Conteúdo:
Objetivo:
O que o Japão tem que o Brasil não tem?
O Japão é um arquipélago de ilhas vulcânicas, quase sem recursos naturais: não tem petróleo, não tem minério de ferro, não tem terra arável suficiente para alimentar sua população. E ainda assim é a quarta maior economia do mundo, com indústria automobilística e eletrônica de classe mundial, baixíssima criminalidade e uma das maiores expectativas de vida do planeta, tudo isso construído em pouco mais de meio século após sair em ruínas da Segunda Guerra Mundial.
Antes de começar, responda no caderno:
- Como você explica que o Japão seja tão rico sem recursos naturais? O que o Brasil, que tem tudo isso, faz diferente?
- Você já ouviu falar dos "Tigres Asiáticos" (Coreia do Sul, Cingapura, Hong Kong, Taiwan)? O que eles têm em comum com o Japão? O que o Brasil poderia aprender com eles?
- A Oceania existe no seu imaginário? Além da Austrália, você sabe o que existe nessa parte do mundo? Quais povos vivem lá e como o colonialismo afetou a região?
Esta aula vai fechar o mapa do mundo com as regiões mais dinâmicas do Pacífico e as mais ameaçadas pelo aquecimento global.
O problema que esta aula vai iluminar
Por que alguns países asiáticos sem recursos naturais se tornaram potências industriais em poucas décadas, enquanto países ricos em recursos da América Latina e da África continuam exportando matéria-prima? E por que os países mais responsáveis pelo aquecimento global (China, EUA, Europa) são os que menos sofrem suas consequências, enquanto os países insulares da Oceania, que quase não emitem CO2, estão desaparecendo sob o mar?
Há ainda uma terceira pergunta, que fecha o ano: por que mesmo os menores países do planeta, como as Ilhas Salomão ou Cingapura, conseguem pesar na balança da geopolítica global quando ocupam uma posição estratégica, enquanto países grandes e populosos às vezes contam pouco nas decisões que afetam o próprio território? Tamanho, população e recursos naturais explicam menos poder geopolítico do que parece à primeira vista.
Japão e Tigres Asiáticos: potências industriais do Pacífico. Fonte: elaboração própria.
Os Tigres Asiáticos: industrialização acelerada
Entre 1960 e 1990, quatro economias asiáticas de pequeno porte cresceram de forma tão acelerada que foram chamadas de Tigres Asiáticos: Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Cingapura. Todas compartilhavam características: quase sem recursos naturais, Estado desenvolvimentista ativo (que protegia indústrias e canalizava investimento), investimento pesado em educação, e acesso privilegiado ao mercado americano durante a Guerra Fria.
Coreia do Sul: dividida na Coreia do Norte (regime comunista fechado) e Coreia do Sul (aliada dos EUA) após a guerra de 1950-1953, o sul partiu de um dos países mais pobres da Ásia. Hoje, a Coreia do Sul é a 13ª maior economia do mundo, com marcas globais como Samsung (eletrônicos), Hyundai (automóveis), LG e Kia. É também um dos principais exportadores culturais do mundo: K-pop, K-drama e cinema sul-coreano (o filme Parasita ganhou o Oscar de melhor filme em 2020) são fenômenos globais.
Parte desse sucesso tem nome: os chaebols, conglomerados familiares como a própria Samsung, cresceram sob proteção e crédito subsidiado do Estado em troca de metas de exportação, um modelo muito parecido com o capitalismo de Estado chinês estudado nas aulas anteriores. O sucesso teve um preço social alto: a Coreia do Sul tem hoje a menor taxa de natalidade do mundo, resultado de uma cultura de trabalho extenuante, competição educacional brutal (estudantes frequentemente estudam até de madrugada para passar em exames vestibulares) e alto custo de vida nas grandes cidades, o mesmo tipo de envelhecimento populacional acelerado que você já viu acontecer no Japão e na China.
Cingapura: cidade-Estado de 5,6 milhões de habitantes numa ilha de 730 km² (menor que a cidade de São Paulo), Cingapura é um dos países mais ricos do mundo em PIB per capita. Localizada no Estreito de Malaca, por onde passa 25% do comércio marítimo global, transformou sua posição geográfica em vantagem. É governada desde a independência (1965) pelo mesmo partido, o PAP, num sistema classificado como "democracia autoritária": eleições existem, mas a oposição enfrenta obstáculos institucionais. Tem zero tolerância com corrupção e criminalidade, com penas severas (incluindo pena de morte para tráfico de drogas) e leis que restringem liberdades individuais em troca de ordem pública e crescimento econômico, um contrato social bem diferente do que se pratica nas democracias liberais ocidentais, mas que a maioria dos cingapurianos parece aceitar diante dos resultados econômicos entregues.
