Conteúdo:
Objetivo:
O que você já sabe sobre o Oriente Médio?
O Oriente Médio está nas notícias quase todos os dias. Gaza, Israel, Irã, Síria, Líbano, Iraque, Arábia Saudita. Nomes que aparecem em manchetes, mas muitas vezes sem contexto suficiente para entender o que realmente está acontecendo e por quê.
Antes de começar, responda no caderno:
- Quando você ouve "conflito no Oriente Médio", o que vem à sua mente? É uma guerra de religião? Por petróleo? Algo que "sempre foi assim"?
- Você sabe o que é a Faixa de Gaza? Onde fica e quem vive lá? Você já ouviu o ponto de vista dos palestinos sobre o conflito com Israel?
- Por que você acha que os países mais ricos do mundo (EUA, Reino Unido, França) se envolvem tanto em guerras no Oriente Médio? Eles estão lá por altruísmo ou por outro motivo?
Essas perguntas têm respostas complexas. Esta aula vai te ajudar a construí-las com base em geografia, história e geopolítica, não em simplificações.
O problema que esta aula vai iluminar
O Oriente Médio concentra mais de 50% das reservas mundiais de petróleo e 40% das de gás natural. Não por acaso, é também a região do mundo com mais intervenções militares estrangeiras no último século. A questão não é se o petróleo explica tudo, mas é impossível entender os conflitos da região sem entender quem controla esse recurso, quem quer controlá-lo e o que aconteceu com os povos que vivem sobre ele.
Ao mesmo tempo, a questão palestina é um dos conflitos mais documentados e debatidos do mundo, com mais de 75 anos de duração. Entendê-la exige olhar para o colonialismo britânico, a criação do Estado de Israel em 1948, o deslocamento do povo palestino e as décadas de ocupação militar que se seguiram.
Diversidade étnica e religiosa do Oriente Médio. Fonte: elaboração própria.
O petróleo e a geopolítica da região
O Oriente Médio concentra as maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo. A Arábia Saudita, o Irã, o Iraque, o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos juntos detêm mais da metade do petróleo provado mundial. Esse recurso foi, e ainda é, o principal motivo pelo qual as grandes potências mantêm presença militar e política intensa na região.
A história do petróleo no Oriente Médio é uma história de interferência externa:
- Em 1953, o governo democraticamente eleito do Irã, liderado por Mohammad Mosaddegh, foi derrubado por um golpe organizado pela CIA americana e pelo MI6 britânico, após Mosaddegh ter nacionalizado o petróleo iraniano. No lugar, foi reinstalado o Xá Reza Pahlavi, favorável aos interesses ocidentais.
- Em 1990, o Iraque de Saddam Hussein invadiu o Kuwait. Os EUA lideraram uma coalizão para expulsá-lo, Guerra do Golfo (1991), protegendo as reservas kuwaitianas e sauditas.
- Em 2003, os EUA invadiram o Iraque alegando existência de "armas de destruição em massa" que nunca foram encontradas. O país foi destruído, mais de 100 mil civis morreram e o caos gerado abriu espaço para o surgimento do Estado Islâmico.
A OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) foi criada em 1960 como instrumento de poder dos países produtores frente às empresas multinacionais do petróleo. O embargo de 1973, quando os países árabes cortaram o fornecimento de petróleo para os EUA e Europa em represália ao apoio a Israel, quadruplicou o preço do barril e causou uma crise econômica global, mostrando o poder geopolítico desse recurso.
Reservas de petróleo e gás no Oriente Médio. Fonte: EIA (Agência de Informação de Energia dos EUA), 2023.
QUESTÃO PRÁTICA
Em 1973, os países árabes da OPEP decretaram um embargo de petróleo aos EUA e Europa. A principal causa desse embargo foi:
A Palestina histórica: plano de partilha de 1947, fronteiras de 1948 e ocupação desde 1967. Fonte: ONU/OCHA.
O Líbano e os conflitos regionais
O Líbano é um caso singular de diversidade religiosa e de fragilidade política. Com menos de 6 milhões de habitantes, o país divide o poder político entre grupos religiosos (cristãos, sunitas, xiitas, drusos) num sistema chamado confessionalismo, que se mostrou incapaz de garantir estabilidade.
O Líbano passou por uma guerra civil devastadora entre 1975 e 1990, que matou mais de 150 mil pessoas e destruiu o que era chamado de "a Paris do Oriente Médio". O Hezbollah, grupo armado xiita fundado com apoio iraniano em 1982, tornou-se um Estado dentro do Estado, com arsenal militar superior ao do exército libanês e forte presença no parlamento.
