Conteúdo:
Objetivo:
A Rússia chegou perto de você
Em 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia. Nos meses seguintes, o preço do trigo e do combustível subiu no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Famílias brasileiras pagaram mais pelo pão e pelo gás de cozinha por causa de uma guerra a 10 mil quilômetros daqui. Isso mostra o quanto a Rússia importa para o mundo.
Antes de começar, responda no caderno:
- O que você sabe sobre a Rússia além do que viu nas notícias sobre a guerra na Ucrânia? É um país democrático? Como as pessoas vivem lá?
- Por que você acha que a Rússia invadiu a Ucrânia? Você ouviu a versão russa? Você ouviu a versão ucraniana? São diferentes?
- A Rússia é um país enorme que atravessa 11 fusos horários. Como isso afeta a vida das pessoas e a organização do Estado?
Esta aula vai te dar ferramentas geográficas e históricas para entender por que a Rússia age da forma que age, sem precisar simplesmente aceitar ou rejeitar qualquer versão pronta.
O problema que esta aula vai iluminar
Como um país com o maior território do mundo, com reservas colossais de petróleo, gás, diamantes e madeira, tem uma economia menor que a do Brasil? Por que um país que se autoproclama herdeiro de uma grande civilização investe em guerra enquanto sua população encolhe demograficamente e emigra? E como a história do Império Russo, da URSS e do colapso soviético de 1991 explica as ações da Rússia hoje?
O território russo: extensão, fusos horários e principais recursos. Fonte: elaboração própria.
Do Império à URSS: a Rússia e sua história de expansão
A Rússia tem uma história de expansão territorial contínua por séculos, a partir do pequeno Principado de Moscou no século XIV. O Império Russo expandiu-se em todas as direções, incorporando povos eslavos, turcos, mongóis, caucasianos, siberiano-asiáticos. Em 1917, a Revolução Russa derrubou o czar e criou a União Soviética, que reagrupou os mesmos territórios sob regime comunista e se expandiu para o Leste Europeu após a Segunda Guerra Mundial.
Em 1991, a URSS se dissolveu em 15 países independentes. Para a Rússia, foi o que o presidente Vladimir Putin chamou de "a maior catástrofe geopolítica do século XX": o país perdeu território, população, influência e prestígio. A crise econômica dos anos 1990 foi devastadora: o PIB russo caiu 50%, a expectativa de vida diminuiu, a criminalidade explorou. Nesse contexto de colapso, Putin chegou ao poder em 2000.
Putin e o Estado russo contemporâneo: desde 2000, Putin concentrou poder progressivamente. A imprensa independente foi fechada ou comprada por oligarcas aliados do governo. Opositores foram presos, envenenados ou mortos. O sistema eleitoral existe formalmente, mas sem competição real. A Rússia de Putin é classificada por analistas como "autocracia eleitoral": as formas da democracia existem, mas o poder real é indivisível. O parlamento aprovou em 2020 uma reforma constitucional que permite a Putin governar até 2036, e em março de 2024 ele foi "reeleito" para um quinto mandato com quase 90% dos votos, numa eleição sem oposição real e marcada pela mais dura repressão a candidatos críticos desde a era soviética.
Fato interessante: mesmo esse controle quase absoluto foi diretamente desafiado em junho de 2023, quando Yevgeny Prigozhin, chefe do Grupo Wagner (a milícia mercenária que lutava ao lado do exército russo na Ucrânia), liderou um motim armado: suas tropas tomaram a cidade de Rostov-on-Don e avançaram rumo a Moscou antes de recuar, em menos de 24 horas, mediante acordo que previa seu exílio em Belarus. Exatamente dois meses depois, em agosto de 2023, o avião particular em que Prigozhin viajava caiu misteriosamente perto de Moscou, matando todos a bordo. O episódio, amplamente interpretado como uma vingança do Kremlin, mostra os limites reais da "autocracia eleitoral": Putin tolera pouquíssima dissidência, mas o motim revelou rachaduras dentro do próprio aparato de poder que sustenta a guerra na Ucrânia.