Taiwan: além da disputa política com a China estudada na aula anterior, Taiwan é, do ponto de vista econômico, um dos Tigres mais bem-sucedidos. Partindo de uma economia agrícola pobre nos anos 1950, investiu pesado em pequenas e médias empresas exportadoras e, a partir dos anos 1980, apostou tudo em semicondutores. A TSMC, fundada em 1987, tornou-se o maior fabricante de chips do mundo, responsável por mais de 60% dos semicondutores mais avançados do planeta. É o caso mais claro de como um território pequeno e sem recursos naturais pode se tornar indispensável para a economia mundial inteira.
Hong Kong: enquanto colônia britânica até 1997, Hong Kong cresceu como centro financeiro e comercial sob um regime de baixíssima taxação e livre movimentação de capitais, funcionando como porta de entrada e saída de investimentos para toda a China continental. Tornou-se um dos maiores centros bancários do mundo, ao lado de Nova York e Londres. Diferente dos outros Tigres, seu crescimento não veio de um Estado desenvolvimentista forte controlando a indústria, mas da combinação entre localização estratégica, sistema jurídico britânico confiável para investidores e proximidade com o mercado chinês. Como você viu na aula anterior, essa autonomia econômica e política vem sendo esvaziada por Pequim desde 2020, o que já afeta a confiança de investidores internacionais na cidade.
QUESTÃO PRÁTICA
Os Tigres Asiáticos se industrializaram sem ter recursos naturais abundantes porque:
A nova disputa pelo Pacífico: China, Austrália e EUA
Os pequenos Estados insulares do Pacífico, que por décadas ficaram fora do radar da grande geopolítica, viraram peça disputada na rivalidade entre China e o bloco liderado pelos EUA e pela Austrália. Em 2022, as Ilhas Salomão assinaram um acordo de segurança com a China, abrindo a possibilidade de presença militar chinesa a poucas horas de voo da costa australiana, o que gerou forte reação de Austrália e EUA. Em 2026, a eleição de um novo governo nas Ilhas Salomão mais próximo de Camberra levou o país a revisar esse acordo e iniciar negociações de um tratado amplo com a Austrália, um sinal de como esses pequenos países conseguem, até certo ponto, negociar entre as duas potências em vez de escolher um lado definitivo.
Do outro lado, Austrália, Reino Unido e EUA formaram em 2021 a aliança AUKUS, cujo principal projeto é fornecer submarinos de propulsão nuclear à Austrália, um investimento bilionário lido amplamente como resposta direta ao crescimento militar chinês na região. Ilhas Salomão, Kiribati, Vanuatu e outros pequenos países acabam se tornando, sem terem pedido, tabuleiro de um jogo de influência entre grandes potências, algo que se repete de formas diferentes em quase todas as regiões que você estudou neste ano: o mais forte disputa espaço, e o mais fraco tenta sobreviver à disputa.
QUESTÃO PRÁTICA
Os pequenos países insulares da Oceania são os mais afetados pelo aquecimento global mesmo sendo os que menos contribuem para ele. Isso representa:
TEXTO DE APOIO
"O que os Tigres Asiáticos fizeram de diferente? Eles não seguiram o caminho que os países ricos pregam para os países pobres: não abriram os mercados de imediato, não privatizaram tudo, não removeram os subsídios. Em vez disso, protegeram suas indústrias nascentes até que estas ficassem competitivas, investiram pesado em educação e pesquisa, e usaram o Estado para escolher setores vencedores. Ironicamente, o que funcionou para eles foi exatamente o que os países ricos fizeram durante sua própria industrialização no século XIX e XX."
CHANG, Ha-Joon. Chutando a Escada: A Estratégia do Desenvolvimento em Perspectiva Histórica. Unesp, 2004, p. 28.
Conceitos estudados nesta aula:
- Japão: milagre econômico, Artigo 9 e desafios do envelhecimento
- Tigres Asiáticos: industrialização com Estado desenvolvimentista
- Coreia do Sul: chaebols e potência tecnológica e cultural
- Taiwan e a TSMC; Hong Kong como centro financeiro
- Cingapura: cidade-Estado e posição geopolítica
- Oceania: colonialismo, testes nucleares e crise climática
- A nova disputa pelo Pacífico: China, Austrália e AUKUS
O que é o kaizen japonês?
Kaizen é uma palavra japonesa que significa "melhoria contínua". É uma filosofia de gestão que propõe que trabalhadores e gerentes devem constantemente identificar e corrigir pequenos problemas no processo de produção, em vez de esperar grandes reformas. Foi adotada pela Toyota e difundida para o mundo todo. Parte do milagre econômico japonês é atribuída a essa cultura de aprimoramento sistemático e trabalho em equipe.
O que é o K-pop e por que ele é importante geograficamente?