Em agosto de 2020, uma enorme explosão no porto de Beirute, causada pelo armazenamento negligente de 2.750 toneladas de nitrato de amônio, matou mais de 200 pessoas, feriu 6 mil e destruiu grande parte da capital. A explosão expôs a falência completa do Estado libanês: anos de corrupção, má gestão e captura política por elites sectárias deixaram o país sem capacidade de proteger sua própria população.
O Líbano foi palco de um dos capítulos mais dramáticos dos desdobramentos da guerra de Gaza. O Hezbollah abriu uma "frente norte" em apoio ao Hamas logo em outubro de 2023, trocando ataques com Israel ao longo da fronteira. Em setembro de 2024, Israel promoveu uma operação sem precedentes: fez explodir remotamente milhares de pagers e rádios usados por membros do Hezbollah, ferindo milhares de pessoas em poucos minutos, e dias depois assassinou, num bombardeio em Beirute, o histórico líder do grupo, Hassan Nasrallah, que comandava a organização havia mais de trinta anos. Um cessar-fogo entrou em vigor em novembro de 2024, mas Israel manteve tropas em pontos do território libanês e seguiu realizando ataques aéreos pontuais. O novo líder do Hezbollah, Naim Qassem, afirmou que o grupo não vai entregar suas armas, mesmo enfraquecido. Em junho de 2026, um amplo memorando de entendimento assinado após a guerra entre Israel e Irã (que você vai estudar a seguir) previu o "encerramento permanente das operações militares em todas as frentes", incluindo entre Israel e o Hezbollah, mas a desmilitarização efetiva do grupo segue incerta.
QUESTÃO PRÁTICA
A Declaração Balfour (1917) é considerada um ponto de origem do conflito israelense-palestino porque:
TEXTO DE APOIO
"A questão da Palestina é, em sua essência, uma questão de colonialismo. Um povo foi deslocado de sua terra para dar lugar a outro povo, com o patrocínio de uma potência colonial. Isso não diminui o sofrimento de nenhum dos dois povos: tanto o povo judeu, que carregou séculos de perseguição e o trauma do Holocausto, quanto o povo palestino, que carregou o trauma da Nakba e de décadas de ocupação. Mas entender as origens exige nomear o colonialismo pelo que é."
SAID, Edward W. A questão da Palestina. São Paulo: Unesp, 2012, p. 34.
Duas rupturas recentes: a queda de Assad e a guerra com o Irã
A Primavera Árabe de 2011, onda de protestos que derrubou governos autoritários no Norte da África, também chegou à Síria. O presidente Bashar al-Assad, no poder desde 2000 (sucedendo seu pai, que governara por trinta anos), reagiu aos protestos tratando os manifestantes como terroristas, e o país mergulhou numa guerra civil longa e internacionalizada: Estados Unidos e aliados apoiaram parte da oposição, Rússia e Irã sustentaram o governo, e o Estado Islâmico aproveitou o vácuo de poder para conquistar território próprio. No auge do conflito, em 2015, o governo sírio controlava apenas 10% do país. Ao longo da década seguinte, Assad recuperou território e chegou a se declarar vitorioso, mas o país seguia isolado internacionalmente e em crise econômica profunda, com mais de 13 milhões de sírios (mais da metade da população) forçados a deixar suas casas ao longo do conflito, a maioria refugiada na Turquia, no Líbano e na Jordânia.
Em dezembro de 2024, tudo mudou em poucos dias: uma ofensiva rebelde liderada pelo grupo islamista HTS avançou sobre Damasco, e Assad fugiu para a Rússia, encerrando mais de cinquenta anos de domínio de sua família sobre a Síria. Um governo de transição assumiu o poder sob a liderança de Ahmed al-Sharaa, ex-comandante do HTS, que se tornou presidente interino em janeiro de 2025 e assinou, em março daquele ano, uma declaração constitucional que lhe garante amplos poderes por um período de transição de cinco anos. O futuro da Síria, um país fragmentado entre diferentes milícias, minorias religiosas e étnicas (incluindo os curdos do nordeste) e um novo governo de origem jihadista tentando se apresentar como moderado, segue incerto.
O evento mais dramático da região em 2025 e 2026, porém, envolveu diretamente o Irã. Em junho de 2025, Israel lançou uma campanha de bombardeios contra instalações nucleares, cientistas e lideranças militares iranianas, alegando que Teerã estava perto de construir uma bomba atômica. Os Estados Unidos entraram diretamente no conflito dias depois, bombardeando as principais instalações de enriquecimento de urânio do Irã. O confronto voltou a escalar de forma ainda mais grave em fevereiro de 2026: numa nova onda de ataques israelenses e americanos, foi morto o próprio líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, no poder havia 37 anos, junto com vários de seus principais comandantes militares. Foi a primeira vez na história que uma potência estrangeira eliminou o chefe de Estado de um país com esse peso geopolítico por meio de um ataque militar direto. Em junho de 2026, um memorando de entendimento entre as partes declarou o fim das operações militares em todas as frentes ligadas ao conflito, mas o Irã ficou com sua capacidade nuclear praticamente destruída e seu sistema político em situação de enorme incerteza.