QUESTÃO PRÁTICA
A economia russa é muito dependente de exportações de petróleo e gás. Isso representa uma fraqueza porque:
O Cáucaso: uma fronteira de conflitos herdada da URSS
A região do Cáucaso, situada entre os mares Negro e Cáspio, ilustra outro tipo de herança deixada pelo colapso da URSS em 1991. Ao desenhar as fronteiras internas de suas repúblicas socialistas, a União Soviética não seguiu critérios étnicos rígidos, o que deixou minorias nacionais presas dentro de repúblicas dominadas por outros grupos. O caso mais grave dessa herança é o de Nagorno-Karabakh, território montanhoso de maioria populacional armênia que a URSS havia incluído dentro dos limites do Azerbaijão.
Com o fim da União Soviética, Armênia e Azerbaijão travaram duas guerras pelo controle de Nagorno-Karabakh, em 1988-1994 e novamente em 2020, além de confrontos menores ao longo das décadas seguintes. Em setembro de 2023, o Azerbaijão retomou o controle total da região em uma ofensiva militar rápida, o que provocou o êxodo de praticamente toda a população armênia local, mais de 100 mil pessoas, para o território da própria Armênia. O episódio marca o fim de mais de três décadas de disputa e mostra como as fronteiras artificiais herdadas de um antigo império (nesse caso, o soviético) continuam gerando conflitos étnicos e territoriais muito tempo depois do desaparecimento desse império.
A diversidade étnica não é só um problema de fronteira externa: ela também atravessa o próprio território russo, organizado em repúblicas como Buriácia, Daguestão e Tartaristão, habitadas por povos não eslavos como buriatos, daguestaneses e tártaros. Desde a mobilização militar de setembro de 2022, ficou claro que a guerra na Ucrânia não pesa igualmente sobre todos os russos: levantamentos de veículos de imprensa independentes mostram que soldados dessas repúblicas periféricas e mais pobres morreram em combate numa proporção muito maior do que moradores de Moscou ou São Petersburgo. A Buriácia, por exemplo, teve uma taxa de mortos em combate por habitante dezenas de vezes maior que a da capital russa, um padrão que expõe como o peso da guerra recai de forma desigual sobre as regiões mais distantes do poder central.
A guerra também aprofundou uma crise demográfica que já vinha de antes: a Rússia registra mais mortes do que nascimentos há anos, e a mobilização de 2022 provocou a saída de centenas de milhares de russos, muitos deles jovens qualificados que temiam ser convocados para o front. Some-se a isso as próprias baixas de guerra, e o resultado é um país que perde população justamente na faixa etária que sustenta a economia e paga os impostos que financiam o Estado no futuro, uma contradição que ajuda a explicar por que, apesar do imenso território e das riquezas naturais, a Rússia enfrenta dificuldades crescentes para sustentar seu próprio desenvolvimento a longo prazo.
QUESTÃO PRÁTICA
A invasão russa da Ucrânia em 2022 elevou os preços do trigo e do combustível no Brasil porque:
TEXTO DE APOIO
"A geopolítica da Rússia é, em grande medida, a geopolítica do medo: medo de ser cercada, medo de perder zonas de influência, medo de ser relegada a potência de segunda classe. Esse medo não justifica a invasão da Ucrânia, mas explica sua lógica interna. Estados que se sentem acuados frequentemente agem de forma que piora sua situação, em vez de melhorá-la. É o que os historiadores chamam de 'dilema de segurança': quando um lado toma medidas defensivas, o outro interpreta como ameaça e responde com escalada."
MEARSHEIMER, John. The Great Delusion: Liberal Dreams and International Realities. Yale University Press, 2018, p. 91.
Conceitos estudados nesta aula:
- Território e recursos naturais russos (taiga, permafrost)
- Dissolução da URSS e consequências para a Rússia
- Dependência do petróleo e gás na economia russa
- Putin: reeleição de 2024 e o motim de Prigozhin (2023)
- Guerra na Ucrânia: perspectivas, incursão de Kursk e impasse nas negociações
- Poder nuclear russo, doutrina militar e fim do tratado New START
- Frota fantasma e a reorientação do comércio russo para China, Índia e Brasil
- Conflitos do Cáucaso e o dilema de segurança na geopolítica
- Federalismo étnico e crise demográfica na Rússia
Por que a Rússia tem tanto território mas uma economia relativamente pequena?
