolve 11 países do Sahel. O objetivo é criar uma barreira de vegetação que contenha o avanço do Saara para o sul. Além de combater a desertificação, o projeto cria empregos, recupera solos e sequestra carbono da atmosfera. É considerado uma das maiores iniciativas ambientais da história.
Ficha de conceitos
Produção
No início desta aula, você foi questionado sobre o que imagina quando pensa em "África" e quem produz essas imagens. Agora, com o conhecimento geográfico desta aula, é hora de desafiar as imagens que você recebeu.
Questões para responder no caderno
1. Explique a diferença entre o relevo africano e o sul-americano. Por que a África tem mais planaltos antigos do que montanhas jovens?
2. O que é o Rift Valley? Explique como ele foi formado e cite três elementos geográficos que ele originou.
3. Descreva a distribuição climática da África em relação ao Equador. Por que os climas se repetem de forma simétrica ao norte e ao sul da linha equatorial?
4. Qual é a importância do Rio Nilo para o Egito e para o nordeste africano? Como a construção da Barragem do Renascimento pela Etiópia criou um conflito geopolítico?
5. Compare a floresta do Congo com a floresta Amazônica em termos de extensão, volume d'água e importância climática global.
6. O que é o Sahel? Explique o processo de desertificação que ameaça essa região e cite as causas humanas e climáticas desse fenômeno.
7. A África é responsável por menos de 4% das emissões globais de gases de efeito estufa, mas é o continente mais vulnerável às mudanças climáticas. Quem tem responsabilidade sobre esse problema? O que seria uma resposta justa da comunidade internacional?
8. As neves do Kilimanjaro estão desaparecendo. Esse fenômeno é frequentemente usado como símbolo das mudanças climáticas. Por que você acha que a imagem de uma montanha africana com neve é tão impactante para pessoas que imaginam o continente como todo árido e quente? O que isso revela sobre nossos estereótipos?
9. Explique o projeto "Grande Muralha Verde". Quais países participam, qual é o objetivo e como ele se relaciona com os problemas de desertificação do Sahel?
10. Wangari Maathai diz que a África é rica em recursos naturais mas pobre em retornos para sua população. Relacione essa afirmação com a situação ambiental do continente: como a exploração dos recursos naturais africanos contribui para os problemas ambientais estudados nesta aula?
Antes de finalizar, vamos fazer as questões!
Para saber mais:
Referências Bibliográficas
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