Esses dois episódios, a queda de Assad e o enfraquecimento drástico do Irã, mudaram o mapa de poder do Oriente Médio: durante décadas, Irã, Síria e Hezbollah formaram o chamado "Eixo da Resistência" contra Israel e o Ocidente. Em pouco mais de um ano, esse eixo perdeu seu elo sírio, seu líder militar mais experiente no Líbano e a própria cúpula de comando em Teerã.
Conceitos estudados nesta aula:
- Islã: sunismo e xiismo
- Curdos: povo sem Estado
- OPEP e geopolítica do petróleo
- Questão Palestina: OLP, Oslo, Nakba, Declaração Balfour, guerra de 2023-2026
- Líbano: confessionalismo, Hezbollah e a morte de Nasrallah
- Queda de Assad na Síria e a guerra Irã-Israel
Qual é a diferença entre sunitas e xiitas no Islã?
A divisão remonta à morte do profeta Maomé em 632 d.C. e tem origem política: quem deveria ser seu sucessor? Os sunitas reconhecem Abu Bakr; os xiitas defendem Ali, primo e genro de Maomé. Hoje a divisão tem peso geopolítico enorme: a Arábia Saudita lidera o bloco sunita e o Irã lidera o bloco xiita. Essa rivalidade alimenta conflitos no Iêmen, no Líbano, no Iraque e na Síria.
Por que os curdos não têm um Estado próprio?
Os curdos são cerca de 35-40 milhões de pessoas com língua e cultura próprias, mas que vivem divididos entre quatro países: Turquia, Iraque, Síria e Irã. Após a Primeira Guerra Mundial, o Tratado de Sèvres (1920) previa a criação de um Curdistão, mas o Tratado de Lausanne (1923) anulou essa previsão, e as potências europeias preferiram manter fronteiras que favoreciam seus interesses estratégicos. Desde então, os curdos lutam por autonomia em todos os países onde vivem e são frequentemente perseguidos.
O que é a Nakba?
Nakba significa "catástrofe" em árabe. Refere-se ao deslocamento forçado de cerca de 700 mil palestinos durante a guerra de 1948 que criou o Estado de Israel. Centenas de aldeias foram destruídas. Os refugiados e seus descendentes, hoje estimados em 5-6 milhões de pessoas, vivem em campos de refugiados no Líbano, Jordânia, Síria, Cisjordânia e Gaza. O direito de retorno dessas famílias é um dos pontos centrais do conflito ainda sem resolução.
Ficha de conceitos
Produção
No início desta aula, você foi questionado sobre o que vem à sua mente quando pensa em "conflito no Oriente Médio" e se já ouviu o ponto de vista dos palestinos. Agora, com o contexto histórico e geopolítico desta aula, você pode ir além das manchetes.
Questões para responder no caderno
1. Por que a divisão entre sunitas e xiitas tem tanta importância geopolítica hoje? Cite dois conflitos atuais em que essa divisão é relevante.
2. Quem são os curdos? Por que eles não têm um Estado próprio, e em quais países eles vivem?
3. Explique o golpe de 1953 no Irã. Quem o organizou, por que, e quais foram as consequências para a história da região?
4. O que foi o embargo de petróleo da OPEP em 1973? Quais foram suas causas e consequências para a economia mundial?
5. O que foi a Declaração Balfour? Por que ela é considerada um ponto de origem do conflito israelense-palestino?
6. Explique o que foi a Nakba. Quantas pessoas foram deslocadas e onde vivem os refugiados palestinos e seus descendentes hoje?
7. Os EUA invadiram o Iraque em 2003 alegando existência de armas de destruição em massa que nunca foram encontradas. Com base no que estudamos sobre petróleo e geopolítica, quais outros fatores podem explicar essa decisão? Quem se beneficiou e quem pagou o custo?
8. Jerusalém é sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos. Como a disputa por essa cidade reflete o problema mais amplo do conflito israelense-palestino? É possível uma solução que respeite os direitos de todos os grupos?
9. O que é o confessionalismo libanês? Por que esse sistema político é considerado uma fonte de instabilidade para o país?
10. Edward Said afirma que "a questão da Palestina é, em sua essência, uma questão de colonialismo". Você concorda? Escreva um argumento a favor e um contra essa afirmação, usando fatos históricos desta aula.
Antes de finalizar, vamos fazer as questões!
Para saber mais:
Referências Bibliográficas
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