Porque grande parte do território russo é inabitável ou de difícil acesso (Sibéria com clima extremo), porque a economia ficou muito dependente de commodities (petróleo e gás) sem diversificação industrial, e porque o colapso da URSS destruiu o parque industrial soviético sem substituí-lo por algo equivalente. O autoritarismo também afugenta investimentos estrangeiros e talentos, que emigram em busca de liberdade e oportunidades.
O que foi a glasnost e a perestroika?
Reformas implementadas por Mikhail Gorbachev nos anos 1980 para tentar salvar a URSS. Glasnost ("transparência") abriu espaço para liberdade de imprensa e crítica ao governo. Perestroika ("reestruturação") tentou reformar a economia centralizada introduzindo elementos de mercado. As reformas aceleraram o colapso que tentavam evitar: ao abrir o debate público, revelaram a profundidade da crise soviética, e as repúblicas aproveitaram o relaxamento do controle central para declarar independência.
Por que o permafrost derretendo é um problema tão grave?
O permafrost siberiano contém quantidades enormes de metano acumuladas por milênios no solo congelado. Ao derreter, libera esse gás na atmosfera. O metano é um gás de efeito estufa cerca de 80 vezes mais potente que o CO2 em um horizonte de 20 anos. Isso cria um ciclo de retroalimentação: aquecimento global derrete o permafrost, que libera metano, que acelera o aquecimento. Além disso, o derretimento destrói estradas, prédios e oleodutos construídos sobre o solo congelado.
O que foi o motim de Prigozhin e a incursão ucraniana em Kursk?
São dois episódios que mostram rachaduras na aparente força do sistema de Putin. Em junho de 2023, Yevgeny Prigozhin, chefe do grupo mercenário Wagner, chegou a marchar com tropas rumo a Moscou antes de recuar; dois meses depois, morreu num acidente de avião amplamente atribuído a uma retaliação do Kremlin. Já em agosto de 2024, a Ucrânia invadiu a região russa de Kursk, a primeira violação do território russo desde a Segunda Guerra Mundial, forçando a Rússia a recorrer até a tropas norte-coreanas para expulsar os ucranianos. Ambos os episódios desafiam a imagem de controle total projetada pelo governo russo.
Ficha de conceitos
Produção
No início desta aula, você foi questionado sobre o que sabia da Rússia além da guerra na Ucrânia. Agora você tem ferramentas para ir além das manchetes e entender as camadas históricas, geográficas e geopolíticas que explicam por que aquela guerra afetou o preço do pão na sua mesa.
Questões para responder no caderno
1. Qual é a extensão territorial da Rússia e quantos fusos horários ela atravessa? Quais são as implicações disso para a organização do Estado?
2. O que é a taiga siberiana? Por que ela é importante para o clima do planeta?
3. O que é o permafrost e por que seu derretimento é preocupante?
4. Por que o colapso da URSS em 1991 foi tão devastador para a Rússia? Quais foram as consequências econômicas e sociais?
5. O que é a glasnost e a perestroika? Como essas reformas aceleraram o colapso soviético?
6. Explique a dependência da Rússia de exportações de petróleo e gás. Quais são os riscos dessa dependência?
7. Putin chamou a dissolução da URSS de "a maior catástrofe geopolítica do século XX". Você concorda com essa avaliação? Para quem foi uma catástrofe? Para quem foi uma libertação?
8. A invasão da Ucrânia foi justificada pela Rússia como reação à expansão da OTAN. É possível entender a perspectiva russa sem justificar a invasão? Por que as negociações de paz entre os dois países seguem travadas até 2026?
9. Como a guerra na Ucrânia afetou os preços de alimentos e energia no mundo? Por que um conflito na Europa afeta o preço do pão no Brasil?
10. A Rússia exporta quantidades enormes de combustíveis fósseis, mas ao mesmo tempo é um dos países mais afetados pelo aquecimento global (derretimento do permafrost). Como você analisa essa contradição? Que tipo de dilema isso representa para a Rússia?
Antes de finalizar, vamos fazer as questões!
Para saber mais:
Referências Bibliográficas
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