K-pop (Korean pop) é o gênero musical de pop sul-coreano que se tornou um fenômeno global com grupos como BTS, BLACKPINK e EXO. Junto com K-dramas (séries) e cinema (o filme Parasita ganhou o Oscar de Melhor Filme em 2020), o K-pop faz parte do que o governo sul-coreano chama de "Hallyu" (onda coreana) - uma política deliberada de exportação de cultura como forma de projeção de poder suave (soft power). O K-pop é um exemplo de como a Coreia do Sul transformou até sua cultura em produto de exportação de alto valor, gerando bilhões de dólares em receita e atraindo turistas e estudantes de idioma coreano no mundo inteiro, um tipo de poder que nenhum exército consegue comprar.
O que é o Estreito de Malaca e por que Cingapura é tão estratégica?
O Estreito de Malaca é uma faixa de mar de 800 km entre a Península Malaia e a ilha de Sumatra (Indonésia). Por ali passa 25% de todo o comércio marítimo mundial e 80% do petróleo importado pela China, Japão e Coreia do Sul. Cingapura, localizada na ponta sul desse estreito, transformou essa posição geográfica em vantagem absoluta: é um dos maiores portos do mundo, centro financeiro asiático e hub de transporte aéreo. Sua prosperidade é inseparável do controle desse ponto estratégico.
Por que Ilhas Salomão, Kiribati e outros micro-Estados do Pacífico importam tanto para grandes potências como China, EUA e Austrália?
Porque, apesar do território pequeno e da população reduzida, esses países controlam zonas econômicas exclusivas enormes no oceano (ricas em pesca e possíveis minérios no fundo do mar) e ocupam posições estratégicas no meio do Pacífico, úteis para bases militares, radares e rotas navais. Um pequeno país pode valer, geopoliticamente, muito mais do que seu tamanho sugere, o mesmo padrão observado em Cingapura no Estreito de Malaca ou em Taiwan na disputa por chips: geografia e posição estratégica podem pesar mais do que população ou território.
Ficha de conceitos
Produção
No início desta aula, você foi questionado por que o Japão é rico sem recursos naturais e o Brasil é "pobre" com tantos recursos. Agora você tem ferramentas para responder essa pergunta com maior profundidade: recursos naturais explicam menos do desenvolvimento de um país do que educação, instituições e a capacidade do Estado de dirigir investimentos para os setores certos, no momento certo. Além disso, você chegou ao fim do mapa-múndi deste ano: completou um percurso por todos os continentes e regiões, com suas geografias, histórias, conflitos e esperanças.
Olhando para trás, um fio conecta praticamente tudo que você estudou: em quase toda região do planeta, a distância entre quem decide e quem sofre as consequências das decisões é enorme, seja o agricultor brasileiro exportando soja para a China, o uigur internado em um campo em Xinjiang, o morador de Tuvalu vendo sua ilha submergir por emissões que não produziu, ou o pescador das Ilhas Salomão vendo seu país virar peça de um jogo entre potências. Entender geografia, no fim das contas, é entender quem tem poder para decidir e quem só pode reagir às decisões dos outros.
Questões para responder no caderno
1. O que foi o "milagre econômico japonês"? Em que período ocorreu e quais foram suas principais causas?
2. Quais são os "Tigres Asiáticos"? O que eles têm em comum em termos de modelo de desenvolvimento?
3. O que é o kaizen? Como essa filosofia contribuiu para o desenvolvimento econômico japonês?
4. Por que o Japão enfrenta problemas com o envelhecimento da população? Quais são as consequências econômicas e sociais disso?
5. O que é o Hallyu (onda coreana)? Por que a Coreia do Sul investe em exportação cultural?
6. Por que Cingapura é um dos países mais ricos do mundo apesar de ser um território minúsculo sem recursos naturais?
7. O Japão se industrializou usando proteção do Estado para indústrias nacionais e investimento pesado em educação, não o livre mercado puro. O que isso diz sobre o modelo que países ricos recomendam para países pobres? Existe contradição entre o que os países ricos fizeram e o que recomendam?
8. Os países insulares da Oceania emitem menos de 0,03% do CO2 global, mas estão sendo os mais afetados pelo aquecimento global. Quem tem responsabilidade por isso? O que seria uma resposta justa dos maiores emissores? Além da crise climática, que outro legado histórico de potências estrangeiras (testes nucleares no século XX) ainda afeta comunidades do Pacífico até hoje?
9. O que é o Estreito de Malaca? Por que ele é estrategicamente importante para o comércio global? Por que pequenos países insulares do Pacífico, como Ilhas Salomão, também se tornaram objeto de disputa entre China, EUA e Austrália?
10. Ao longo deste ano você estudou diferentes modelos de desenvolvimento: China (capitalismo de Estado), Tigres Asiáticos (Estado desenvolvimentista), Brasil (exportador de commodities), países do Golfo (renda do petróleo sem democracia). Qual desses modelos você considera mais bem-sucedido em termos de redução da pobreza E preservação de direitos? Justifique com pelo menos dois exemplos concretos desta aula ou das aulas anteriores.
Antes de finalizar, vamos fazer as questões!
Para saber mais:
Referências Bibliográficas
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